Barbara Cartland

O Marqus Perverso


                 Ttulo Original: The Wicked Marquis
                              Ano: 1973
                      Publicao no Brasil: 1985
                    Traduo: Hella Schwartzkopff


                     Digitalizao: Palas Atenia
                       Reviso: Palas Atenia



 Tmida, sem fortuna, Ornella vivia em casa de parentes, sofrendo com a
                    humilhao de ser rf e pobre.

Depois de muito sofrimento, Ornella encontrou o homem que podia lhe dar
amor. Uma nova pea do destino: esse homem, o marqus de Ryde, era o
           noivo de Caroline, a bela e ftil prima de Ornella!
                                CAPTULO I


                                    1822

        As rvores, j despidas de folhas, recortavam-se contra o cu
avermelhado do fim da tarde, quando as portas da George and Dragon
abriram-se, dando passagem a um nobre de porte alto e ar entediado.
        Respirando fundo, ele olhou em volta e, colocando o chapu sobre os
cabelos negros, observou as pessoas que passavam apressadas, fugindo do
frio intenso de novembro.
        Naquele dia, ao contrrio do habitual, havia um movimento intenso nas
ruas da pacata Village Green. Fora aberta a temporada de caa, e os fidalgos
que se dedicavam a esse esporte chegavam de todos os cantos do pas,
cansados, enlameados e ansiosos por desfrutar de qualquer tipo de prazer...
        Com passos firmes, o nobre desceu os degraus da taverna e rumou
para a esplndida carruagem preta e amarela que o aguardava a menos de
dois quarteires de distncia.
        Apesar de imerso em preocupaes, ele pde ouvir uma discusso que
se travava ali perto.
        -- Por favor, senhores, deixem-me passar -- dizia uma voz suave
de mulher.
        -- No, no! De maneira alguma -- balbuciava um homem num tom que
denunciava sua embriaguez.
        --  isso mesmo... Agora, voc precisa escolher um de ns dois --
reforava outra voz masculina.
        Lanando um olhar de curiosidade para o grupo, ele viu uma jovem
vestida de capa azul orlada de pele cinza.
        Parada prximo a uma casa branca de aspecto modesto e telhado de
colmo, ela tentava, em vo, livrar-se das investidas de dois rapazes, que
usavam calas de pele de alce e casacas com o distintivo do Grupo de Caa
Morden. Prestando maior ateno, o nobre reconheceu um dos jovens que a
importunava. Tratava-se de um baronete semifalido, com fama de conquistador
e briguento, que no parava de repetir:
        -- Vamos logo, boneca... Decida-se! Qual de ns dois voc quer?
        Com um gesto de indiferena, o nobre deu mais alguns passos em
direo  sua carruagem, convencido de que, se Haydon e o amigo haviam
resolvido se divertir seduzindo uma jovem do local, ele no tinha nada a ver
com aquilo.
        No entanto, um segundo apelo da mulher o fez reconsiderar a deciso
de no interferir na diverso dos dois.
        -- Por piedade, deixem-me passar... -- pedia ela, numa voz quase
infantil.
        -- Pare de choramingar, doura. Antes do final da noite voc estar
agradecendo nossa companhia -- afirmou o amigo do baronete,
completamente bbado.
        Ato contnuo, avanou alguns passos e estendeu os braos, como se
fosse agarr-la. Apavorada, a jovem recuou, ficando imprensada contra a
parede.
        -- Creio que vocs ouviram a moa dizer que desejava passar --
interveio o nobre, em tom firme.
       -- Mas que diabos... -- comeou o baronete, antes de virar-se e
reconhecer seu interlocutor.
       Assustada, a jovem demorou para atinar com o que tinha acontecido.
Mas, assim que se deu conta de que estava livre, aproveitou-se da distrao
dos dois rapazes e correu para o lado de seu salvador.
       Embora o capuz lhe encobrisse as feies e a iluminao estivesse
fraca, o nobre observou que ela era muito jovem e graciosa.
       -- Posso acompanh-la at sua carruagem? -- perguntou de maneira
irnica.
       -- O... obrigada, milorde.
       Indiferente ao baronete e seu amigo, que no conseguiam se refazer da
surpresa, ela comeou a seguir o nobre pela ruazinha ladeada de casas de
colmo.
       Do outro lado da Duck Pond, havia pilhas enormes de madeira. Segundo
a lenda, mais de uma dzia de bruxas tinha encontrado a morte nessa ponte,
alguns sculos antes.
       No centro da praa estava estacionado um cabriol fora de moda,
puxado por um gordo pnei malhado, que contrastava de maneira cmica com
os puros-sangues dos veculos elegantes usados pela nobreza que se divertia
na taverna.
       Caminhando rapidamente, a moa de capa azul adiantava-se em
direo ao cabriol.
       Haviam-se distanciado bastante das casas e dos conquistadores
derrotados quando ela tornou a falar, naquele tom suave e melodioso que tanto
atrara o nobre.
       -- Agradeo-lhe a ajuda, milorde. Fui muito tola por esquecer que o
Grupo de Caa se reuniria hoje.
       -- A caada acontece todos os anos.
       -- Apesar disso, no me lembrei.
       -- Ento, aconselho-a a tomar mais cuidado na prxima vez.
       -- Pode ficar tranqilo.
       Ao se aproximar do cabriol, ele reparou que as rdeas estavam
cuidadosamente amarradas ao pra-lamas.
       -- Vai para longe?
       -- No, no muito... Bem, mais uma vez, obrigada.
       Ao lusco-fusco, o nobre a observou, impressionado com sua beleza
quase angelical. De baixa estatura, olhos grandes e amendoados, tez clara e
boca delicada, sua aparncia tinha algo de etreo e primaveril. Algo que lhe
evocava  lembrana uma pintura renascentista, cujo autor ele no conseguia
recordar.
       Ao mesmo tempo, a jovem tinha um qu de misterioso em sua
expresso, sobretudo nos olhos de um azul intenso, sombreados por clios
grandes e curvados. Para completar, algumas mechas de cabelos loiros lhe
escapavam do capuz, tornando-a muito atraente.
       Percebendo-se observada, a moa baixou a cabea, constrangida. Seu
corao batia acelerado, e ela no conseguia libertar-se do magnetismo que
emanava daquele homem alto e moreno, parado a sua frente.
       -- Procure ser mais cuidadosa -- recomendou ele, com voz profunda.
       -- Farei isso, milorde -- afirmou ela, num sussurro.
       -- Agora, posso receber minha recompensa?
       -- Que recompensa?
       Assustada, encarou-o, dizendo a si mesma que jamais vira um homem
to belo, sedutor e ao mesmo tempo cnico, sarcstico... Sem dvida, estava
diante de um aventureiro implacvel, disposto a tudo para conseguir o que
queria e nada acostumado a receber um "no" como resposta.
       Com um sorriso irnico nos lbios, ele a encarou.
       -- Eu a salvei, e a senhorita deve retribuir. No se ensina aqui no campo
que as dvidas de honra devem ser pagas?
       -- No entendo a que se refere, milorde.
       -- Duvido que no...
       Sem completar a frase, ele se curvou ligeiramente e tomou-lhe o rosto
entre as mos, enquanto a fitava de modo sedutor, deixando-a como que
hipnotizada.
       Incapaz de reagir, ela no protestou quando os lbios msculos
pousaram sobre os seus, num beijo cheio de paixo. Por mais que soubesse
que devia fugir, permaneceu esttica, sentindo-se prisioneira daquela carcia...
       No instante seguinte, porm, o nobre libertou-a e ergueu a cabea, com
um brilho zombeteiro no olhar.
       Entretanto, o que mais a assombrava era o fato de no haver resistido...
Em que espcie de magia ele a envolvera, para deix-la to indefesa?
       Sem encontrar resposta, a jovem relanceou um olhar para a figura alta
que desaparecia  distncia e balanou a cabea, inconformada.
       Em seguida, subiu no cabriol e decidiu voltar rpido para casa. Talvez,
na segurana e na calma de seu lar, conseguisse achar alguma explicao
para aquele seu comportamento estranho.
       Minutos depois a aldeia ficava para trs, e o cabriol avanava por uma
estradinha poeirenta, ladeada por inmeros carvalhos centenrios.
       Ao entrarem em campo aberto, ela desviou o pnei para uma trilha
secundria, que terminava numa porteira ladeada de pedras.
       Atravessaram a estrada e logo chegavam em frente a uma bela casa de
estilo elisabetano, com telhados de madeira, janelas com frontes austeros e
portas macias, que lhe davam um aspecto slido e senhorial.
       Assim que o cabriol se aproximou, um criado surgiu dos fundos da
manso.
       O homem vinha correndo e parecia ansioso.
       -- Est atrasada, lady Ornella -- disse ele, preocupado.
       -- Eu sei, Abbey, mas a pobre Sarah expirou h menos de uma hora.
       -- Oh, meu Deus! Ento ela... morreu?
       -- Infelizmente! Mas acho que no devemos nos lamentar. Afinal, ela
vinha sofrendo dores terrveis nesses ltimos meses.
       -- Tem razo. Por sorte, a pobre pde contar com a assistncia de um
anjo como a senhorita em seus ltimos momentos.
       -- S espero ter sido til... Sarah cuidou de mim e de Caroline desde
pequenas, e sinto no ter feito mais por ela.
       Nesse momento a porta da frente se abriu e outro velho, beirando os
setenta anos, foi ao encontro de Ornella.
       -- Que timo que a senhorita chegou! Eu j ia mandar Abbey procur-la.
       -- E o tio Arthur? Melhorou?
       -- O mdico est com ele no quarto, mas no creio que haja muita
esperana.
       -- Vou subir para v-lo.
       Dito isso, desafivelou a capa, que entregou ao mordomo, e passou a
mo pelos cabelos louros, prendendo as mechas atrs da cabea.
       Seu vestido era simples e um pouco fora de moda, mas no lhe ocultava
a graa esbelta, nem a curva suave dos seios.
       O pescoo esguio dava ao rosto delicado um porte altivo, de uma
elegncia quase irreal, como a de uma fada, uma ninfa ou uma jovem deusa
descida do Olimpo.
       Com passos leves, ela subiu a escada recoberta por um carpete j meio
gasto pelo tempo.
       Chegando ao andar superior, permaneceu parada diante da porta do
quarto do tio, hesitando em entrar...
       Somente no dia seguinte Ornella teve tempo para pensar no nobre que a
salvara das atenes indesejveis dos dois caadores, insultando-a em
seguida.
       Teria sido mesmo um insulto? Ser que no o estimulara quele
comportamento, por no protestar ou reagir quando fora beijada?
       Sem dvida, ele a julgara uma camponesa frvola e inconseqente, que
se expunha a passear sozinha pela aldeia e se deixava beijar pelo primeiro
homem que lhe cruzasse o caminho!
       Magoada, Ornella maldisse a hora em que sara sem levar junto um
criado que a escoltasse. Na certa, se houvesse tomado esse cuidado, teria
evitado uma srie de contratempos desagradveis.
       No entanto, no adiantava se lamentar. Ademais, fora obrigada a ir
sozinha visitar a velha Sarah, pois Abbey precisara acompanhar o mdico, para
trazer uma garrafa de remdio para o tio. E o rapaz que cuidava dos estbulos
encontrava-se adoentado, e no havia ningum com tempo disponvel.
       Para piorar, Ornella esquecera por completo que aquele era o dia da
abertura oficial da temporada de caa, e todo o Grupo Morden estaria reunido
na George and Dragon.
       Embora estranho, seu comportamento tornava-se compreensvel  luz
dos ltimos acontecimentos.
       Num curto lapso de tempo, tanto o tio, que a criara desde pequena,
quanto a governanta dela e da prima haviam adoecido gravemente. E a
vspera parecia ter sido a data escolhida pelo destino para pr fim ao
sofrimento dos dois: Sarah morrera ao cair da tarde, e tio Arthur, pouco antes
dos primeiros raios da aurora.
       Segurando as mos da sobrinha, o velho lorde falecera falando de
pessoas h muito desaparecidas, que ela sequer conhecia.
       Lembrara com ternura o irmo, pai de Ornella, e mencionara parentes
que conhecera na infncia e que h muito tinham falecido.
       Pouco antes de morrer, o velho ainda perguntara pela filha.
       -- E Caroline? Onde est Caroline?
       -- Viajando, tio Arthur. Ela gostaria de estar perto do senhor, mas no
pude avis-la, pois no sei seu novo endereo.
       -- Viajando, viajando... Ser que ela vai passar o resto da vida
descontente, pulando de galho em galho? Oh, por favor, Ornella, procure
ajud-la a resolver seus problemas no futuro.
       -- Temo que Caroline no me d ouvidos, tio Arthur.
        -- Ela a escutar, sim.
        -- Assim espero, titio.
        -- Alis, Caroline devia ouvi-la sempre. Toda a vida, voc a influenciou
de modo positivo, e peo-lhe que no a abandone agora, impedindo-a de se
meter em encrencas... Por favor, prometa-me isso, Ornella.
        -- Tentarei fazer o que o senhor me pede...
        -- Prometa!
        -- Est bem... Eu prometo!
        Embora no se sentisse capaz de cumprir o compromisso que acabara
de assumir, Ornella decidira que no pouparia esforos para satisfazer a ltima
vontade do tio.
        Mesmo assim, achava estranho que os ltimos pensamentos do velho
houvessem sido dirigidos  filha. Afinal, Caroline quase nada lhe significara nos
ltimos anos, e ele, s vezes, parecia t-la esquecido, agindo como se Ornella
fosse sua filha legtima, pois tinham inmeros interesses em comum.
        Alm de bonita, alegre e sedenta de vida social, ao contrrio da prima,
Caroline sempre desprezara a pobreza, o desconforto e a ausncia de diverso
de Morden.
        Por isso, na certa, odiaria a idia de ser obrigada a voltar para casa e
administrar a herana, agora que o pai falecera.
        No entanto, Ornella no tinha outra sada a no ser escrever-lhe,
pedindo que viesse o mais rpido possvel.
        Nos meses que se seguiram, Ornella desdobrou-se para cuidar da
propriedade e mant-la em bom estado.
        A muito custo, conseguira que os advogados concordassem em fazer-
lhe um adiantamento para o pagamento dos empregados e os cuidados com o
plantio. Em compensao, intimaram-na a encontrar logo a prima, pois no ti-
nham o direito de mexer em nada sem a devida autorizao de lady Caroline.
        -- Acredito que ela esteja em Roma... -- argumentara Ornella,
constrangida. -- Numa carta que recebi h sete meses, Caroline falava sobre
seu projeto de fazer uma excurso por toda a Itlia, com uma estada prolon-
gada em Roma. Enviei-lhe uma carta por via martima, porm, ainda no obtive
resposta.
        -- Nesse caso, aconselho-a a ser o mais econmica possvel, srta.
Stanyon.
        O tom firme com que o advogado se expressara no deixava dvidas de
que ele no liberaria nem mais um centavo do patrimnio da prima sem a
presena dela. E, inibida, Ornella baixou a cabea, murmurando:
        -- Farei o que estiver a meu alcance, dr. James.
        Horas mais tarde, Ornella se lembraria do momento em que fora aberto
o testamento, aps o modesto enterro do tio.
        O dr. James, com ar circunspecto, reunira todos os parentes na
biblioteca e, tirando alguns papis de uma pasta, lera, em voz alta:
        -- "Deixo a cargo de minha nica filha e herdeira universal, Caroline
Stanyon, a guarda de minha sobrinha, Ornella Stanyon, cuja bondade e
dedicao durante os ltimos anos causaram-me grande felicidade.
Recomendo-lhe tambm que permita  sua prima fazer desta sua prpria casa.
Peo a Ornella, como retribuio, que ajude minha filha, sendo para Caroline o
que foi no passado: sua inspirao e sua conscincia!"
        Quando o advogado ergueu os olhos do testamento para encar-la,
Ornella enrubesceu, estranhando o pedido do tio.
       Ao mesmo tempo, um suspiro de alvio escapava dos lbios dos
parentes presentes, que temiam ver-se na contingncia de arcarem com sua
guarda, caso Arthur Stanyon no a houvesse garantido antes de morrer.
       No momento em que ficou a ss, porm, Ornella comeou a encarar o
futuro com apreenso.
       O que pensaria Caroline daquilo tudo? Estaria disposta a bancar a
guardi de uma moa com quem se criara, mas com a qual nada tinha em
comum?
       Durante a adolescncia, ela se aproveitara do fato de Ornella ser mais
jovem para torn-la sua confidente.
       Assim, era comum que ambas ficassem at altas horas da noite
conversando, e Caroline relatava suas aventuras com os rapazes da regio,
que invariavelmente ficavam seduzidos por sua beleza exuberante.
       Alis, seria estranho que isso no acontecesse, uma vez que no havia,
nas redondezas, uma nica jovem que se comparasse a Caroline.
       Pouco antes de atingir a idade de debutar, ela fora passar uma
temporada na casa da madrinha, em Londres, e voltara exultante com o
sucesso que fizera com seus cabelos encaracolados, olhos negros e boca
sensual.
       Entusiasmada, falara dias a fio a respeito dos almofadinhas que
praticamente haviam se jogado a seus ps, recitando poemas e louvando sua
beleza, durante os interminveis passeios pela freqentadssima rua Saint
James. Aos dezessete anos, quando se apaixonara, Caroline monopolizara a
ateno da prima, discorrendo sobre seus sentimentos, dissabores e planos
para o futuro. s vezes, suas confidncias revelavam uma ingenuidade e uma
imaturidade to grandes, que Ornella, apesar de trs anos mais nova, chegava
a se julgar mais preparada para enfrentar as adversidades da vida.
       Por isso, preocupada com o comportamento impulsivo da prima, ela no
se cansava de aconselh-la, procurando evitar que Caroline fizesse algo de
que viesse a se arrepender. No entanto, na maioria das vezes, suas interven-
es resultavam inteis.
       -- A vida  curta; quero divertir-me e aproveit-la ao mximo! -- repetia
a jovem, justificando-se quando se sentia censurada.
       Terrivelmente impetuosa, ela se casara aos dezoito anos com um primo
distante, tido como bonito, audacioso, jogador e irresponsvel...
       Entretanto, Ornella sabia que aquele era um gesto desesperado, uma
reao  mgoa de ter sido abandonada pelo homem a quem amava, sua
primeira e nica paixo verdadeira: lorde Faringham.
       Com a morte do pai, seu antigo namorado herdara uma propriedade
arruinada e uma infinidade de dvidas, o que o levara a querer separar-se dela.
       Caroline chorou copiosamente, fazendo declaraes confusas e
incoerentes, mas tudo tinha sido intil.
       -- Sou um nobre de bolsos vazios e casa em runas. De que vale meu
amor nessas circunstncias? -- argumentava ele.
       Poucos dias depois, mandava uma carta, pedindo a ela que o
esperasse.
       "Farei fortuna, minha querida. Eu a amo! Espere por mim.
       George Faringham."
       Porm, passada a depresso inicial, Caroline no esperou.
        Imatura e profundamente decepcionada, deixou-se arrastar pelo primo
libertino, tentando enganar a prpria infelicidade num casamento absurdo com
o irreverente Harry Stanyon.
        Seis meses depois, Harry desaparecia em circunstncias trgicas.
Morreu como sempre tinha vivido: cavalgando como um louco pelos campos,
disputando uma corrida.
        Essa tragdia, que podia ter sido evitada, fez com que se comentasse
que as extravagncias da regncia tinham ido longe demais. E o prprio
prncipe regente foi considerado uma influncia perniciosa e um pssimo
exemplo para os jovens cavalheiros que tentavam imit-lo.
        Quando o assunto caiu no esquecimento, e as charges e artigos
criticando a sociedade desapareceram das manchetes de jornais, Caroline era
uma viva de apenas dezenove anos, apreensiva quanto ao futuro.
        Por sorte, a madrinha surgira para salv-la, propiciando-lhe uma turn
pela Europa.
        Desde ento, ela se desligara por completo da realidade cinzenta de
Morden e s raramente mandava notcias, contando o que fazia ou por onde
andava.
        Lembrando-se da prima, Ornella suspirou. Embora Morden no fosse
distante de Londres, seria impossvel para Caroline continuar levando aquela
vida extravagante.
        Nos ltimos tempos, as coisas andavam difceis para todo mundo, e,
aps pagar as despesas com a manuteno da propriedade, o dinheiro que
sobrava para os gastos mais suprfluos ficava reduzido a uma soma nfima,
que mal lhes permitia conservar todos os empregados.
        Aflita com a perspectiva de vir a tornar-se um peso nas costas da prima,
Ornella levantou-se e caminhou decidida para o escritrio do tio.
        H anos ela o ajudava, passando a limpo os originais de um livro que o
conde no conseguira concluir, o que servira para coloc-la em contato com
informaes que, de outro modo, jamais obteria.
        Examinando o arquivo onde se encontravam as cpias do Hansard que
continham as transcries dos discursos feitos na Cmara e no Parlamento,
chegou  concluso de que, se no seria vivel concluir o livro no lugar do tio,
podia pelo menos utilizar aquelas informaes para outra finalidade...
        Sem pensar duas vezes, resolveu pr mos  obra. Deu ordens para
que ningum a interrompesse, exceto nos horrios das refeies, e sentou-se 
escrivaninha, comeando a trabalhar. Passou todo o ms de dezembro nessa
atividade, e somente na primeira semana de janeiro deu-se por satisfeita.
Pegou um calhamao de folhas manuscritas, numerou-as e empacotou-as,
enviando o embrulho para Londres.
        Durante o ms de maio, a monotonia de Morden foi quebrada pela
chegada sbita de Caroline. No incio, Ornella teve dificuldade em reconhecer a
muIher elegante que desembarcava com grande alegria da luxuosa carruagem
puxada por quatro cavalos castanhos.
        Logo, porm, identificou a figura da prima.
        Vestindo um sofisticado casaco de veludo vermelho com acabamento
em arminho e um chapu enfeitado com penas de avestruz, amarrado sob o
queixo com fitas de cetim, Caroline correu a abra-la assim que a viu.
        -- Ornella, minha querida, quantas saudades! Nem imagina como acho
maravilhoso rev-la. Tenho tantas novidades para lhe contar...
        Sem parar de falar, entrou pelo vestbulo, rindo, agradando os velhos
empregados e gesticulando muito. Ao chegar ao hall, atirou o casaco sobre
uma cadeira e correu para a sala, acomodando-se no sof.
        Com uma expresso admirada, examinou a prima de alto a baixo.
        -- Nossa, que diferena! O que aconteceu com voc, Ornella? Cheguei
aqui esperando encontrar aquela mesma menininha ingnua que se sentava
em minha cama para ouvir aventuras amorosas, e no entanto...
        -- Ora, querida,  impossvel impedir o tempo de passar. Tenho dezoito
anos agora, e voc completar vinte dois em julho!
        -- Ai, nem me lembre disso... Mas, de fato, voc se transformou numa
mulher muito bonita, Ornella.
        -- Perto de voc, qualquer pessoa empalidece.
        -- Em absoluto! Sempre nos completamos... Voc era o pequeno anjo e
eu, demnio, lembra-se?
        -- Voc sempre foi a mulher mais bonita e corajosa que conheci.
        Caroline riu, encantada com o elogio.
        -- Oh! Tenho tanto para lhe contar!
        Em seguida, deu uma olhada ao redor e, com um muxoxo de desagrado,
comentou:
        -- Meu Deus, como tudo est malconservado! Felizmente podemos
partir rpido para Londres.
        -- Londres? Mas... mas...
        -- Nem mas, nem meio mas. Eu j tinha planejado lev-la como
acompanhante. Alm disso, considero um desperdcio uma jovem linda como
voc ficar escondida nesse buraco.
        Percebendo o ar apreensivo de Ornella, ela se levantou e abraou-a,
carinhosa.
        -- Vamos incendiar a cidade, e logo voc estar aparecendo nas
colunas sociais.
        -- No exagere, Caroline. Com voc do lado, quem se daria ao trabalho
de olhar para mim?
        -- Pare de subestimar-se, seno sou capaz de puxar sua orelha, hein?
Tenho certeza de que ns duas iluminaremos a sociedade com nosso brilho.
Alis, fiquei radiante quando descobri que papai havia me nomeado sua guar-
di...
        -- Faz tempo que recebeu as notcias sobre tio Arthur?
        -- Assim que cheguei  casa de minha madrinha, em Londres, encontrei
uma carta dos advogados...
        -- Tambm escrevi para Roma...
        -- Sua carta chegou depois que eu havia partido para Paris. Por isso,
somente a li na semana passada, .junto com a comunicao dos advogados e
uma cpia do testamento.
        -- Ento, voc deve saber que dispomos de pouco dinheiro, e no ser
vivel nos mudarmos para Londres...
        Caroline interrompeu-a com uma risada divertida, como se nada no
mundo pudesse abalar sua vontade. Depois, anunciou num tom de suspense:
        -- Ainda no lhe contei as novidades... Prenda o flego, porque 
fantstico: vou me casar!
        -- Casar? De novo?! Com quem?
        -- Nem em cem anos voc descobriria...  to maravilhoso! s vezes
eu mesma no acredito que o marqus de Ryde tenha pedido minha mo.
        -- O marqus de Ryde? No o conheo.
        -- Voc no conhece o marqus?! Que vergonha, Ornella! Duvido que
nunca tenha escutado algo sobre o "Marqus Perverso"!
        -- O "Marqus Perverso"? Como tem coragem de tornar-se esposa de
um homem tido como perverso, Caroline?
        -- Isso  o de menos. O importante  que encontrei o homem mais
esquivo, perseguido e desejado de toda a Gr-Bretanha.
        Aps tomar flego, ela continuou:
        -- Sua Excelncia  riqussimo! Possui tantas propriedades que talvez
nem conhea todas. E creio que ningum o iguale em beleza e firmeza de
carter.
        -- Ele a ama?
        -- A bem da verdade, considero-o incapaz de amar! Porm,
independentemente disso, ele precisa de uma esposa que lhe d um herdeiro e
ornamente suas festas... Haveria algum melhor do que eu?
        A jovem falava num tom alegre e inconseqente, mas de repente,
baixando a voz, confidenciou:
        -- Nunca pensei que conseguiria, Ornella... Encontramo-nos em Paris,
e o marqus disse que me admirava. Logicamente, no acreditei, e at hoje
desconfio que ele estivesse metido em alguma trapalhada.
        -- Como assim?
        -- Ouvi rumores de que andava s voltas com uma dama muito
importante, o que poderia lhe causar um escndalo poltico.
        -- Oh! Que horror! Tem certeza de que sabe o que vai fazer, Caroline?
        -- Claro! No vejo a hora de me tornar a marquesa de Ryde: a
personalidade mais importante de toda a Inglaterra, depois da famlia real!
        -- E George Faringham? -- perguntou Ornella, num murmrio.
        Uma rpida expresso de dor passou pelos olhos de Caroline.
        -- A essas alturas, George deve estar morto! Faz muito tempo que no
ouo falar dele, e acredito que tenha se mudado para a ndia ou algum outro
pas extico.
        -- Voc o amava, e s se casou com Harry numa hora de desespero.
Por isso, sempre imaginei que iria esperai a volta de George.
        -- Ele no vai voltar! Ponha na cabea que George jamais voltar! Alm
do mais, minha viso de mundo mudou demais. Naquela poca, eu tinha
apenas dezessete anos e no sabia nada sobre o amor.
        -- Duvido! E ns sabemos muito bem que George s partiu porque a
amava e queria poup-la da pobreza e do desconforto.
        -- E quanto tempo ele pretende levar para refazer sua fortuna? No seja
ingnua, Ornella. Recebi uma proposta de casamento brilhante e no vou jog-
la fora. Ningum me impedir de ser a marquesa de Ryde.
        Sacudindo os ombros com indiferena, Ornella manteve-se alguns
instantes em silncio, antes de perguntar:
        -- Sabe a razo de seu futuro marido ser chamado de perverso?
        -- Na certa foi obra de algum marido ciumento. Como lhe falei, as
mulheres vivem a persegui-lo.
        -- Isso no me parece motivo suficiente para uma alcunha to... forte.
        -- Voc  que pensa! No h um nico homem na corte que no se roa
de raiva ao v-lo. Afinal, apesar de imensamente rico, o marqus ganha
verdadeiras fortunas jogando cartas, e seus cavalos sempre obtm boa
classificao nas corridas. At mesmo o regente o consulta durante os
preos... Portanto, as pessoas sentem inveja e atribuem a ele toda sorte de
crimes.
        -- E isso  tudo?
        --  claro que no! Ele promovia orgias to ultrajantes em Roma, que o
papa ameaou de excomunho quem as freqentasse, e, em Veneza, uma
princesa tentou o suicdio quando o marqus se cansou dela.
        -- Ela morreu?
        -- No! No! Bem, em Paris o marqus causou tanto falatrio nos
sales de jogo do Palais Royal, que ele mesmo achou mais prudente retornar
para casa. Enfim, creio que merece o nome que tem.
        -- Voc acredita que, no ntimo, ele seja realmente perverso?
        -- Sei l... S espero que no se mostre tedioso como tantos homens.
        -- Acha que comear a am-lo com o tempo, Caroline?
        -- Amar? O marqus sequer acredita no amor! Ah, Ornella, j notei que
precisarei ensinar-lhe muitas coisas. Na certa, uma mulher possessiva e
sentimental apenas o entediaria. Assim, nosso relacionamento ser quase que
um pacto comercial: eu lhe darei um herdeiro, em troca de uma vida alegre e
luxuosa. Isso  tudo o que desejo...
        -- Tudo?...
        Houve uma pequena pausa, durante a qual Caroline pareceu refletir
sobre sua existncia. Depois, com um olhar desafiador, encarou a prima,
afirmando:
        -- Sim, Ornella. Riqueza e prestgio social so as nicas coisas que
desejo.


                                CAPTULO II


       Durante a viagem para Londres, Caroline no parou de falar um minuto,
deliciando Ornella com suas aventuras na Itlia e na Frana.
       Como no podia deixar de ser, passou a maior parte do tempo
descrevendo seus romances, sobretudo com um jovem conde francs.
       -- Oh, Ornella, ele era louco por mim, e passamos momentos
inesquecveis juntos.
       -- Isso aconteceu antes de voc ter se comprometido com o marqus?
       Com um sorrisinho malicioso, a jovem negou com um gesto de cabea.
       -- Meu Deus, tente ser menos provinciana, Ornella.
       -- Quer dizer que, mesmo depois de prometer casar-se com o marqus,
voc flertou outros homens?
       -- Claro! De onde tirou a idia de que passarei a agir como uma freira?
       -- No exagere, Caroline. Sem dvida, o marqus espera um
comportamento adequado de sua futura esposa.
       -- Mas eu agi com a maior discrio. Tomamos o cuidado de nos
encontrarmos  noite, nos jardins do castelo. E, quando chovia, ele entrava
escondido no meu quarto.
       -- Caroline! Como pde se comportar to mal? O que teria acontecido
se o marqus descobrisse?
        -- Na certa, ele andava ocupado com as prprias amiguinhas para se
preocupar com isso. Alis, elas so tantas, que nem sei seus nomes.
        -- E o que acontecer quando vocs estiverem casados?
        Preocupada, Ornella ps-se a pensar na sorte que aguardava a prima.
        Devido  sua grande beleza, Caroline sempre fora extremamente
mimada. Entretanto, por trs de sua aparente frivolidade, havia uma pessoa
meiga, carente de afeto e proteo...
        Era como um animalzinho selvagem que, em suas loucas tentativas de
ser feliz, corria o risco de tornar-se to irresponsvel como Harry, seu primeiro
marido.
        A adulao e a admirao tinham nela o efeito do vinho, e Caroline
precisava de algum que a mantivesse com os ps firmes no cho.
        -- E houve um prncipe em Roma... -- continuava Caroline, contando
uma aventura amorosa realmente intrigante.
        Embora no tecesse nenhum comentrio, Ornella no conseguiu
reprimir um suspiro de tristeza ao imaginar o efeito dessas atitudes levianas da
prima. Se continuasse a agir daquela maneira, em breve Caroline estaria com a
reputao completamente arruinada.
        Assim que a jovem acabou de falar sobre os beijos furtivos que trocava
com o prncipe durante os bailes, descrevendo em detalhes estratagemas que
usavam, disfarando-se, para se encontrarem em horas tardias,  beira do
lago, Ornella perguntou:
        -- Mas voc amava esse homem?
        -- Eu era louca por ele -- declarou Caroline com a voz velada pela
emoo.
        -- E o prncipe?
        -- Creio que tambm me amava.
        -- Ento por que vocs no se casaram?
        -- Porque ele j era casado.
        Perplexa, Ornella empertigou-se nas almofadas da carrugem.
        -- Caroline! Que tolice foi essa de se envolver com um homem casado?
        -- Oh, no me critique, querida -- pediu a jovem num tom choroso. --
Nunca vi homem mais bonito e irresistvel do que ele! Quando eu ficava em
seus braos, nada no mundo me importava... Alm disso, eu estava muito
infeliz com a morte de Harry, e precisava de consolo.
        -- Que desculpa esfarrapada, Caroline! Voc nunca ligou para Harry, e
a nica vez em que a vi infeliz foi quando George Faringham partiu.
        -- Por favor, pare de tocar nesse assunto, pois no pretendo chorar a
ausncia de George para o resto da vida, certo? E mais: no mudarei meu
modo de ser. Sou jovem e quero me divertir muito no futuro.
        -- Voc  quem sabe. E o marqus? O que acha disso?
        -- Ele jamais se importar com o que eu faa, desde que no cause
escndalos. Mal posso esperar a hora em que disporei de dinheiro para gastar
 vontade, comprando roupas extravagantes e fabulosas. Desejo assombrar
todas essas mulheres esnobes que vivem me olhando de cima.
        Com um brilho zombeteiro no olhar, acrescentou:
        -- Todos parecero muito tolos, porque tero de se mostrar corteses
com a marquesa de Ryde. Por mais que lhes desagrade, sero obrigados a me
bajular e a me admirar publicamente. J imaginou que vingana maravilhosa,
Ornella?
       Impressionada pela determinao que havia na voz da prima, Ornella
tomou-lhe as mos entre as suas e fitou-a com um misto de apreenso e pena.
       -- Minha querida, no se rebaixe ao nvel dessa gente ftil. Voc
sempre foi doce e gentil, mas, quando a ouo falar assim, sinto-me diante de
uma estranha.
       --  impossvel! A vida me magoou demais e me fez descobrir que o
nico modo de no sofrer  a superficialidade.
       Comovida pela amargura de Caroline, Ornella resolveu lanar mo de
todos os recursos para persuadi-la a no se deixar levar pelo desnimo.
       -- Voc nunca foi pessimista em relao a nada, e espero que no
desanime agora. Desejo v-la lutando pela felicidade e acreditando no futuro,
Caroline.
       Soltando-se das mos da prima, Caroline enxugou as lgrimas que lhe
haviam invadido os olhos.
       -- Vou tentar, Ornella. Juro! Mesmo assim, sei que jamais recuperarei a
f que possua durante a adolescncia. Talvez o nico modo de afastar essa
angstia que me atormenta atualmente seja essa falsa alegria, a felicidade dos
sales.
       -- No a condeno por desfrutar essas diverses. Peo-lhe apenas que
no se transforme numa dessas mulheres vazias, que s se preocupam
consigo mesmas.
       -- Vou tentar -- sussurrou, baixando a cabea. Minutos mais tarde,
numa sbita mudana de humor, Caroline bateu uma das mos na testa, num
gesto de esquecimento.
       -- Roupas!  nisso que preciso me concentrar no momento, Ornella.
       -- No esquea que ainda existe uma hipoteca da propriedade para ser
paga. Portanto, voc no poder gastar muito com o enxoval.
       -- Ora, nem me passou pela cabea comprar um enxoval com a
ninharia que papai deixou!
       -- No me diga que... No pretende... Caroline, voc no pode pedir
esse dinheiro ao marqus. Seria um absurdo!
       --  lgico que no pedirei a ele para pagar o enxoval antes do
casamento... No entanto,  costume dos maridos pagarem as dvidas da
esposa.
       -- Duvido que voc faa algo to desonesto.
       -- Pois garanto que vou fazer! Do jeito que  rico, ele nem perceber
que usei alguns milhares de libras com enfeites para o casamento. Alm disso,
recuso-me a usar um vestidinho qualquer diante do altar e virar motivo de
chacota para toda a alta sociedade.
       -- No aprovo esse tipo de comportamento.
       -- No se preocupe, meu amor. Isso ir benefici-la tambm, pois eu lhe
darei todas as minhas roupas velhas. Depois de algumas pequenas reformas,
voc ficar linda usando-as. Veja s como ficou elegante com esse casaco de
viagem que lhe dei...
       -- De fato, ele  maravilhoso! E, caso eu tivesse vindo com minha velha
pelerine, sei que iria passar vexame em Londres.
       -- Ento, por que tanto drama? Tora para meu plano dar certo, seno
ficaremos parecendo duas mendigas.
       -- Quanto exagero! Em ltimo caso, posso fazer alguns vestidos,
imitando os modelos da moda.
       -- Da no nos sobraria tempo para mais nada a no ser costurar, e
Londres no  como Morden, onde os meses correm sem que nada quebre a
monotonia! A propsito, Ornella, como aguentou viver l tanto tempo?
       -- Ao contrrio do que voc pensa, eu tinha muito trabalho para
preencher o tempo ocioso, e sempre gostei de ajudar tio Arthur em suas
anotaes.
       -- Coitado do papai! Dedicou a vida queles papis a troco de nada.
Quem ir l-los agora? Bem, isso j passou, e estou determinada a transformar
voc num sucesso social. E o primeiro passo  faz-la entender que, na alta-
roda, belas roupas so uma necessidade, no uma extravagncia!
       -- Nesse caso, creio que seria aconselhvel eu voltar para o campo.
       -- De jeito nenhum! Ao invs disso, trate de reformar os vestidos que lhe
dei...
       -- Tem certeza de que quer dispor deles? So relativamente novos...
       -- Na minha posio, s posso usar uma roupa duas ou trs vezes.
       Como Ornella no respondesse, ela continuou:
       -- Enquanto eu no arranjar outra soluo, voc pode improvisar,
usando esses vestidos que lhe dei.
       -- Ser que acostumarei? Sinto-me to estranha com esse tipo de
cintura alta...
       -- Em Paris, todo mundo usa roupas justas, e dentro de um ano esse
tipo de corte reto estar completamente fora de moda. Ento, ns nos
tornaremos famosas por introduzir os modelos de cintura marcada.
       Desanimada, Ornella concluiu que no valia a pena discutir com a prima
e permaneceu calada, ouvindo a tagarelice da outra acerca dos elogios que
recebera de um nobre francs, durante um baile nas Tulherias.
       Sem dvida, as jovens eram bonitas o suficiente para virarem a cabea
de qualquer cavalheiro.
       Naquele momento, pareciam duas imagens sadas do Ladies's Journal.
Muito sofisticada, Caroline usava um abrigo de viagem negro, e Ornella, um
casaco azul-jacinto bem claro.
       A beleza deslumbrante de Caroline poderia atrair e seduzir de imediato
qualquer homem. Em compensao, ele fixaria na memria os olhos grandes e
a expresso etrea de Ornella.
       Apesar de dar pouca importncia a roupas e outras pompas do gnero,
Ornella sabia que era necessrio chegar a Hyde House, em Park Lane, numa
carruagem vistosa e razoavelmente bem vestida. Afinal, no queria estragar os
planos da prima, impressionando seu noivo de maneira negativa.
       -- J que vocs vo se casar, no acho isso correto -- protestara
Ornella ao descobrir que iriam hospedar-se na manso do marqus.
       -- Por qu? Meu noivo convidou a av, a viva do conde de Wantage,
para nos fazer companhia... alm disso, o palcio  to grande que, mesmo
que uma dzia de pessoas se hospedem l, ningum ser incomodado.
       -- No tive a inteno de insinuar que voc o incomodaria. Apenas me
preocupo com o fato de vocs viverem sob o mesmo teto antes do casamento.
       -- Ele sabe se comportar, e alugar uma casa durante um ms seria uma
extravagncia imperdovel para ns.
       -- Um ms!
       -- Por que tanta surpresa? Quanto antes eu tiver a aliana no dedo,
mais segura estarei de que minha boa sorte no vai mudar.
        -- Acha que ele seria capaz de desistir na ltima hora?
        --  claro que no acredito que o marqus voltasse atrs em seu
compromisso. Acho at que o comunicado j foi publicado no Gazzette esta
semana. Lembre-me de verificar isso assim que chegarmos a Londres.
        -- Ento, no compreendo a razo de tanta pressa...
        -- Tenho o horrvel pressentimento de que minha boa sorte precisa ser
agarrada logo, a qualquer preo, seno pode evaporar-se.
        -- Assim como o "ouro das fadas" de nossas histrias infantis...
        Quando eram crianas, as duas passavam longas horas procurando o
ouro enganoso que, de acordo com as lendas, as fadas escondiam na floresta
a fim de atrair viajantes ambiciosos.
        -- A diferena, Ornella,  que o que est em jogo no  o ouro
enganoso, que se desvanece quando tocado pelo homem, mas ouro de
verdade: a fabulosa fortuna do marqus!
        Ao ultrapassar os portes de ferro, a carruagem diminuiu o passo,
enquanto percorria a trilha de cascalhos brancos que cortava os jardins da
imponente Ryde House, um castelo feito com pedras acinzentadas e enfeitado
por torrees.
        Assim que o veculo estacionou ao p de uma escadaria de mrmore,
um tapete vermelho foi estendido e um velho mordomo de libr adiantou-se
para receber as duas primas com gestos cerimoniosos, conduzindo-as a seguir
para o hall de entrada.
        Enquanto tirava o chapu, Ornella observou a perfeio das pinturas
que recobriam os tetos altos da manso, reproduzindo personagens da
mitologia grega, no mais puro estilo renascentista.
        Aps uma reverncia afetada, o criado indicou-lhes um corredor que
conduzia a um salo com vista para o jardim.
        Decorado de mveis pesados com detalhes em ouro, o cmodo era
muito amplo e requintado. Do teto, presos por grossas correntes, pendiam dois
lustres de cristal, e as paredes exibiam uma grande quantidade de tapearias e
quadros valiosos.
        Num dos cantos, acomodada num canap forrado de seda, estava uma
senhora de cabelos brancos.
        Contando cerca de oitenta anos, conservava os traos de uma beleza
clssica e usava os cabelos presos num coque alto, o que realava a forma
ovalada de seu rosto.
        Como de costume, a duquesa vestia-se toda de branco e usava muitas
jias. Um colar de prolas e uma infinidade de braceletes de diamantes e anis
de rubi faziam-na parecer uma estrela cintilante.
        Parado ao seu lado, um menino vestido a rigor abanava com um leque
de penas de pavo.
        Dando um passo  frente, Caroline adiantou-se para cumpriment-la
com uma reverncia discreta.
        -- Salve, Caroline Stanyon! Devo desejar a voc e ao meu neto os votos
de muitas felicidades -- disse o duquesa, em tom irnico.
        -- Muito obrigada, Alteza. Agradeo-lhe tambm por aceitar ser nossa
acompanhante. Confesso que acho mil vezes mais agradvel ficar em Ryde
House do que alugar acomodaes inferiores e caras nesta poca do ano.
        -- Fiquei encantada com o convite para acompanh-las. Jamais gostei
do campo, e sinto-me entediada onde moro.
       Caroline deu uma risada.
       -- Mas Sua Alteza me disse que a senhora vem sempre para Londres,
passar uma temporada com ele.
       -- Vejo que meu neto contou muitas histrias a meu respeito... Agora,
que tal apresentar-me  sua prima?
       -- Pois no! Esta  Ornella Stanyon. Como pode notar, apesar de
termos sido criadas juntas, somos o oposto uma da outra, tanto na aparncia
quanto no carter.
       Os olhos brilhantes e perspicazes da duquesa examinaram Ornella de
alto a baixo, detendo-se em seu rosto de traos angelicais.
       -- O que espera encontrar em Londres, minha criana? Um marido?
       Constrangida pela aspereza que havia na voz da anfitri, Ornella corou
fortemente.
       -- Na verdade, no tenho planos, e sinto-me feliz de poder acompanhar
Caroline.
       Ignorando a resposta, a duquesa comentou:
       -- No vejo dificuldade para lhe encontrar um excelente partido... Com
sua beleza e o contraste intrigante entre vocs, ser fcil encher esta casa com
cavalheiros apaixonados. Mas vou agir com severidade. Os pedidos dos
cavalheiros sem condies no sero levados em considerao. -- Virando-se
para Caroline, acrescentou: -- Sua prima tambm dever arranjar um marido
invejvel...
       -- Creio que somos da mesma opinio -- afirmou Caroline, com um
sorriso. -- E tenho certeza de que, com sua ajuda, encontraremos algum
conveniente para Ornella.
       -- To conveniente quanto meu neto? -- provocou a duquesa, com
sarcasmo.
       -- Duvido que algum possa se igualar a Sua Alteza. Ele  mpar, o
nico, o homem mais perfeito da Inglaterra! -- retorquiu Caroline, fingindo
inocncia.
       -- Tem razo! Alm de extremamente esquivo... Acho que preciso
congratul-la por ter conquistado a cidadela quando tantas falharam, no 
mesmo?
       -- Ora, imagine! Prefiro agradecer  minha boa estrela.
       Embaraada com essa troca de palavras, Ornella no sabia que atitude
tomar. Percebia claramente que os sorrisos e o tom delicado no passavam de
disfarces para as ironias que as duas mulheres trocavam, como se esgri-
missem entre si.
       Por sorte, nesse instante a porta se abriu, revelando a figura de um
homem alto, elegantemente trajado.
       Com um gritinho de alegria, Caroline correu ao encontro do recm-
chegado.
       -- Fez boa viagem? -- perguntou ele, numa voz grave. Ao ouvi-lo,
Ornella sentiu o corao disparar. Virando-se lentamente, examinou-o, dizendo
a si mesma que aquilo s podia ser uma brincadeira do destino.
       No era possvel que aquele fosse o mesmo homem que a salvara dos
dois caadores no dia da morte de Sarah...!
       Rezando para que ele no a reconhecesse, Ornella maldisse a
coincidncia, e decidiu controlar-se ao mximo para no se trair.
       Alis, era muito improvvel que ele ainda se lembrasse daquela jovem
vestida pobremente, a quem beijara com arrogncia.
        Nunca passaria pela cabea do marqus a suspeita de que a Ornella
sofisticada, que agora trajava um manto de viagem parisiense e circulava por
seus sales em Park Lane, tivesse qualquer relao com aquela camponesa...
        Fazendo um esforo sobre-humano para aparentar tranqilidade,
Ornella encarou o par que avanava em sua direo de braos dados.
        Examinou o belo rosto moreno daquele homem e s ento se deu conta
de como mantivera ntida a lembrana de seus traos belos e duros.
        Com passos firmes, o marqus dirigiu-se para a duquesa e tomou-lhe
uma das mos, beijando-a de maneira corts.
        -- Desculpe-me pelo atraso, vov. Sei que foi um erro imperdovel no
estar aqui para apresent-la a Caroline.
        -- Ora, esquea! O que aconteceu desta vez? Um baralho, um cavalo
ou uma mulher?
        -- Apesar de achar que essa pergunta deveria ser ignorada, vou
satisfazer sua curiosidade: um cavalo. Desapontei-a?
        -- Depende de quem o montava -- brincou a duquesa, com uma ponta
de malcia na voz.
        Rindo do gracejo, o marqus afastou-se e olhou de modo interrogativo
para Ornella, que se curvou numa reverncia discreta.
        Adiantando-se em direo a ela, Caroline interveio, explicando:
        -- Esta  minha prima, Ornella. -- Em seguida, perguntou: -- J lhe
contei que, no testamento, papai apontou-a como minha conscincia e
inspirao, Darius?
        -- Sem dvida, isso a obrigou a assumir uma tarefa enorme -- afirmou
ele, zombeteiro.
        Aliviada, Ornella notou que, de fato, ele no a reconhecera.
        Ao contrrio, parecia mais interessado na descrio exagerada que
Caroline fazia da viagem do que em sua nova hspede.
        Sentados num confortvel sof prximo  lareira, os dois noivos
conversavam a respeito dos planos para aquela noite, quando, de repente, o
marqus virou-se para Ornella, tecendo um comentrio ferino, que a
desnorteou:
        -- Espero que considere sua estada em Londres muito divertida, srta.
Ornella. Garanto-lhe que nos esforaremos ao mximo para tornar essa visita
memorvel; o que, alis, no ser difcil...
        -- Obrigada ... milorde -- murmurou Ornella, deduzindo que o marqus
fora astuto o suficiente para no se deixar enganar, e reconhecera que,
debaixo das roupas elegantes, ela no passava de uma provinciana inexperien-
te sem importncia.

      Por sorte, nos dias que se seguiram, Ornella quase no viu seu anfitrio.
      Durante as tardes, Darius levava a noiva para passear de carrugem em
Park Lane, e nas duas primeiras noites eles foram a jantares em casa de
amigos.
      O restante do tempo, Caroline empregava em compras interminveis.
      Ornella, por sua vez, apesar de achar a moda atual bastante atraente,
no conseguia entender o fascnio que a prima e a duquesa sentiam naquelas
expedies exaustivas, de loja em loja, admirando vitrines.
      Outra coisa que a espantava bastante eram os preos extorsivos que as
costureiras cobravam por qualquer pea Por isso, resolvera comprar alguns
metros de musselina e confeccionar sozinha alguns modelos simples, que,
somados aos que ganharia de Caroline, complementariam seu guarda-roupa.
       Com grande habilidade, desenhou os moldes e cortou a fazenda,
marcando-a com alfinetes. O prximo passe seria alinhav-la e, se desse certo,
fazer o mesmo com os outros tecidos.
       Acomodada a uma mesa comprida, na sala de costuras, iniciou,
animada, sua tarefa. De repente, deu-se conta de que esquecera a cesta de
agulhas no salo principal.
       Lamentando a perda de tempo, desceu para apanh-la.
       Chegava ao final do primeiro lance de escada quando uma agitao
provocada por vozes e passos despertou-lhe a ateno.
       Curiosa, dirigiu-se ao hall de entrada, disposta a averiguar o que
acontecia. Afinal, estava sozinha no palcio, seria bastante desagradvel caso
se visse obrigada a intervir em alguma querela entre os criados.
       Para seu espanto, porm, o rapaz que se apoiava ao batente da porta
de entrada, com expresso cansada, nada tinha em comum com os serviais
do castelo. Seus trajes, apesar de sujos e amassados, eram de corte elegante,
denunciando-lhe a origem aristocrtica. E suas botas, salpicadas de lama,
surgeriam que o jovem passara a noite cavalgando.
       Aparentava menos de vinte anos e respirava de modo ofegante, como
se no se aguentasse de cansao.
       Antes que Ornella pudesse compreender o que se passava, o mordomo
surgiu correndo.
       -- Sir Rupert! O que aconteceu?
       -- Onde est meu tio? -- perguntou o rapaz com voz vacilante.
       -- Sua Senhoria no se encontra no momento.
       -- Preciso v-lo, compreende? Preciso v-lo agora.
       Mal pronunciou a ltima palavra, caiu estatelado no cho.
       -- Meu Deus! -- gritou Ornella, precipitando-se escada abaixo.
       Ajoelhando-se ao lado do mordomo, que afrouxava a gravata do recm-
chegado, ela tomou-lhe a temperatura, com ar preocupado.
       -- Ele est muito doente...
       -- No se preocupe, senhorita. Creio que ele apenas exagerou nos
drinques. Chamarei algum que me ajude a lev-lo para o quarto.
       -- Duvido que seja uma simples bebedeira. Ele est ardendo de febre.
Coloque-o na cama, enquanto preparo um ch de ervas.
       -- Acho que um bom sono o far melhorar. Parece que ele cavalgou
desde Oxford...
       -- Desde Oxford?!
       Aps assentir com um gesto de cabea, o mordomo fez um sinal para
que dois lacaios se aproximassem e transportassem o jovem desmaiado para o
andar superior.
       Preocupada, Ornella seguiu-os at o corredor, onde se dirigiu para os
prprios aposentos, a fim de pegar as ervas que trouxera. Escolheu as
espcies que convinham, lembrando a quantidade de pessoas s quais ajudara
indicando infuses para suas molstias. Todos na aldeia sabiam disso e,
sempre que adoeciam, corriam a consult-la.
       Rezando para que mais uma vez suas receitas dessem resultado,
preparou um ch, acrescentou duas colheres de mel, e serviu-o numa xcara
grande. Em seguida, caminhou resoluta para o quarto onde vira o rapaz ser
instalado.
        Vrias vezes ouvira a duquesa mencionar seu bisneto, sir Rupert
Charrington, cujos pais haviam morrido e que estava sob a tutela do marqus.
        -- Darius adorava a irm. Em compensao, considera o sobrinho um
verdadeiro estorvo.
        Agora, recordando esses comentrios, Ornella sentia pena daquele
moo plido, de olheiras profundas e aspecto enfraquecido, que se recostava
nos travesseiros com uma expresso de abandono total, dando a impresso de
que nada lhe importava na vida.
        Intuindo que aquele estado depressivo tinha uma causa mais profunda
do que uma mera e eventual farra com os amigos, ela permaneceu parada 
porta, indecisa em entrar ou no no quarto em penumbra.
        Assim que a avistou, o mordomo apontou para a xcara em suas mos.
        -- Duvido que sir Rupert beba isso, senhorita.
        -- Vamos tentar, pelo menos.
        -- Est bem! Ele parece agitado, e no pra de murmurar incoerncias.
        -- Pobre moo!
        Comovida, ela se encorajou a entrar e sentou-se  beirada da cama,
enquanto o mordomo auxiliava o jovem a levantar-se, explicando:
        -- Coragem, sir Rupert! Esta jovem dama trouxe-lhe um remdio que o
far sentir-se melhor.
        -- Quero ver meu tio!
        -- Assim que Sua Senhoria voltar, direi que o senhor est aqui --
garantiu o mordomo, com suavidade. -- Agora, aconselho-o a tomar alguma
coisa para recuperar as foras.
        --  isso! Estou faminto, morto de fome!
        -- Beba isto primeiro -- interveio Ornella, estendendo-lhe a xcara.
        -- Prefiro um drinque.
        -- Por favor...
        Dando-se por vencido, ele pegou e bebeu seu contedo.
        -- Pronto! Agora d-me uma bebida decente.
        -- Voc j bebeu bastante -- disse Ornella, de modo firme. -- Tente
dormir um pouco. Quando acordar, se a febre tiver baixado, poder comer
alguma coisa.
        Ajeitando-se nos travesseiros, ele a fitou com aberta hostilidade.
        -- Faa como quiser. Sinto-me cansado demais para discutir.
        -- Ento durma! Durma...
        Uma hora mais tarde, quando Ornella retornou ao quarto, Rupert
despertou com o rudo da porta se abrindo. Sentou-se na cama de um salto e
relanceou um olhar ao redor.
        -- Que diabo estou fazendo nesta cama?
        -- Calma! Voc desmaiou quando chegou aqui. Por acaso havia
cavalgado a noite inteira?
        -- Cavalguei e bebi.
        -- Ah, sei! Bem, hoje tire o dia para recuperar as foras e no saia da
cama.
        -- No... Isto , acho que prefiro morrer.
        Espantada com essa declarao inslita, ela pressentiu que algo de
muito grave o atormentava.
        -- O que andou fazendo, rapazinho tolo?
        Nem bem acabou de falar, Ornella arrependeu-se de sua
espontaneidade. Mas, por um momento, Rupert lhe parecera to frgil e
infantil, que ela se esquecera de sua condio de nobre da alta sociedade.
        No entanto, em vez de ofender-se, ele estendeu a mo em sua direo.
        -- Preciso ver meu tio. No posso continuar...
        -- Continuar o qu?
        -- A estudar em Oxford... No agento mais!  repugnante! Eles me
obrigaram a acompanh-los ontem noite... Eu no queria... Juro que me
recusei, mas eles foram at o meu quarto e obrigaram-me a beber uma garrafa
de vinho inteira... Foi terrvel!
        O rapaz falava apressado, sem articular as frases direito, e Ornella
tentou acalm-lo.
        -- O que aconteceu de to terrvel?
        Dando-se conta da indiscrio que cometera, ele desviou o olhar,
envergonhado. Na certa, em seu ntimo, travava-se uma batalha crucial entre a
necessidade de desabafar com algum e a natural desconfiana de desvendar
seus segredos com uma completa desconhecida.
        Compreendendo seu drama, Ornella achou melhor no pression-lo. No
entanto, mudou de idia ao notar-lhe a desespero estampado no rosto.
        Respirando fundo, ela se aproximou e, num tom condescendente, disse:
        -- Oua, Rupert, todos ns cometemos erros algum dia. E o segredo de
se viver bem  justamente a capacidade de aceit-los e super-los. Talvez
conversar a respeito disso possa ajud-lo... Ento, no quer me contar o que o
preocupa?
        O rapaz pareceu hesitar durante alguns segundos, antes de comear.
        -- Foi um ritual grotesco do qual me obrigaram a participar... No final,
Charles descontrolou-se e chocou com o cavalo, contra o muro da igreja...
        -- Calma, Rupert! Est tudo bem agora. Conte-me desde o comeo tudo
o que aconteceu.
        -- Vou tentar...
        Fechando os olhos, Rupert respirou fundo, como se procurasse
coragem, e prosseguiu:
        -- Garvin insistiu em que cavalgssemos pelo ptio da igreja, pulando
sobre as sepulturas e forando o caminho, caso os portes estivessem
fechados. Pareciam loucos e no quiseram me dar ouvidos, quando disse que
considerava idiota essa idia.
        Aps uma breve pausa, ele concluiu, com voz trmula.
        -- Charles e o cavalo morreram... Eu fugi! Fugi sem saber direito para
onde, nem por qu.
        -- Entendo... Procure esquecer essas cenas, Rupert. Faa de conta
que tudo no passou de um pesadelo.
        -- Como posso esquecer? -- Ele passou a mo pelo rosto, num gesto
que demonstrava cansao. -- No voltarei mais para l. Precisei reunir muita
coragem para vir a Londres...
        -- Coragem?! Para procurar a ajuda de seu tio?
        -- Exato! Tio Darius vai querer me matar, pois vive dizendo que apenas
em Oxford eu me transformaria num homem completo. Porm, no quero ser
essa espcie de homem.
        -- Voc j discutiu isso com ele?
        -- Tentei vrias vezes, mas ele recusou-se a escutar-me. No me deu
tempo sequer de comentar sobre o clube.
        -- Que clube?
        -- Chama-se As Gralhas. Obrigam-nos a participar dele e a fazer uma
infinidade de coisas estpidas, como surrar o vigia.
        -- Que absurdo!
        -- Absurdo e cruel! E tudo porque bebem no mnimo trs garrafas por
noite.
        Ele suspirou fundo, lamentando-se.
        -- Sempre detestei o lcool. Ao invs de me sentir alegre, fico enjoado e
deprimido.
        -- Voc no pode se afastar do tal clube?
        --  isso que venho tentando fazer, mas eles no deixam. Ontem
mesmo, foram me buscar em casa... Eu odeio aquilo!
        Depois de um momento em silncio, ele comentou, baixinho:
        -- Houve tambm uma garota... Era quase uma criana e gritava sem
parar...
        -- Acalme-se, Rupert! Procure no pensar nisso.
        -- Como? Se tio Darius me mandar de volta, juro que me mato.
        -- O que voc gostaria de fazer?
        -- Quero entrar para o exrcito e servir no mesmo regimento de meu
pai. Se ele no tivesse morrido em Waterloo, na certa me deixaria fazer isso.
        -- Conversou a respeito disso com seu tio alguma vez?
        -- Nas ltimas frias. Mas ele pensa que pode comandar a vida de todo
mundo, e nem se dignou a me ouvir! Eu o odeio!
        -- Rupert, no fale assim...
        -- Mas  verdade... Oh Deus, o que posso fazer? Por favor, ajude-me!
        Apreensiva, Ornella tocou-lhe a testa, constatando que o rapaz ardia de
febre. Relembrar aqueles acontecimentos havia sido desgastante e o deixara
deprimido ao extremo.
        -- Tente dormir. Vou chamar um mdico.
        Embora a assustasse a perspectiva de discutir com o marqus,
mostrando-se contrria aos seus planos para o sobrinho, Ornella sabia que no
podia deixar de intervir por Rupert.
        O rapaz estava emocionalmente arrasado, e no hesitaria em cumprir
suas ameaas, caso se visse obrigado retornar a Oxford.
        Tomando cuidado para no fazer barulho, ela saiu do quarto, fechando a
porta atrs de si.
        Preparava-se para chamar um lacaio, quando o mordomo surgiu,
apressado.
        -- Sir Rupert j acordou, senhorita?
        -- Acaba de adormecer outra vez. Ele est delirando e acho
aconselhvel chamar um mdico.
        -- Farei isso, senhorita. S vim at aqui avis-la que o marqus j
voltou.
        -- Onde posso encontr-lo?
        -- Na biblioteca... Mas, se me permite dizer-lhe, creio que no ficou
nada contente com o fato de sir Rupert ter sado inesperadamente de Oxford.
        -- Pode deixar que explicarei tudo a Sua Senhoria. Onde fica a
biblioteca?
        -- Eu a conduzirei at l, senhorita.
        -- Obrigada.
        Apesar de se esforar para aparentar naturalidade, o mordomo no
podia estar mais apalermado. Afinal, naquela casa, as mulheres limitavam-se a
cuidar de si mesmas, sem sequer tomarem conhecimento do comportamento
de jovens rebeldes como sir Rupert.
        De repente, Ornella agia de modo completamente diferente, como se
fosse a coisa mais normal do mundo...
        Assim que pararam diante de uma porta, Ornella adiantou-se a ele,
dizendo:
        -- No precisa anunciar-me. Obrigada...
        Ato contnuo, abriu a porta, enquanto o mordomo dava meia-volta,
balanando a cabea, num gesto de desaprovao.
        Nesse momento, porm, Ornella no estava se importando com as
convenes. Sabia que tinha uma batalha difcil pela frente e lutava com todas
as foras para vencer a timidez e as apreenses que a invadiam.
        Vestindo um finssimo casaco de l cinzenta e calas champanhe, o
marqus escrevia, distrado. Concentrado nessa tarefa, s percebeu a
presena dela quando Ornella deu uma leve batida na porta.
        Surpreso, levantou-se e foi ao seu encontro.
        -- Algum problema, senhorita?
        -- Eu gostaria de conversar com o senhor.
        -- Claro, entre.
        Dito isso, indicou-lhe uma confortvel poltrona de veludo vermelho e
acomodou-se  sua frente, fitando-a de modo interrogador.
        Aps alguns instantes de hesitao, ela comeou:
        -- Creio que o senhor j foi informado de que seu sobrinho no est
passando bem.
        -- Foi esse o assunto que a trouxe at aqui? -- Perguntou ele, com
visvel desagrado.
        -- Exato! Eu vi quando sir Rupert chegou e desmaiou. Dei-lhe um ch
que o fez dormir durante uma hora, mas a febre continua alta, e tomei a
liberdade de pedir ao mordomo que chamasse um mdico.
        -- Penso que isso era desnecessrio.
        Assustada com a nota de rudeza que se revelava na voz do marqus,
Ornella quase se arrependeu de ter ido procur-lo. Sentia mpetos de levantar-
se dali e correr para seu quarto, onde estaria segura, longe dos modos
autoritrios e duros do marqus.
        No entanto, se o fizesse, trairia a confiana de Rupert e jamais se
perdoaria por isso.
        Lutando contra o medo, ela encarou o marqus nos olhos.
        -- Bem, milorde, eu preciso discutir um assunto bastante delicado com o
senhor... Ser que no se importa de me ceder alguns minutos?
        Percebendo-lhe a inquietao, ele perguntou:
        -- Por que ficou to nervosa, srta. Stanyon? Por acaso eu a assusto?
        -- Para ser franca, sim. Alis, seu sobrinho tambm sente medo do
senhor. Foi um ato de coragem ele ter cavalgado desde Oxford para v-lo.
        -- Para me ver?!
        -- Exato! Ele queria lhe dizer que no pode mais ficar l. Na verdade, sir
Rupert est aterrorizado e precisa de ajuda.
       -- Rupert no passa de um tolo! No tinha o direito de incomod-la com
essas bobagens!
       -- No so bobagens! Ele est desesperado!
       -- Oua, senhorita, meu sobrinho vai voltar a Oxford assim que se
restabelecer. Mal consigo acreditar que algum to fraco seja meu parente!
       -- No acho covardia ele reconhecer que no pode lutar sozinho contra
algumas maldades.
       -- A senhorita est falando sobre um rapaz idiota sem cabea, que no
tem fora de carter suficiente para tomar conta de si prprio.
       -- Talvez... Mas, independentemente disso, ele veio a Londres implorar
sua compreenso, e no acho justo que o senhor se recuse a ouvi-lo.
       O marqus apertou os lbios, contrafeito.
       -- No pretendo ser rude, srta. Stanyon, mas esse assunto 
exclusivamente meu...        Lamento que tenha se envolvido em minha
privacidade, porm, se lhe interessa saber, Rupert voltar a Oxford.
       Ofendida com suas palavras, Ornella perdeu o medo inicial e contestou-
o, dominada pela raiva.
       -- S espero que o senhor esteja ciente das possveis conseqncias...
Seu sobrinho ameaou suicidar-se caso precise tomar parte na bestialidade a
que o foram seus colegas de um clube chamado As Gralhas.
       -- Ora, essa  boa! Quem mandou aquele idiota escolher tais
companhias?
       -- Creio que no havia escolha. Eles promovem... brincadeiras de
pssimo gosto, e ainda ontem um rapaz chamado Charles morreu durante uma
corrida.
       -- Corrida?!
       -- Sim... Foi uma cavalgada absurda pelos ptios das igrejas de Oxford.
Rupert no aguenta mais, e o senhor precisa ajud-lo.
       -- Torno a afirmar que Rupert voltar para a escola. E ainda por cima,
ouvir minha opinio acerca de jovens que recorrem a estranhos para
resolverem seus problemas.
       -- Muito bem! Se essa  sua ltima palavra, no h nada que eu possa
fazer, milorde, a no ser reconhecer que seu apelido  perfeito... "Marqus
Perverso"! De fato, destruir um rapazinho desamparado  um ato perverso...
muito perverso! Talvez Rupert tenha um carter fraco, mas nem todos
conseguem ser fortes e seguros de si.
       Ornella fez uma pausa para recuperar o flego e prosseguiu, irnica:
       -- Quem sabe suas lies o ajudem a transformar-se numa pessoa dura
e cruel... Se bem que existe o risco de ele no viver o suficiente para isso...
No entanto, caso Rupert d cabo da prpria vida, o senhor no se lembrar de
que a responsabilidade foi sua, no  mesmo?
       Sem lhe dar tempo para responder, Ornella levantou-se e correu para a
porta. No instante em que ia abri-la, porm, a voz do marqus a fez retroceder.
       -- Pare!
       Voltando-se lentamente, ela o encarou de modo desafiador, com os
olhos rasos d'gua.
       -- Sempre luta to apaixonadamente pelo que quer?
       -- No suporto assistir calada a uma injustia.
       -- A senhorita usou palavras duras contra mim, e agora diz que sou
injusto...
        -- Tudo se resume numa nica palavra: crueldade. No existe ningum
mais insensvel do que aquele que no compreende a fraqueza alheia.
        -- Por que resolveu lutar por meu sobrinho, uma pessoa a quem mal
conhece?
        -- Acima de tudo ele  um ser humano, pouco mais do que uma criana.
A duquesa contou-me que o senhor amava sua irm. Como pensa que ela se
sentiria caso mandasse Rupert de volta, se no para a morte, pelo menos para
um processo de degradao completa?
        De repente, o marqus deixou os braos carem ao longo do corpo, e
suas feies se suavizaram.
        -- Muito bem. A senhorita venceu a batalha.
        Incrdula, ela o fitou, mal acreditando no que acabara de ouvir.
        -- Pode dizer quele tolo que seu tio foi derrotado por um adversrio
formidvel -- disse ele, com uma ponta de bom humor.
        --  verdade mesmo?
        -- Claro! O que esse rapaz deseja? Um regimento da cavalaria?
        -- O senhor sabe que ele quer seguir a carreira do pai.
        -- Certo... Cuidarei de tudo. Mas lembre-se, de agora em diante, ele
estar sob sua responsabilidade, senhorita. Se Rupert falhar, a culpa ser sua.
        Seguindo um impulso, Ornella correu at ele, com olhos brilhando de
felicidade.
        -- Obrigada. Foi um belo gesto -- murmurou, suavemente. -- O senhor
 muito bondoso...
        -- Ah, no! Jamais esquecerei que voc afirmou que meu apelido 
adequado!
        -- Mas no agora! No neste momento!
        Emocionada, Ornella fitou-o nos olhos, e toda a impresso ruim que
tivera dele desapareceu como que por encanto.
        -- Perdoe-me... por ter sido rude... -- sussurrou ofegante.
        Encabulada, baixou os olhos e retirou-se, fechando suavemente a porta.


                                CAPTULO III


       Nos dias que se seguiram, Caroline quase no permaneceu no castelo,
ocupada em atender aos inmeros convites para chs e festas beneficentes.
Desde que seu noivado fora anunciado no Gazzette, no havia anfitri que a
exclusse de suas festas.
       Portanto, Ornella quase no a encontrava, e dividia seu tempo entre a
costura e os cuidados com Rupert, que se restabelecia rapidamente, aps ter
recebido a notcia de que, em vez de voltar a Oxford, iria para o exrcito.
       Alis, de incio, ela encontrara muita dificuldade para convencer o rapaz
de que no o iludia.
       --  inacreditvel! -- exclamava Rupert, boquiaberto. -- Como
conseguiu persuadir o "Marqus Perverso" srta. Stanyon?
       Percebendo a expresso de espanto de Ornella, ele acrescentara,
rpido:
       -- Creio que a senhorita conhece esse apelido dele, no ?
       -- Rupert, por favor... -- repreendera-lhe, com uma nota de censura na
voz.
        -- Desculpe-me! No quero parecer ingrato, ainda mais agora que ele
concordou com minha entrada para o regimento. Porm, continuo curioso para
descobrir como a senhorita o fez mudar de idia.
        -- O marqus  um homem sensato, e deve ter notado que se tratava
de um pedido bastante razovel.
        -- Ah, no! Ao que eu saiba, meu tio nunca agiu de modo razovel.
Aposto como a senhorita exerce algum poder mgico sobre ele. Ser que no
lhe fisgou o corao?
        -- Rupert! No diga bobagens! -- indignara-se Ornella, levantando-se
de um salto, com os olhos brilhantes de raiva.
        -- Oh, perdoe-me! Juro que no tive intenes de ofend-la.
        -- Est bem! Mas no repita essas insinuaes, pois algum poderia
ouvi-las e interpretar mal.
        -- No vejo por qu. Afinal, a senhorita  uma das mu lheres mais lindas
e encantadoras que j conheci.
        -- Obrigada! Mas vamos parar a conversa... Voc precisa descansar
e recuperar as foras. Caso contrrio, no aguentar nem dois dias no exrcito.
        De fato, o rapaz emagrecera a olhos vistos e andava muito abatido,
desde que iniciara as aplicaes que o mdico recomendara. Em
compensao, adquirira total confiana em Ornella, e no questionava suas
ordens para que permanecesse deitado e tomasse toda a sopa que o
cozinheiro preparava.
        Aps verificar-lhe a temperatura, ela se deu por satisfeita. A febre havia
cedido e, dali para a frente, tudo era uma questo de tempo.
        Animada com os resultados favorveis de seus esforos, saiu do quarto
e foi para a salinha de costura, localizada em outra ala do palcio. Antes,
porm, parou no quarto da prima e pegou um vestido deslumbrante que
Caroline comprara na vspera, para servir de modelo.
        Precisava urgentemente de roupas novas, seno se veria em apuros.
        Decidida a confeccionar pelo menos um traje naquele dia, pediu ao
mordomo que no deixasse que a interrompessem e servisse apenas um
sanduche com leite na hora do almoo.
        Em seguida, mergulhara no trabalho. Para facilitar, es tendeu a pea de
tecido e o molde sobre o tapete, e comeou a cort-la. Absorvida pela tarefa,
no percebeu quando a porta se abriu e sobressaltou-se ao ouvir uma voz gra-
ve, cheia de curiosidade, s suas costas.
        -- Posso perguntar o que est fazendo?
        Elegantemente trajado, o marqus a observava com um sorriso cnico
nos lbios.
        -- Tento fazer um vestido, milorde... Infelizmente, creio que no serei
bem-sucedida.
        -- Fazer um vestido? -- repetiu ele, com incredulidade.
        -- Ora, sempre costurei sozinha minhas roupas.
        Ele a fitou durante um longo momento, com uma expresso enigmtica
no olhar. Na certa, para um homem que crescera na aristocracia, gozando de
todos os prazeres da vida e convivendo somente com gente acostumada a
dispor de batalhes de criados para servi-los, devia soar estranho que algum
se visse obrigado pela necessidade a costurar as prprias roupas. No entanto,
Darius no teceu nenhum comentrio a esse respeito, limitando-se a dizer, em
tom neutro:
       -- Meu secretrio particular acaba de informar que a senhorita no vai
nos acompanhar ao baile promovido pela duquesa de Devonshire... Posso
saber por qu?
       Ornella fez um gesto significativo na direo do vestido, antes de
responder:
       -- De acordo com as ms-lnguas, as mulheres vivem chorando que no
tm roupa, enquanto seus armrios esto cheios. No meu caso, porm,  a
pura verdade.
       -- Jura?
       -- Juro! Caroline me presenteou com dois vestidos de baile. Um deles
ainda no tive tempo de reformar; e o outro ficou sujo, pois, enquanto o
passava ontem, um criado entornou uma xcara de caf sobre a saia. Portanto,
no posso ir ao baile!
       -- Ento, aquele vestido que a senhorita estava usando pertencia a
Caroline... Bem que notei que a cor no lhe caa bem.
       -- Pois . Mas, quando no se tem opo, qualquer coisa serve.
       -- A senhorita no possui nenhuma economia?
       -- No, nada.
       -- Meu Deus, como pode...
       -- Por favor, no fique to surpreso! Afinal, fora dos elegantes portes
de Ryde House, a pobreza  uma realidade muito concreta e palpvel.
       O marqus ps-se a caminhar de um lado para outro, enquanto uma
ruga de preocupao lhe sombreava as feies.
       -- Quanta injustia existe no mundo! Com certeza, a senhorita vai me
permitir...
       -- De maneira alguma! E peo-lhe a gentileza de no concluir essa
frase. Sem dvida, considero sua inteno muito generosa, mas no posso
aceitar uma coisa dessas!
       -- Por qu? Acredita que eu lhe pediria, uma retribuio?
       Atnita, Ornella permaneceu imvel durante alguns segundos, incapaz
de articular uma palavra sequer. Por fim, de modo quase involuntrio,
perguntou:
       -- Ento o senhor se lembrava?
       -- E como eu poderia esquecer aqueles instantes de encantamento,
srta. Ornella?
       Paralisada, ela sentiu que o sangue lhe subia ao rosto e baixou a
cabea, envergonhada.
       Como se estivesse em transe, ele a fitou nos olhos e murmurou:
       -- Alguns breves minutos de um total encantamento.
       Sem acrescentar mais nada, voltou-se e saiu da sala batendo a porta
atrs de si.

      -- Ol, querida -- disse Caroline, aparecendo na sala de costura, pouco
antes da hora do almoo. -- O mordomo me contou que voc no pretendia
almoar hoje. Por isso, vim at aqui pedir-lhe que altere seus planos e faa
companhia  duquesa, pois eu e Darius precisaremos sair.
      -- Ai,  srio?! Oh, Caroline, no sei por qu, mas a duquesa me
incomoda tanto! Parece que vive tentando me provar que sou uma intrusa e
no perteno ao mesmo mundo que ela.
           -- Ora, Ornella, a duquesa pensa que pode dar ordens a torto e a
direito!
         -- Tem razo! Farei o possvel para no me aborrecer...
         -- timo! Mas tome cuidado para no se deixar intimidar, seno ela 
bem capaz de querer controlar sua vida.
         Espiando atravs da porta entreaberta, Caroline certificou-se de que
ningum as escutava e acrescentou, rpido:
         -- Ainda hoje tive uma discusso feia com ela. Mais tarde contarei tudo
em detalhes. Agora, preciso me apressar; caso contrrio, Darius ficar irritado.
         -- Claro! No se atrase por minha causa. Eu detestaria saber que
provoquei uma discusso entre voc e o marqus.
         -- Pois estou pouco ligando. Na minha opinio, ele merece levar
algumas lies para aprender que ningum est  sua disposio.
         Ornella no respondeu, embora, no ntimo, desaprovasse o descaso
com que a prima se referia ao homem que em poucos dias se tornaria seu
marido.
         -- Bem, at logo -- disse Caroline, beijando-a de leve no rosto.
         -- Divirta-se, querida.
         Assim que se viu sozinha, Ornella postou-se diante do luxuoso espelho
de cristal com moldura dourada e ps-se a retocar a aparncia, prendendo
algumas mechas de cabelo que haviam se soltado do seu penteado.
         Em seguida, dirigiu-se ao salo principal, onde a duquesa, usando um
vestido branco bordado com prolas, recebeu-a com ar de censura.
         -- Rpido, criana. No podemos nos demorar no almoo. A carruagem
vir nos apanhar  uma e meia.
         -- Carruagem? Para qu?
         -- Passaremos a tarde fazendo compras. Descobri que voc precisa
urgentemente de vestidos novos, e resolvi providenciar-lhe um pequeno
enxoval. No igual ao de Caroline, mas com tudo o que uma dama elegante
necessita durante sua primeira temporada em Londres.
         Fazendo o possvel para controlar seu desagrado, Ornella suspirou
profundamente, antes de responder:
         -- Agradeo sua generosidade, porm no a aceitarei. Por favor,
transmita minhas desculpas  pessoa que a informou sobre minha situao.
         -- No entendo por que se ofendeu. Creio que sua prima estava com as
melhores intenes quando comentou a esse respeito comigo.
         -- Foi Caroline quem lhe contou isso?
         -- Ora,  lgico! Quem mais poderia ser? Alm disso, imaginei que voc
ficaria feliz se eu a presenteasse com algumas roupas.
         Confusa, Ornella arregalou os olhos, sem saber como sair da situao
difcil em que a velha senhora a colocava.
         Por um lado, tinha certeza de que fora o marqus que instrura a
condessa para agir daquela maneira. Portanto, seria ele quem pagaria as
contas.
         Entretanto, fizera isso de maneira to perfeita que ela no teria como
recusar, a no ser passando por ingrata mal-educada.
         Querendo ganhar tempo para pensar numa sada melhor, perguntou:
         -- Por que resolveu me presentear?
         -- Use o bom senso, criana! Acredita, por acaso, que eu teria coragem
de apresent-la  alta sociedade sem os devidos preparativos?
        -- Entendo... Bem, creio que no me resta alternativa. Aceito sua
generosidade e ficarei eternamente grata.
        Durante as trs horas que se seguiram, as duas dedicaram-se
exclusivamente a olhar vitrines, escolher e experimentar uma verdadeira
infinidade de vestidos, chapus, sapatos, estolas, casacos e sombrinhas das
mais variadas cores e modelos.
        A princpio, Ornella protestara s extravagncias da duquesa. Mas, 
medida que provava e tocava aquelas roupas de tecidos finos e macios,
tambm fora se entusiasmando. E um brilho de alegria surgiu em seus olhos ao
pensar em como ficaria sedutora quando as usasse.
        Apenas umas poucas peas precisavam ser reformadas, e o lacaio que
as acompanhava fez vrias viagens at a carruagem, a fim de guardar os
inmeros pacotes.
        Ao final, Ornella ganhara um guarda-roupa completo e variado, com
trajes e acessrios para todas as ocasies. Mal cabendo em si de contente,
acomodou-se ao lado da duquesa, que ordenava ao cocheiro que as levasse
de volta ao palcio.
        -- Nem imagina como estou contente! Nunca tive tanta roupa em toda a
minha vida!
        -- Espero que tenha gostado.
        -- Gostado?! Adorei! Oh, nem sei como agradecer-lhe...
        -- Simples: faa um bom casamento! Alis, creio que isso ser fcil. 
uma moa muito bonita, Ornella. Pena que as roupas que usava
desvalorizassem seus traos. Jamais lhe ocorreu que os trajes de Caroline no
combinavam com voc?
        Surpresa, a jovem engoliu em seco, sem responder. Como poderia
explicar quelas pessoas ricas e esnobes que, quando no se possui um
centavo, detalhes como roupas tornavam-se absolutamente insignificantes?
        Pouco antes da hora de se trocarem para o baile, Caroline foi ao quarto
da prima pedir sua opinio sobre o penteado que usaria naquela noite.
        Depois de algum tempo, Ornella aproveitou a chance para resolver uma
dvida que a atormentava... E, num tom casual, perguntou:
        -- A duquesa  muito rica?
        -- Quem? Aquela bruxa?! De modo algum. A bem da verdade, ela vive
dos favores que Darius lhe faz. Ainda no ms passado ele a presenteou com
uma carruagem e dois puros-sangues.
        -- Sei... obrigada...
        -- Ora essa, obrigada de qu? Aconteceu alguma coisa
        -- N... no!  que preciso me arrumar para o baile -- declarou Ornella
com um sorriso amarelo nos lbio
        -- Oh, claro! Desculpe-me por ter tomado tanto seu tempo.
        Relanceando o olhar para a cama, onde o maravilhosa modelo que
exibiria naquela noite estava estendido, Ornella no pde deixar de
experimentar uma pontinha de decepo. Apesar de ter intudo que fora o
prprio marqus quem lhe dera as roupas novas, ainda alimentava esperana
de que a iniciativa houvesse partido da duquesa. As palavras da prima, porm,
eram a prova definitiva de que suas suspeitas eram corretas.
        Sentiu que seus olhos se enchiam de lgrimas, mas no se deixou
abater.
        Meia hora mais tarde, ao se fitar no espelho, no pde reprimir um
gritinho de admirao. O vestido, confeccionado em gaze branca sobre forro
azul, era bordado com fios prateados e pequenos brilhantes, que cintilavam a
cada movimento de seu corpo gracioso. Usava sapatos igualmente prateados,
e uma tiara de diamantes completava o conjunto, dando-lhe um ar etreo e
angelical.
       Nesse instante, uma leve batida na porta tirou-a de sua contemplao.
       -- Srta. Stanyon, o marqus manda avis-la de que esto todos prontos
-- anunciou a governanta.
       -- Obrigada. J vou descer.
       Apressada, pegou a pequena bolsa que fazia conjunto com os sapatos,
calou as luvas e saiu.
       No andar inferior, um pequeno grupo conversava, animado. Tmida,
Ornella foi ao encontro deles, com o olhar fixo no cho.
       Percebendo-lhe o embarao, Darius, que no deixara de fit-la um nico
instante, adiantou-se para receb-la.
       -- Era assim que eu queria v-la -- murmurou ele, sem lhe dar chance
para retrucar: -- elegante e bela!

        Grandes lustres de cristal suspensos do teto espalhavam uma
luminosidade suave pelo salo bem decorado, onde vrios pares rodopiavam
ao som de uma orquestra instalada num pequeno palco.
        Sem dvida, Devonshire House esbanjava requinte e sofisticao,
contando em suas festas com as figuras mais preeminentes da aristocracia. E,
mesmo entre todas aquelas mulheres lindas, Ornella causara sensao, sendo
logo considerada uma beldade de primeira grandeza.
        Muito requisitada, no deixara de danar um nico nmero, e sentia os
ps arderem dentro dos sapatos. Por isso, suspirou aliviada quando o conde de
Rotherton, um cavalheiro com o qual danava pela segunda vez, sugeriu:
        -- Est quente demais aqui. Que tal sairmos para respirar um pouco de
ar fresco?
        -- Oh, eu adoraria, milorde.
        Sem se fazer de rogado, o conde tomou-a pelo brao, conduzindo-a
atravs dos pares que lotavam a pista de danas. Saram por uma das portas
laterais e desceram os poucos degraus de mrmore que davam acesso ao
jardim.
        Pequenas mesas de ferro haviam sido armadas sob a copa das rvores,
e muitas pessoas conversavam animadas, com os semblantes iluminados pela
luz bruxuleante das lanterninhas japonesas.
        Gentilmente, o conde levou-a at um canto mais afastado dos olhares
curiosos e acomodou-se  sua frente a uma das mesas.
        -- A senhorita  muito linda! -- murmurou ele, aps fit-la durante
alguns instantes.
        Ornella desviou o olhar, constrangida. Desde que a duquesa o
apresentara, ela no simpatizara com aquele homem.
        De olhos escuros, compleio atltica e cabelos levemente grisalhos, o
conde era considerado atraente pela maioria das mulheres.
        -- Espero que esteja se divertindo, srta. Ornella.
        -- Oh, muito. Este  meu primeiro baile. Ento tudo parece novidade!
        -- Mas com certeza no ser o ltimo.
        -- Ora, por que afirma isso, milorde?
       -- Ningum perde a oportunidade de contar entre os convidados com
uma pessoa to doce e bonita como a senhorita.
       Dito isso, ele pousou de leve a mo em seus ombros.
       -- Creio que o senhor no me conhece o suficiente para me fazer esses
galanteios -- retrucou ela em tom spero, enquanto se livrava do contato de
seus dedos.
       -- Felizmente, podemos corrigir isso com facilidade. Tenho muita
vontade de conhec-la melhor...
       Compreendendo que, se no acabasse com aquela conversa, corria o
risco de se ver em apuros, Ornella declarou com firmeza:
       -- Quero voltar ao salo, milorde. Assumi um compromisso para a
prxima dana.
       Fez meno de se levantar, mas ele impediu-a, segurando-lhe o brao.
       -- No h pressa. Preciso falar com a senhorita.
       -- Sobre  qu?
       -- Sobre a sensao de encantamento que me persegue desde que a vi
esta noite. De onde veio?
       Depois de alguns instantes de hesitao, Ornella respondeu:
       -- Sempre vivi no campo. Mudei-me para c a fim de acompanhar
minha prima Caroline at seu casamento com o marqus de Ryde.
       -- Ah, sim! E  casada?
       -- No... Tampouco tenho qualquer outro envolvimento.
       Mal pronunciou essas palavras, Ornella tomou conscincia da mo do
conde sobre seu brao e estremeceu. Teve a impresso de que ele se
aproximava, e sentiu que algo estranho a ameaava.
       -- Olhe para mim!
       Timidamente, ela levantou a cabea, estremecendo ao notar o brilho de
cobia que havia nos olhos de seu acompanhante.
       -- Com sua licena, voltarei para o salo, milorde -- afirmou,
levantando-se.
       -- Eu a acompanharei. Quero ter a honra de segur-la em meus braos
durante mais alguns instantes.
       -- Sinto muito, mas estou comprometida para esta dana.
       -- Isso no  problema...
       Indiferente aos seus protestos, ele monopolizou-a durante os trs
nmeros seguintes. Alegando cansao, Ornella tentou livrar-se da companhia
pegajosa do conde. Por azar, seus esforos resultavam vos, e, sem que pu-
desse impedir, ele conduziu-a  ante-sala, insistindo para que se sentassem
num canto isolado.
       -- Acredita em amor  primeira vista, Ornella?
       -- Milorde, considero uma afronta que me chame pelo primeiro nome. E
creio que a duquesa no aprovaria isso.
       -- Pois asseguro-lhe que ela no censuraria nenhuma atitude minha em
relao  senhorita.
       Com um sbito mal-estar, Ornella deduziu que, pelo tom firme com que
se expressava, o conde no blefava.
       -- O que pretende insinuar?
       -- Ora, vamos! No  segredo nenhum que as velhas damas, sem
exceo, adoram promover encontros romnticos.
       Corando, ela mordeu os lbios, reprimindo a vontade de expuls-lo dali.
Esboou um sorriso, retrucando com firmeza:
         -- Independente disso, milorde, no sinto a mnima vontade de ouvir
seus galanteios.
         Sem perder o ar de cnico conquistador, ele sorriu com superioridade,
dando de ombros.
         -- A senhorita ainda no me respondeu se acredita em amor  primeira
vista.
         -- No! Claro que no!
         -- Meu Deus, quanta veemncia!
         Uma sensao de pnico a invadiu. Tinha a impresso de que o conde
no hesitaria um segundo antes de fazer qualquer coisa para atingir seus
objetivos.
         -- Posso lhe confessar uma coisa?
         -- O que , milorde?
         -- Sou meio fatalista e sempre acreditei no destino... Acho que foi nossa
boa estrela que fez com que nos encontrssemos hoje... para nunca mais nos
separarmos.
         -- Por favor, no repita isso!  um verdadeiro absurdo! -- disse Ornella
com a voz levemente alterada pela indignao.
         Ao v-la levantar-se, fazendo meno de fugir dali, o conde interceptou-
a com um movimento rpido.
         -- Voc  adorvel, Ornella. Desejo-a como jamais desejei mulher
alguma! Seus lbios devem ser to macios...
         -- Cale-se, milorde. No tem o direito de me dizer essas coisas.
         -- Ento d-me esse direito!
         -- No! -- gritou Ornella, livrando-se das mos dele com um gesto
brusco.
         Ato contnuo, correu para fora da saleta, ansiosa por chegar junto aos
demais convidados, onde se sentiria em maior segurana.
         Enquanto caminhava, esbarrou em alguns danarinos, com a viso
turvada pelas lgrimas que teimavam em inundar-lhe os olhos. Relanceou um
olhar pelo salo, mas no havia sinal da presena da duquesa, nem de
Caroline.
         Com um suspiro de alvio, porm, avistou o marqus prximo a uma das
sadas para o jardim.
         Recostado  porta de vidro, Darius mal ocultava o tdio, enquanto
observava com uma expresso de enfado os casais que danavam
alegremente. Entretanto, a indiferena desapareceu de seu rosto, assim que
ele percebeu o estado de tenso em que sua jovem hspede se encontrava.
         -- O que aconteceu? -- perguntou, aproximando-se de Ornella.
         -- Oh, nada! Procurei por sua av... Esquea! Est tudo bem, agora
que o vi.
         -- Calma! No consigo entender o que aconteceu. Algum a assustou?
         -- Eu... preferia no falar a respeito disso. Falta muito para a hora de
voltarmos para casa?
         -- Nossa! Com certeza, as jovens de sua idade ficariam simplesmente
horrorizadas com a idia de serem obrigadas a deixar Devonshire House to
cedo... Mas, se quiser, procurarei vov e avisarei que a senhorita deseja se
retirar.
         -- No! Incomoda-se de me fazer companhia at conseguirmos
encontr-la?
        -- Em absoluto! Que tal arranjarmos um lugar mais sossegado, onde
possamos conversar? Ainda  cedo, e talvez no haja ningum na sala de
jantar.
        -- Claro! Isso seria timo.
        Pouco depois, chegaram de braos dados ao requintado salo cor-de-
rosa, cujo teto reproduzia uma cena de caada, evocao de figuras
mitolgicas. As mesas, forradas com elegantes toalhas de rendas, exibiam uma
infinidade de candelabros e talheres de prata, taas de cristal e pratos de
finssima porcelana chinesa, pintada a mo. Vasos com rosas vermelhas,
cortinas e tapetes brancos completavam a decorao do cenrio, ao qual
dezenas de garons uniformizados davam os ltimos retoques, verificando se
tudo estava em ordem para a ceia, que seria servida dali a pouco.
        Gentilmente, o marqus encaminhou Ornella para uma mesa de canto e
afastou a cadeira para que ela se acomodasse. Em seguida, sentou-se ao seu
lado.
        -- Aqui  muito mais agradvel, no acha?
        -- Oh, sem dvida!
        -- Notei que a senhorita foi bastante requisitada durante o baile. Alegro-
me que tenha feito sucesso em sua estria na sociedade.
        -- Eu tambm, e sei que devo lhe agradecer pelos... presentes. No
entanto, quero censur-lo por...
        Compreendendo que ela se referia s roupas, Darius interrompeu-a;
        -- Se encontrasse um belo quadro jogado num canto escuro, no
gostaria de emoldur-lo e coloc-lo num lugar onde todos pudessem deliciar-se
com ele?
        -- Tudo bem! Aceito sua verso, mas peo-lhe que no repita isso.
        -- Botticelli! -- exclamou ele, com ar distante, como se no a tivesse
escutado.
        -- Como?
        -- Desde que nos encontramos, tento recordar o nome da imagem que
me faz lembrar da senhorita. Agora sei! So as pinturas de Botticelli que vi em
Florena.
        -- Ora, imagine!
        --  srio! Ele pintava com tanta delicadeza e beleza, que nunca
imaginei encontrar uma mulher to formosa como as que retratava.
        Constrangida, Ornella desviou o olhar e enrubesceu.
        -- No caoe de mim. Sei que est brincando.
        -- Acredita mesmo que seja brincadeira? Pois asseguro-lhe que  a
verdade!
        Sem encontrar resposta, Ornella soltou um suspiro de alvio ao avistar a
prima que se aproximava. Um cavalheiro elegante e atraente a acompanhava.
Era alto, tinha cabelos e olhos escuros e vrias condecoraes no peito.
        -- Ah, finalmente! J o procurei em todos os cantos, Darius. Ol,
Ornella. Lorde Rotherton est perguntando a todo mundo por voc. Ele jura
que seu verdadeiro nome  Cinderela.
        -- Quem  Cinderela? -- perguntou o rapaz que acompanhava Caroline.
        --  a herona de um conto de Perrault -- explicou Ornella. Depois fitou
o marqus de modo malicioso, acrescentando: -- A madrinha dela presenteou-
a com um vestido para que ela pudesse ir ao baile, e  meia-noite Cinderela
desapareceu.
       Percebendo a indireta, Darius virou-se para ela e retrucou, num
sussurro, para que os outros no pudessem escutar:
       -- Prefiro a histria da Bela Adormecida;  mais apropriada!
       De incio, Ornella apenas se surpreendeu com o fato de um homem
aparentemente duro como o marqus ter lido e apreciado aquela histria, que
tanto a comovera, povoando seus sonhos de menina. Porm, ao recordar-se
de que a princesinha do conto acordava de seu encantamento atravs de um
beijo, percebeu a insinuao e enrubesceu. Pensou em alguma forma de
retrucar, mas a voz da prima trouxe-a de volta  realidade.
       -- Por que resolveu desaparecer se estava fazendo tanto sucesso,
Ornella? Lorde Rotherton ficou bastante frustrado. Em seu lugar, eu voltaria
rapidinho para o salo.
       -- Oh, no! Sinto-me exausta e, a bem da verdade, adoraria ir embora.
Por azar, a duquesa parece ter-se evaporado.
       -- De qualquer modo, voc jamais conseguiria tir-la da mesa de jogo!
Talvez fique mais fcil aps a ceia.
       De fato, a duquesa s concordou em retornar depois de saborear a
deliciosa refeio servida em Devonshire House. Mesmo assim, ia de mal-
humor e declarava-se disposta a permanecer na festa por, no mnimo, mais
uma ou duas horas.
       O marqus, cortesmente, acompanhou-as at a carruagem e despediu-
se, desculpando-se por no retornar junto com elas, pois assumira outro
compromisso.
       -- Desconfio que meu noivo pretende acabar a noite no White's Club. Se
ele continuar ganhando no jogo, logo no encontrar mais nenhum adversrio.
       -- Meu neto tem ganhado muito, Caroline?
       -- Ele sempre ganha.
       -- Hum, mau... Feliz no jogo, infeliz no amor!
       -- Garanto que Darius  uma exceo para qualquer regra. Ele ser feliz
em ambos.
       Provocadora, a duquesa respondeu com uma risadinha irritante, antes
de voltar-se para Ornella, comentando:
       -- Voc foi um sucesso esta noite, minha criana. Fico satisfeita.
       --  verdade -- interveio Caroline. -- Voc fez uma conquista notvel,
querida! Alis, o conde de Rotherton  um dos partidos mais desejveis da
Inglaterra.
       -- Sem dvida -- observou a duquesa. -- A propsito, nunca entendi
por que ele no se casou outra vez.
       -- Ele j foi casado? -- perguntou Ornella, arregalando os olhos.
       -- Foi, e sua mulher morreu aos vinte e quatro anos, vtima de um
aborto. Uma tragdia! Ele  muito rico, e precisa de um herdeiro.
       -- Ento por que ele permaneceu vivo?
       -- Ao que eu saiba, ele teve vrias "amigas", entre elas uma dama de
alta posio, j comprometida. Agora, porm, ele est considerando
seriamente a possibilidade de contrair novas npcias... E duvido que encontre
noiva melhor do que nossa doce Ornella.
       -- No! -- exclamou Ornella, rapidamente. -- Vocs esto enganadas.
Tenho certeza de que essa idia nem sequer passou pela cabea do conde...
Mas, independente disso, eu jamais o aceitaria como esposo.
      -- Ora essa, no seja absurda! Seria imperdovel que uma pirralha
como voc perdesse uma chance dessas -- disse a duquesa, sria.

        Na semana que se seguiu, Ornella viu-se praticamente bombardeada
pelas gentilezas do conde. Religiosamente, ele lhe mandava flores todas as
manhs e a convidava para passearem de carruagem em Park Lane.
        Excitada, Caroline impedia-a de recusar os presentes e convites.
Convencida de que uma unio com o nobre seria a soluo ideal para o futuro
de Ornella, forava-a a comparecer aos passeios e demonstrava a melhor das
boas vontades para acompanh-la.
        Apesar disso, Ornella sentia-se desanimada e estranhamente
ameaada. Sabia que seu pretendente era um homem experiente e arrojado,
que dera incio a uma quase caada, na qual trataria de fechar-lhe todas as
sadas, obrigando-a a aceitar aquele casamento absurdo.
        Prova disso era que ele no se cansava de fit-la de modo insinuante e
aproveitava as menores chances de segurar-lhe a mo ou toc-la.
        Numa dessas ocasies, o conde atrevera-se mesmo a ultrapassar os
limites do aceitvel. Aproveitando-se de um momento de distrao por parte de
Caroline, murmurara:
        -- Voc ser minha, Ornella. Eu a terei por esposa, e nenhuma fora
conseguir afast-la de mim.
        Atnita diante de tamanho atrevimento, a jovem se voltara, pronta para
retrucar. No entanto, as palavras morreram-lhe na garganta, quando ela viu o
brilho de luxria e determinao que havia nos olhos do conde.
        Desde ento, a angstia de Ornella aumentara. Ela pouco falava, o
sorriso desaparecera de seus lbios, e a nica atividade a que se dedicava era
a tapearia e o bordado, que a faziam esquecer-se dos problemas.
        Trs dias mais tarde, notando a repentina mudana da prima, Caroline
comeara a preocupar-se. E, aproveitando uma hora em que a duquesa no
estava presente, interpelou-a a esse respeito.
        -- O que est acontecendo, querida? O conde apaixonou-se por voc e
logo vai declarar-se. Com o que se preocupa?
        -- No tenho a mnima inteno de encoraj-lo, Caroline. Na verdade,
ele me causa asco.
        -- Ornella! Como pode falar assim? Se voc no sabe, ele  um dos
homens mais ricos da Inglaterra. Mora num Palcio magnfico, possui vrias
propriedades e inmeros cavalos de raa, alm de uma famosa coleo de
jias e obras de arte.  tambm um dos poucos privilegiados que o prncipe
regente considera como amigo... Onde voc acha que encontrar partido
melhor?
        -- Pois eu o considero arrogante e prepotente! E no sinto a menor
vontade de me casar.
        -- Ah, deixe de dizer asneiras, Ornella. Juro que s vezes sinto vontade
de bater em voc. O que pretende fazer do futuro?  lgico que nunca a
deixarei ao relento. Mas imagino que voc prefira ter sua prpria casa a
depender dos favores dos outros.
        Aps uma breve pausa, Caroline prosseguiu, num tom mais ameno:
        -- Sei que devo estar parecendo dura, mas  para seu prprio bem.
Ponha os ps no cho, Ornella. Esse casamento solucionaria todos os seus
problemas futuros.
       -- No! De uma vez por todas, no!
       No entanto, Ornella s se deu conta do quanto serial difcil escapar
daquela unio quando, uma semana mais tarde, Caroline entrou correndo no
salo, onde a prima e a duquesa esperavam que o ch fosse servido.
       -- Boa tarde, minhas queridas -- disse com entusiasmo.
       -- O que houve, Caroline? Viu um passarinho verde?
       -- Melhor... muito melhor, duquesa. Adivinhem com quem acabo de
conversar?
       -- Nem imagino! Vamos, conte logo, que estou curiosa.
       -- E voc, Ornella? Tambm no desconfia?
       -- No, no fao a mnima idia...
       -- Ento, segurem-se na cadeira. O conde de Rotherton acaba de me
procurar...
       -- O conde? Para qu? -- perguntou a duquesa, franzindo a testa, ao
mesmo tempo que seu olhar perscrutava o rosto de Ornella, que ficara plido
como cera.
       -- Para que eu, na condio de tutora de Ornella, lhe desse
consentimento para pedir a mo dela em casamento!
       -- Meu Deus! Isso  uma ddiva dos cus! Agradea sua boa estrela,
minha criana. Creio que a maioria das jovens ficaro se roendo de inveja de
voc.
       Com um suspiro profundo, Ornella recuperou-se rapidamente do
choque, dizendo:
       -- Bem, Caroline, como o conde a procurou formalmente para fazer o
pedido, tomo a liberdade de incumbi-la de inform-lo sobre minha resposta...
Assim, aconselho-a a comunicar-lhe o mais rpido possvel que, apesar de
sentir-me lisonjeada com sua proposta, a resposta  no.
       Um silncio desagradvel caiu sobre a sala. Mal cabendo em si de
espanto, Caroline lanou um olhar cmplice na direo da duquesa, antes de
retorquir:
       -- Ornella, no seja precipitada. Voc est jogando uma oportunidade
de ouro pela janela.
       -- Por favor, Caroline. Tenho perfeita convico do que estou dizendo.
       -- Ora, ora, minha criana! Quanta obstinao! Vamos, oua sua prima.
 natural que a perspectiva de tornar-se a condessa de Rotherton a assuste,
mas no precisa ficar assim.
       --  isso mesmo, Ornella! D tempo ao tempo, querida. Reflita um
pouco, e ver que aceitar  a melhor coisa que voc poderia fazer.
       -- Guie-se pelos antigos, criana. O sono  um timo conselheiro.
Amanh cedo, com certeza, voc estar dando pulos de entusiasmo. Alm
disso, considero prudente deix-lo um pouco na expectativa. Afinal, o homem
s valoriza aquilo a que foi obrigado a lutar muito para obter.
       Compreendendo aonde a duquesa pretendia chegar, Caroline bateu
palmas, entusiasmada.
       -- Mas  lgico! O conde est acostumado a ser perseguido por
mulheres loucas para conquist-lo, e sem dvida se sentir desafiado diante de
um pouco de resistncia.
       -- Parem com isso! -- falou Ornella com os olhos cheios de lgrimas.
-- Ser que vocs no conseguem entender que no vou aceit-lo como
marido?
        Sem esperar resposta, deu meia-volta e saiu correndo da sala, mal
contendo os soluos que lhe estrangulavam o peito.
        Chegando ao quarto, atirou-se na cama. De repente, sentiu-se
extremamente s e ameaada. No podia contar com ningum no mundo, e
at mesmo Caroline parecia surda aos seus apelos. O que faria agora?
        Precisava arranjar uma soluo urgente, seno em pouco tempo os
acontecimentos escapariam de seu controle e, quando ela menos esperasse,
seria transformada na condessa de Rotherton. Talvez, se procurasse seu
pretendente e o colocasse a par da situao...
        Assim determinada, passou a aceitar os convites dele. Na semana que
se seguiu, encontrou-o quase todos, os dias. Entretanto, por mais que
tentasse, no conseguiu ficar a ss com ele um nico instante.
        Por fim, resolveu escrever-lhe uma carta, pondo tudo em pratos limpos.
        Aproveitando uma tarde em que a duquesa descansava e a prima sara
para fazer compras, sentou-se  escrivaninha e redigiu um pedido de
desculpas, onde apresentava suas razes para no querer tornar-se esposa
dele e implorava por compreenso. Com um gesto decidido, tocou a
campainha e pediu ao mordomo que enviasse um mensageiro a Rotherton
House com a mxima urgncia.
        Para sua infelicidade, porm, a carta jamais chegou ao destino, pois a
duquesa interceptou-a antes.
        A partir desse incidente, uma nova idia comeou a se delinear na
mente de Ornella: fugir! Apesar de que seria obrigada a recorrer a esse
expediente para fazer valer sua vontade, quis primeiro empreender uma outra
tentativa de resolver tudo em bons termos.
        Desse modo, procurou Caroline e, pela ensima vez explicou-lhe seus
motivos para recusar. Seus apelos caram no vazio, e a prima limitou-se a ouvi-
la com condecendncia, como se se tratasse de uma criana que se recusa a ir
 escola, pois no gosta da cara do coleguinha ao lado.
        Desesperada, Ornella procurou a duquesa e pediu-lhe autorizao para
avistar-se a ss com o conde.
        -- De forma alguma, criana. Isso daria muito falatrio -- argumentou a
aristocrata, percebendo qual seria o contedo da entrevista. -- Na prxima
semana, depois que o noivado for notificado pelo Gazzette, autorizarei que
voc se encontre sozinha com o conde.
        -- Meu Deus do cu, ser que estou falando chins? J cansei de dizer
que no aceito esse casamento.
        -- Escute aqui, garota, no meu tempo essa sua teimosia seria
recompensada com algumas boas chicotadas, entendeu?
        Muito plida, Ornella abaixou a cabea, enquanto a duquesa prosseguia,
em tom rspido:
        -- Vamos colocar as coisas s claras, Ornella. Por acaso, j parou para
analisar como seria desagradvel para Caroline e Darius o fato de serem
obrigados a arcar com voc para sempre? Deixe de ser egosta e trate de
aceitar a generosidade do conde.
        A mulher fez uma pausa de alguns instantes, a fim de perceber o efeito
de suas palavras. Depois, seu olhar percorreu Ornella de alto a baixo, e ela
concluiu, sarcstica:
        -- A propsito, trate de ficar bem bonita para a reuniozinha ntima
desta tarde. Acho aconselhvel que seu noivo tenha sempre uma boa
impresso sua.
       Dito isso, retirou-se com passos firmes, deixando Ornella esttica, o
rosto banhado pelas lgrimas silenciosas que escapavam de seus olhos.
       Mordendo os lbios para no gritar de raiva, a jovem retornou ao quarto.
Sentia que em seu ntimo uma fora nova comeara a nascer. O medo
desaparecera por completo, e ela reconheceu que chegara a hora de levar a
cabo seus planos.
       Com fingida resignao, Ornella compareceu  recepo e mostrou-se
gentil com todos os convidados, inclusive com o conde, que a fitava de forma
insistente, como se quisesse despi-la com o olhar.
       Distribuiu sorrisos e gentilezas e, pouco antes da noite, subiu para o
quarto, alegando dor de cabea.
       Trancou a porta  chave, para evitar interrupes, e pegou uma mala de
dentro do armrio. Abriu-a sobre a cama e, com gestos decididos, ps-se a
guardar todas as roupas e objetos que trouxera consigo de Village Green.
       Em seguida, escondeu a bagagem debaixo da cama, deixou sua velha
capa de viagem pendurada numa cadeira e despiu-se. Colocou um vestido
simples de musselina e deitou-se, fazendo de conta que dormia.
       Dali a poucos minutos, por mais que ela tentasse resistir, suas plpebras
comearam a se fechar. Dormiu um sono agitado, repleto de pesadelos, nos
quais o conde se transformava ora num monstro, ora num torturador da
Inquisio, e ela, em sua vtima.
       Acordou assustada, com o corpo banhado de suor e um grito preso na
garganta. Levantou-se de um salto, preocupada, achando que se atrasara.
Mas, ao consultar o relgio de cabeceira, Ornella constatou que ainda no
eram trs horas.
       Resolveu no tornar a deitar-se para no correr o risco de adormecer e
calou os sapatos, dirigindo-se at a janela entreaberta, por onde entrava uma
brisa suave. Recostando-se no parapeito, observou o jardim, banhado pelos
raios plidos da lua, e respirou fundo. O ar fresco revigorou-lhe as foras, e ela
repassou mentalmente seus planos.
       Um pouco antes da hora de os empregados retornarem ao servio,
sairia silenciosamente do castelo, usando um dos portes laterais. Tomaria
uma carruagem que a conduzisse at o Regent Circus, onde pegaria uma
diligncia para Morden.
       Em casa se sentiria mais segura e escreveria ao conde, explicando-lhe
sua atitude e recusando sua proposta de casamento.
       Por sorte, era econmica e guardara com cuidado as poucas libras que
trouxera consigo. No se tratava de nenhuma fortuna, mas, naquele momento,
representava sua nica possibilidade de salvao.
       De volta ao lar, ela pensaria em alguma forma de sobreviver. Talvez
pudesse dar aulas particulares, ou mesmo executar pequenos servios de
copista e secretria ...
       Nesse instante, as badaladas do relgio da sala trouxeram-na de volta 
realidade.
       Eram quatro horas, e no havia tempo a perder. Rezando aos cus para
ser bem-sucedida, Ornella vestiu a capa de viagem, colocou o capuz sobre a
cabea e pegou a mala, encaminhando-se para a porta.
       Tomando o mximo de cuidado para no fazer qualquer rudo, girou a
maaneta e abriu-a. Antes de sair, relutou alguns instantes, perguntando-se se
no deveria deixar um bilhete para Caroline, a fim de tranquiliz-la.
        No entanto, logo colocou de lado essa hiptese, pois, quanto mais
tempo ganhasse antes que descobrissem sua fuga, melhor. Alm disso,
quando se desse conta do ocorrido, a prima deduziria num instante seu
paradeiro.
        Com o corao acelerado e a respirao suspensa, caminhou pelo
corredor amplo, quase mergulhado na penumbra.
        Parou uma ou duas vezes, sobressaltada, com a impresso de ouvir
barulho de gente se movimentando. Porm, os rudos no se repetiram, e
Ornella avanou, confiante, descendo p ante p os degraus da escada que
dava acesso ao hall.
        Convencida de seu sucesso, aproximou-se da imponente porta de
carvalho entalhado e removeu, com dificuldade, o ferrolho de madeira macia.
Em seguida, ficou na ponta dos ps e ergueu os braos, tentando alcanar o
trinco superior.
        Devido  sua baixa estatura, precisou fazer um esforo enorme, e,
quando finalmente conseguiu abri-lo, sentia-se exausta.
        Sem sequer se voltar para um ltimo olhar de despenda, apanhou a
maleta que depositara no cho e pousou a mo sobre a fechadura.
        -- Quer que eu a ajude com a bagagem, srta. Stanyon? -- perguntou
uma voz grave, s suas costas.


                                CAPTULO IV


        Ornella voltou-se de um salto e quase perdeu a respirao ao notar a
expresso sarcstica com que o marqus a observava, olhando
alternadamente para seu rosto e para a pequena maleta que ela trazia nas
mos.
        -- Posso perguntar o nome do prncipe encantado que roubou seu
corao e, sem coragem de procur-la  luz do dia, espera l fora?
        Ornella demorou alguns instantes at atinar com o significado daquelas
palavras. Quando respondeu, a voz lhe saiu trmula, denunciando
insegurana.
        -- No h... ningum.
        -- Por acaso, acha que vou acreditar nisso?!
        --  verdade!
        Em silncio, ele a examinou com um olhar penetrante, como se quisesse
adivinhar se Ornella mentia.
        -- Sugiro que conversemos na biblioteca. Aqui o som de nossas vozes
pode acordar algum.
        Deduzindo que seria melhor no discutir, ela o seguiu pelo corredor at
o grande cmodo, cujas paredes estavam tomadas por estantes repletas de
livros com encadernao de couro.
        Do lado oposto ao da janela, o fogo queimava na lareira de pedra,
espalhando um calor agradvel por todo o ambiente. A luz era fraca, e as
chamas lanavam reflexos bruxuleantes ao redor.
        Um volume de Shakespeare aberto ao meio e uma garrafa de vinho
quase vazia indicavam que o marqus estivera lendo praticamente a noite
inteira.
        Ainda sem coragem para encar-lo, Ornella avanou alguns passos e
postou-se ao lado da escrivaninha, torcendo as mos num gesto nervoso.
        Darius fechou a porta e observou-a com ar grave durante alguns
minutos. Em seguida aproximou-se e perguntou, num tom levemente irritado:
        -- Para onde voc ia?
        -- Embora...
        -- Oh, meu Deus, isso era bvio! O que eu, como seu anfitrio, quero
saber  para que lugar voc pretendia ir.
        -- Eu voltava para casa.
        -- Por qu?
        Relutando em lhe revelar a verdade, Ornella desviou o olhar e manteve-
se em silncio, mal contendo a vontade de se desmanchar em lgrimas.
        -- Insisto em saber por qu, Ornella.
        -- Eu... eu me recuso a me casar com o conde de Rotherton.
        Nunca em sua vida Ornella se achara to tola e infantil como naquele
momento. Sentiu o olhar do marqus fixo em seu rosto e corou violentamente.
        Na certa, ele ficaria furioso, considerando-a apenas uma jovenzinha
mimada e pretensiosa que ousava recusar a gentileza de um homem mais
velho, importante e... rico.
        Assustada, Ornella desejou que o cho se abrisse a seus ps e a
engolisse, fazendo-a desaparecer para sempre. Sem dvida, na manh
seguinte, Darius contaria a todos seu comportamento censurvel, e as coisas
se tornariam absolutamente insustentveis no castelo,
        No entanto, para seu espanto, ele no comentou nada e, quando falou,
no havia o menor trao de censura em sua voz.
        -- Que acha de conversarmos um pouco, Ornella? Tire O casaco. Est
quente aqui.
        Perplexa diante dessa reao, ela demorou alguns segundos para tirar a
capa de viagem. Percebendo-lhe o embarao, o marqus ajudou-a a livrar-se
do agasalho que pendurou num cabide de p.
        Em seguida, virou-se e apontou para uma confortvel poltrona de
veludo, que se encontrava diante da lareira.
        -- Sente-se, Ornella. Vou pegar uma cadeira e j volto.
        -- N... no precisa. Pode usar a poltrona, pois eu prefiro sentar-me no
cho.
        Ignorando-lhe os protestos, ela se acomodou no tapete, com a fina
musselina caindo em ondas sobre suas pernas dobradas.
        -- Aceita um pouco de vinho?
        -- No, obrigada, milorde!
        -- Ento, vou me servir...
        Enquanto vertia a bebida numa fina taa de cristal, Darius aproveitou
para admirar dissimuladamente sua jovem hspede.
        Jamais a vira to bonita e sedutora quanto naquele momento, em que
um brilho de desafio iluminava seus olhos azuis e as chamas da lareira se
refletiam em seus cabelos louros, provocando-lhes reflexos avermelhados.
        Lutando para disfarar a inexplicvel emoo que o dominava, ele se
acomodou na poltrona, de frente para Ornella.
        -- O que a levou a tomar uma resoluo to drstica quanto a fuga?
        -- Desculpe-me pela minha infantilidade... Eu no aguentava mais!
Cansei de falar que odeio a idia de me casar com o conde, mas ningum
entende.
       -- Com ningum voc se refere  minha av ou ao prprio Rotherton?
       Aps refletir um pouco, ela resolveu no dar uma resposta direta.
       -- Tentei esclarecer tudo diretamente com o conde, porm no me
permitiram encontr-lo a ss. Alm disso, escrevi-lhe uma carta, que desconfio
que ele nem sequer recebeu.
       O marqus franziu a testa, intrigado.
       -- Por acaso, chegou a comentar com minha av que no desejava
essa unio?
       -- Diversas vezes... No entanto, nem ela nem Caroline me deram
ateno. Censuraram-me e disseram que eu devia ficar encantada pela chance
de me casar com algum to rico e importante... Elas no compreendem que
simplesmente no posso!
       -- E o que a impede?
       -- Eu no o amo -- murmurou Ornella, enrubescendo.
       Assim que pronunciou essas palavras, ela se arrependeu. Aquele tipo de
comportamento era comum na aristocracia, onde apenas o poder e a riqueza
importavam, e com certeza Darius no se escandalizaria com isso. Pelo
contrrio, devia inclusive ach-lo bastante normal, uma vez que seu casamento
com Caroline no passava de uma troca de interesses.
       Mais uma vez, porm, ele contrariou suas expectativas, perguntando
com toda a calma:
       -- Acredita que o amor  essencial no casamento?
       Refazendo-se do espanto, ela afirmou, categrica:
       -- Considero-o fundamental, milorde.
       -- Bem, em resumo: voc no aceita casar-se com Rotherton porque
no o ama?
       -- Exatamente!
       -- J pensou que pode vir a am-lo um dia?
       -- No, no!  impossvel! -- Desviando o olhar, acrescentou, baixinho:
-- Na verdade, eu o acho repugnante.
       -- Engraado... Desde o incio, pensei que esse "arranjo" contasse pelo
menos com sua aprovao.  lgico que considero Rotherton um pouco velho
em relao a voc. Em comparao,  tambm excepcionalmente rico, ocupa
lugar de destaque na sociedade e possui uma fortuna invejvel...
       -- Oh, mas nada disso me interessa!
       Como se no a escutasse, ele prosseguiu:
       --  indiscutvel que, depois que enviuvou, a exemplo da maioria dos
aristocratas, ele tem levado uma vida meio libertina. Entretanto, goza de uma
reputao sem dvida alguma mil vezes melhor do que a minha. Inclusive 
provvel que, com a ajuda de seu amor por voc, ele se recupere totalmente.
       -- Por favor... J cansei de ouvir as vantagens de me tornar a esposa
do conde. Todo mundo s me fala nisso h dias.
       -- E ainda assim quer recus-lo?
       Revoltada, Ornella ergueu a cabea num gesto desafiador.
       -- O senhor fala como se minha opinio no importasse. Na verdade,
por mais irnico que possa parecer, as pessoas aqui esto determinadas a
resolver minha vida, sem sequer me consultar a respeito. Tomam decises e
colocam palavras em minha boca a torto e a direito.
        Aps esse desabafo, ela respirou fundo e enxugou as lgrimas que
haviam brotado de seus olhos, concluindo;
        -- Desculpe-me, no quis ofend-lo. Tambm no pretendia deix-los
preocupados. Juro que a primeira coisa que faria ao chegar a Morden seria
escrever para vocs, tranquilizando-os. Eu... eu no quero me transformar
num peso para o senhor e Caroline... Garanto que arrumarei um emprego...
para me sustentar.
        -- Meu Deus, de onde tirou essa idia disparatada? Voc sempre ser
bem-vinda em minha casa. Em hiptese alguma, eu a consideraria um
encargo.
        Comovida com a nota de sinceridade que se revelava na voz de seu
anfitrio, ela murmurou:
        -- Muito obrigada, milorde...  muita gentileza sua me dizer isso,
embora eu saiba que, com o passar do tempo, as coisas fatalmente mudariam.
Eu no seria mais do que uma parenta pobre... um incmodo!
        -- Voc fala como se conhecesse o que o futuro reserva. Com certeza,
haver outros homens em sua vida... -- Depois de uma pequena hesitao,
completou com rudeza: -- Nunca se olhou no espelho, Ornella? No percebe
que os homens sempre desejaro possu-la?
        Assustada com sua repentina mudana de humor, ela se apressou em
concordar.
        -- Talvez o senhor tenha razo. No me casarei com o conde de
Rotherton, mas poderei encontrar outro homem...
        -- E o que acontecer se no encontrar esse homem ideal?
        -- Tenho planos para o futuro.
        -- Planos? Que planos?
        -- Peo que me desculpe, mas no quero coment-los ainda. Por
enquanto, s o que me importa  pr um ponto final nessa situao... Posso
contar com sua permisso para partir?
        -- No! De onde tirou a idia de que eu permitiria que voc sasse
sozinha a esta hora da noite?
        -- No h perigo! Tomarei a diligncia na estalagem, em Piccadilly...
        -- Em absoluto! Quero que me prometa uma coisa, Ornella.
        -- O qu?
        -- Jure que no tornar a fazer uma coisa to absurda. Se tiver
problemas ou se algo der errado, venha conversar comigo. Garanto que vou
proteg-la.
         medida que o escutava, ela sentia uma emoo nova, desconhecida,
brotar do mais ntimo de seu ser. Um sentimento poderoso que a deixava
intensamente consciente daquele homem atraente e seguro de si, cuja voz
profunda tinha o poder de tranquiliz-la.
        Como que hipnotizada, ergueu a cabea e seu olhar encontrou-se com o
dele. Ambos estavam muito prximos um do outro, e, no silncio da
madrugada, o som de suas respiraes soava ntido, aumentando o clima
mgico daquele instante em que as palavras haviam se tornado dispensveis.
        De repente, Ornella intuiu o que acontecia e, num esforo sobre-humano
de lealdade  prima, baixou o rosto,
        Darius tambm voltou a si daquele encantamento e, com a voz
levemente rouca, insistiu:
        -- Confie em mim, Ornella...
        -- Mas eu confio no senhor!
        -- Ento, prometa que, se tiver problemas, vir me procurar antes de
cometer alguma tolice da qual poder se arrepender.
        -- Est bem! Eu prometo.
        -- timo! Isso me deixa mais tranqilo. Hoje mesmo falarei com
Rotherton e pedirei que pare de molest-la. Comunicarei tambm  minha av
o que ficou decidido. Por isso, acalme-se e trate de divertir-se ao mximo,
Ornella. Afinal, toda a alta sociedade anda comentando sua beleza.
        -- Esto falando de mim?
        -- Claro! E de quem mais?
        Como Ornella no respondesse, Darius contemplou mais uma vez seus
traos delicados, quase angelicais, os olhos grandes, sombreados por clios
longos e espessos. O medo desaparecera de suas feies, e ele estava
convencido de que nunca conhecera uma mulher mais graciosa e fascinante.
        -- Ornella, voc no percebe como  bonita?
        Os lbios dela se abriram num sorriso espontneo.
        -- Acha mesmo?
        -- Sim... de verdade! E fica ainda mais encantadora quando sorri. Alis,
tenho uma notcia que talvez lhe agrade. Recebi uma carta entusiasmada de
Rupert. Ele contou que est muito feliz no regimento, e j recebeu um elogio do
oficial de comando.
        -- Oh, que maravilha! Eu tinha certeza de que, com um pouco de
incentivo, ele se transformaria num rapaz responsvel e esforado.
        -- Ora essa! Quem no a conhecesse pensaria que  a me de Rupert.
A propsito, sabe que ainda hoje eu me pergunto como voc pde ser to
perspicaz a ponto de num piscar de olhos descobrir o que havia de errado com
meu sobrinho?
        -- Isso no foi nada! Caso o senhor no houvesse consentido, minha
opinio no teria significado algum.
        -- Tss, tss... Sua insistncia foi fundamental. Voc  uma adversria
forte...
        -- De maneira alguma! Assumi o partido de Rupert apenas porque
percebi como estava prximo de arruinar a prpria vida. Confesso que senti
muita pena dele.
        O marqus deu de ombros, num gesto de pouco-caso, comentando:
        -- Muita gente se v nessa situao por pura burrice.
        -- No entanto, isso no  regra. Acredito que a falta de dilogo e
compreenso entre as pessoas pode causar inmeras infelicidades...
        -- Ai, comovente! -- exclamou ele com um repentino toque de cinismo
na voz. -- Aconselho-a a no superestimar seu mtodo. O fato de haver
resolvido o problema de Rupert no significa que um simples dilogo seja a
soluo para tudo.
        -- No a nvel social, sem dvida. Mas acredito que cada pessoa,
individualmente, s toma um caminho errado caso ningum lhe oferea outra
escolha.
        -- Ou ento se precisar de dinheiro...
        -- Francamente, milorde! Duvido que a vida se resuma a dinheiro.
Aposto como muita gente rica abriria mo de metade de sua fortuna em troca
de um pouco de compreenso.
        Fez uma pequena pausa para respirar, com os olhos brilhando de
indignao.
        -- Conheci famlias pauprrimas que superavam quase todas as
dificuldades porque estavam unidas e no se deixavam abater.
        -- E onde conheceu essas famlias?
        -- J estive em contato com um nmero enorme de pessoas que
sofrem...
        -- Em Morden Green? No acredito que tenha adquirido tanta
experincia numa aldeia to pequena!
        -- Nenhum lugar do mundo est a salvo das desgraas, milorde!
        -- Hum... Ser que voc conhece um remdio para meu mal tambm?
Quem sabe, se tivesse me conhecido antes, conseguiria impedir que eu me
transformasse no "Marqus Perverso"...
        Apesar de perceber que Darius zombava, Ornella sentiu-se comovida.
Por trs daquela mscara de sarcasmo e ironia, sem dvida o marqus era um
homem sofrido, que lutava desesperadamente para driblar a infelicidade.
        -- Na certa, as pessoas que o amavam de verdade...
        As feies do marqus se endureceram, e ele a interrompeu, com raiva.
        -- Ningum nunca me amou. Nunca! Ser que essa informao d a
pista de que voc precisa para me dissecar com exatido?
        -- Ningum?!
        -- Exato. Mame morreu quando nasci, e meu pai nunca me perdoou
por ter sido a causa indireta de sua morte prematura. A me de Rupert, minha
irm, foi viver com uma tia. Portanto, s havia sobrado eu nessa casa...
        -- Talvez seu pai agisse com rudeza, mas no fundo o amasse muito.
        -- Para ser franco, desconfio que me odiava.
        -- Mas o senhor era o herdeiro dele!
        -- O que s piorava as coisas. Ele era um homem autoritrio, metdico,
e acreditava que eu, como futuro marqus, precisava me disciplinar. Em funo
disso, chegava a me surrar com crueldade.
        -- Oh, sinto muito...
        -- Para completar, papai tinha um temperamento incontrolvel e
desabafava tudo sobre mim e a criadagem. Os empregados mudavam como as
estaes do ano, e nem mesmo minhas governantas gozavam de um mnimo
de estabilidade.
        Amargurado, o marqus sorriu com tristeza, meneando a cabea de um
lado para outro, com uma expresso desalentada no rosto.
        -- Fui passando de mo em mo uma infinidade de vezes, e, apesar do
grande nmero de pessoas que freqentavam nossa casa, eu era uma criana
solitria.
        -- Por favor, esquea esse assunto. No tive inteno de abrir velhas
feridas.
        Ignorando a interrupo, ele continuou a falar:
        -- Muito cedo descobri que a solido pouco importava se comparada
com a horrvel sensao de ser ignorado por todos. Aos poucos, minha
necessidade de auto-afirmao cresceu ao mximo, e eu fazia coisas terrveis
s para chamar a ateno.
        Surpresa com seu desabafo, Ornella comeou a imagin-lo quando
criana. Um garotinho pequeno perambulando o dia inteiro por um palcio
imenso, ignorado at mesmo pelos criados, que se limitavam a lhe garantir os
cuidados materiais. Nenhum carinho ou palavras de conforto que revelassem
uma pontinha de simpatia...
       -- Quando comeou a freqentar a escola, essa situao melhorou? --
perguntou, de repente.
       -- Mais ou menos. Afinal, eu havia aprendido uma lio importante
antes de entrar na Universidade de Eton... Qualquer pessoa que adotasse um
comportamento agressivo e rebelde atrairia os descontentes. Sempre havia
algum mais humilde disposto a se deixar liderar.
       Sem nunca ter conhecido o amor de uma me, era natural que o
marqus optasse pela maneira mais fcil de chamar a ateno: a indisciplina.
Ningum consegue manter-se indiferente diante de algo que incomode de fato.
Assim, embora essas tentativas de rebelar-se na certa acabassem resultando
numa punio, Darius devia sentir-se menos insignificante. O correr dos anos
sem dvida havia ajudado a sedimentar esse comportamento, chegando a lhe
valer um apelido no mnimo chocante.
       Curiosa para descobrir mais sobre aquele homem intrigante, ela
perguntou:
       -- E durante as frias? O que fazia?
       -- Descender de gente importante tem l suas vantagens! Logo descobri
que havia famlias interessadas em hospedar o filho de um aristocrata rico e
poderoso, esperando em troca um convite para ficar em Ryde... -- O marqus
meneou a cabea e, assumindo uma expresso descontrada, comentou: --
Voc me seduziu para que eu contasse minha histria! Bem, agora que j a
ouviu, diga o veredicto: serei condenado ou absolvido?
       Ornella sorriu de maneira enigmtica.
       -- Quem sou eu para julgar algum? Tudo o que ouvi serviu apenas
para reforar minha opinio de que nada no mundo acontece de graa... Creio
que a partir de hoje compreendo melhor muitas coisas.
       -- Humm, duvido! Acho meio impossvel que atravs de umas poucas
frases se chegue realmente a conhecer algum. Mesmo porque  inegvel que
as pessoas tendem a se colocar como vtimas. Desse modo, pode ser que,
inconscientemente, eu tenha deturpado alguns dados a meu favor.
       -- Sou capaz de apostar que no. E a sinceridade com que falou indica
que, independente dos fatos reais, essa  a sua verdade;  isso o que importa!
       -- Em outras palavras, considera a verdade algo relativo?
       -- Exato! No  raro vermos coisas que quase no abalam
determinadas pessoas serem fatais para outras. Se no nos educamos para ter
essa abertura de conhecer e sentir o ponto de vista alheio, jamais
conseguiremos ajudar o prximo.
       -- Pensa que pode me ajudar, Ornella?
       -- No acho que necessite de ajuda, milorde.  inteligente, e sabe muito
bem o que anda errado.
       -- Quem disse que h algo errado?
       Longe de se deixar intimidar pela resposta spera, Ornella deu de
ombros, com um brilho enigmtico no olhar. Nesse instante, o relgio da sala
tornou a badalar, denunciando o avanado da hora.
       -- Preciso me retirar. Prefiro que nenhum empregado me surpreenda
com as bagagens. Seria bastante desagradvel se desconfiassem que eu
pretendia fugir...
       -- Claro, tem razo!
       Notando que as feies do marqus se contraam numa expresso de
desaponto, como se lamentasse sua sada, ela declarou, hesitante:
       -- Talvez... possamos conversar outras vezes.
       -- Acha que seria prudente?
       -- Prudente?! Como assim? No compreendo seu receio, milorde.
       -- Reflita nisso. Tenho certeza de que descobrir a que me refiro.
       Dito isso, ele se levantou e pegou a capa de viagem, que entregou 
dona com um gesto relutante.
       Ao estender a mo para apanhar o agasalho, ela tocou de leve nos
dedos fortes e recuou, assustada com a intensa emoo que aquele simples
contato lhe provocara.
       Era como se um campo magntico os atrasse um para os braos do
outro, e seus olhares, repletos de paixo, dissessem coisas que seus lbios
jamais ousariam pronunciar.
       Recuperando o autocontrole, Darius abriu a porta, dando-lhe passagem.
       -- Boa noite, Ornella.
       -- Boa noite, milorde -- murmurou ela, com dificuldade. -- Muito...
obrigada.
       Antes que ele pudesse responder, Ornella saiu correndo da biblioteca.
Atravessou o corredor e, sentindo o corao acelerado, apanhou a maleta no
hall de entrada.
       Agitada e terrivelmente confusa, subiu o primeiro lance da escada,
voltando-se uma vez. No entanto, a biblioteca j estava fechada e no havia
ningum no hall.

       -- Acorde, dorminhoca! J  tarde.
       Abrindo lentamente os olhos, Ornella surpreendeu-se ao ver a prima
sentada  beirada de sua cama. Ergueu-se, apoiando-se nos cotovelos, e
notou que o sol j alto no cu.
       -- Que horas so?
       -- Quase onze horas. Voc est ficando muito bomia... Quando
chegamos a Londres, acordava antes das oito, e agora...
       -- Onze horas! Meu Deus, que loucura!
       -- Aham... Eu, em compensao, fui acordada logo cedo, pois Darius
queria conversar comigo. Oh, Ornella, por que no me contou?
       -- Contar o qu?
       -- Que estava infeliz e detestava lorde Rotherton,
       -- Mas eu tentei!
       -- Tem razo! Fui uma tola por no ter acreditado. Hoje Darius me
explicou sua situao, e lamento por tudo. Voc sabe que eu no poderia
for-la a casar-se com ningum.
       -- O que disse o marqus?
       -- Ele falou sobre voc com muito carinho. Chegou at a me enternecer.
       -- Caroline, o que pretende insinuar com isso?
       -- Nada! Apenas sinto uma grande afeio por Darius quando ele age
assim de modo to sincero e agradvel.
       --  claro que voc tem carinho por ele. Afinal,  seu noivo!
       -- J falei que Darius  o melhor partido que uma mulher poderia
encontrar. No entanto, considero-o aborrecido, quando se torna cnico e
sarcstico.
       -- Caroline!
       -- Estranhei quando o ouvi falar sobre voc esta manh. Parecia at
que, por baixo de toda a sua agressividade, havia um corao humano!
       -- No diga asneiras, Caroline. Como pretende desposar um homem
pelo qual no nutre uma afeio real?
       -- Oh, eu admiro Darius! Ele sempre consegue o que quer! Alis, aposto
como vai fazer picadinho da duquesa l na biblioteca!
       -- Falando sobre mim?
       -- Sobre quem mais? O nobre marqus est concentrado em voc esta
manh.
       -- Ah, meu Deus! Ela vai ficar furiosa comigo.
       -- Que nada! Darius  esperto, e dir que voc no vai se casar com
lorde Rotherton, mas que ns no devemos aborrec-la, nem obrig-la a nada.
       Deu uma risadinha e continuou:
       -- De acordo com ele, voc  diferente de todas essas prostitutas da
alta sociedade que s tm uma idia na cabea: encontrar um marido rico e
nobre. Disse que voc  uma idealista, e que  assim que deve ser tratada
nesta casa. No quer que ningum a force a fazer algo que lhe desagrade.
       -- Foi muita bondade da parte dele!
       -- Nem imagina como eu queria ver a cara da viva enquanto ouve o
neto!
       -- Ai, meu Deus! Deixe-me voltar para casa, Caroline. Vou me sentir
melhor l em Morden, onde poderei arranjar um emprego para me sustentar.
       -- Quando Darius contou que voc pretendia fugir, no pude acreditar.
Oh, querida, quero voc perto de mim. Eu no suportaria ficar sozinha.
       -- Est falando srio, Caroline?
       -- Claro! Significa muito para mim estarmos juntas e poder contar com
sua compreenso, Ornella.
       -- Voc no  feliz?
       --  lgico que sou feliz! Tenho tudo o que uma pessoa poderia desejar
neste mundo, no tenho? Apesar disso, aflige-me no entender meu noivo, e
no pretendo esconder isso de ningum.
       -- Ento, por que est determinada a se casar com ele?
       -- Voltamos  velha pergunta. Pretendo me casar por causa de tudo o
que Darius pode me proporcionar... Uma posio invejvel, dinheiro,
conforto... No entanto, acho-o estranho. Nunca sei o que pensa ou sente!
Tenho a impresso de que vive me criticando...
       -- Tenho certeza de que isso no  verdade! Ele se orgulha de sua
beleza, e deve amar muito voc.
       -- Em absoluto! Lembra-se de que esta conversa comeou por sua
causa? Darius resolveu defend-la, e est certo. Envergonho-me por deixar
aquela bruxa da av dele persuadir-me a obrig-la a se casar com lorde
Rotherton...
       -- No fale assim sobre a duquesa, Caroline.
       -- Por que no?  a pura verdade. Ela  dura como uma pedra, e, pelo
que tenho ouvido, sempre foi assim. Comandava o marido e nunca se importou
com Darius, exceto por causa do dinheiro que ele lhe d. Com isso ela se
importa, e muito!
       O comentrio da prima levou Ornella a lembrar o que o marqus lhe
contara na vspera sobre sua infncia.
       Mais uma vez sentiu-se comovida e desejou ardentemente que a vida
dele mudasse dali para a frente.
        Talvez, casando-se com uma mulher carinhosa e compreensiva e tendo
filhos que o amassem, Darius viesse a conhecer, por fim, a felicidade que tanto
lhe fora negada.
        Precisava ajudar Caroline a encontrar-se e faz-lo feliz.
        -- J imaginou como o marqus deve ter sofrido quando criana? A me
morreu quando ele nasceu, e a av certamente deu pouco consolo a uma
criana criada por um pai problemtico...
        Para seu espanto, Caroline encolheu os ombros com indiferena.
        -- S espero que Darius se modifique. Seus primos contam que ele era
levado e vivia se metendo em trapalhadas. Nem os castigos mais severos
foram capazes de corrigi-lo.
        -- Ora, sempre h uma razo para que as crianas sejam rebeldes.
        -- Tentarei me lembrar disso quando tiver meus filhos. Se forem como
Darius, voc precisar me ajudar a tomar conta deles, Ornella. Na certa, eles a
acharo muito mais simptica do que eu!
        -- Que bobagem! Me  sempre me.
        -- Acontece que no morro de amores por crianas.
        -- No fale assim, Caroline.  lgico que voc amar seus filhos.
        -- No se eles se parecerem com Darius: difceis, imprevisveis.
Tambm prontos para zombar de mim!
        -- Quem zomba de voc?
        -- Aqui todo mundo  cnico, sarcstico, desdenhoso, distante. No
imagina a falta que sinto do tempo que passei em Roma ou Paris.
        -- No est na natureza dos ingleses serem sempre gentis como os
estrangeiros...
        -- Mas  justamente disso que eu gosto, Ornella. Acho to romntico
passear ao luar com um homem que ame voc com loucura e a deseje
desesperadamente... Quero ser admirada, desejada, amada! Amada por
homens atraentes, belos, que sabem se expressar e dizer que seus coraes
batem mais rpido quando estou por perto.
        Em silncio, Ornella compreendeu o que afligia a prima: a falta de amor.
        Sem dvida, se estivesse apaixonada pelo noivo, Caroline no se
deixaria seduzir pelo falso brilhantismo das frases feitas dos conquistadores de
salo, que trocavam de paixo a torto e a direito.
        Comovida pela amargura que havia no rosto de Caroline, Ornella
abraou-a.
        -- Oh, querida, como posso ajud-la?
        -- Voc no pode, Ornella. Sei bem que estou sendo absurda, mas vou
me casar com o marqus de Ryde e me transformarei na mais afortunada e
invejada mulher da alta sociedade.


                                 CAPTULO V


       Aps tomarem o caf da manh no quarto, as duas primas desceram, de
braos dados, os degraus que conduziam ao andar inferior. Muito animada,
Caroline comentava com malcia algumas gafes que presenciara durante um
jantar na vspera e balanava alegremente a sombrinha, que levava fechada
numa das mos.
        Ao v-las, Darius adiantou-se para receb-las ao p da escada. Com os
cabelos ligeiramente despenteados, usava trajes de montaria, e, a julgar por
sua aparncia, acabara de chegar de uma cavalgada.
        -- Bom dia, querido! -- disse Caroline, estendendo a mo para que ele
beijasse. -- Espero que ainda se lembre do passeio que me prometeu para
hoje.
        -- Claro que me lembro! Inclusive j mandei um criado preparar a
carruagem alta.
        -- Que maravilha! Por que no vem conosco, Ornella?
        -- No, obrigada. Tenho algumas tarefas por acabar...
        Nesse instante, a chegada do modormo interrompeu-os.
        Fazendo uma reverncia respeitosa, ele estendeu uma bandeja de prata
contendo um embrulho na direo de Ornella.
        -- Isto acaba de ser entregue, senhorita.
        Curiosa, Caroline bateu palmas de entusiasmo.
        -- O que ser, Ornella? Por acaso, algum gal apaixonado lhe mandou
um presente?
        Vencida a surpresa inicial, Ornella logo imaginou do que se tratava e
apressou-se em pegar o pacote.
        -- No, Caroline. Talvez seja uma coisa que... encomendei. Se me
derem licena...
        Sem lhes dar tempo de fazer perguntas, virou-se e subiu a escada,
dirigindo-se para o quarto. Entretanto, quando chegava ao patamar, ouviu a
voz da duquesa no salo e parou.
        -- Bom dia, Caroline -- dizia ela, forando um tom amistoso. -- Ah, sim!
Meus parabns, Darius. Espero que esta data se repita durante vrios anos.
        -- O que acontece hoje? -- estranhou Caroline.
        -- Ora, minha querida, como pode ignorar a data do aniversrio de seu
futuro marido?
        -- Oh, que horror! Por que no me contou antes, Darius?
        -- Isso no faz diferena. Sempre achei que aniversrio  uma data que
merece ser esquecida.
        -- Como pode falar assim? -- ralhou a duquesa, com fingida
indignao. -- Para ns, que o amamos, esta  uma ocasio especial.
        Irritada com a evidente falsidade dessas palavras, Ornella disse a si
mesma que a velha dama era uma pssima atriz. Em seguida, retomou seu
caminho, ansiosa por chegar  paz de seus aposentos, nico lugar onde se
sentia a salvo daquele clima de hipocrisia e superficialidade que permeava
todas as conversas da alta sociedade.
        Preocupava-a saber que na certa ningum se lembraria de comprar uma
lembrancinha de aniversrio para Darius. Sabia, por experincia prpria, como
era desagradvel ver aIgumas comemoraes passarem em brancas nuvens.
Afinal, quantas e quantas vezes no experimentara uma amarga frustrao ao
notar que, alm de Sara, ningum mais se recordava de seu aniversrio!
        Com um suspiro profundo, trancou  chave a porta do quarto e sentou-
se  escrivaninha, mal contendo a ansiedade.
        O pacote estava cuidadosamente embrulhado, e um pequeno selo
indicava o lugar por onde deveria ser aberto. Movendo-o, Ornella emocionou-
se ao ver quatro volumes de encadernao de couro e uma carta em papel
timbrado.
        "Senhora,
        Temos a honra de lhe enviar os quatro volumes de seu livro de poesias,
que s publicamos recentemente.
        Para nossa alegria, o tema teve boa receptividade, e esperamos obter
um grande nmero de vendas. Em funo disso, j inclumos um cheque no
valor de cinquenta libras, a ttulo de adiantamento dos direitos autorais.
        Aproveitamos tambm para inform-la a respeito de nosso interesse de,
num futuro prximo, voltarmos a publicar outros trabalhos seus, sejam poemas
ou prosa.
        Respeitosamente a felicitamos pelo seu cuidadoso trabalho.
        Watkins e Rufus."
        Aps examinar o cheque anexo, Ornella pegou com dedos trmulos um
dos livros.
        Sobre a capa, lia-se o ttulo em letras douradas: Londres atravs de um
Observador.
        Aliviada, constatou que no havia a menor referncia sobre o autor.
Agora,  medida que folheava as pginas impressas, mal acreditava que enfim
seus esforos tinham valido as horas e horas, durante dias a fio, que ela passa-
ra escrevendo sem parar.
        Graas a lorde Byron, a poesia comeara a ocupar uma posio de
destaque entre a aristocracia, o que no impedira Ornella de recear que sua
obra no encontrasse eco entre os notveis da poca.
        No entanto, as notcias enviadas pelos editores no podiam ser mais
favorveis... e cinqenta libras constituam uma soma respeitvel!
        De repente, ocorreu-lhe que poderia aproveitar e comprar um presente
para Darius. Lgico que no teria condies de retribuir todas as gentilezas que
ele lhe havia feito, mas poderia impedir que ele se sentisse mal-amado numa
data to importante.
        Excitada com a idia, mudou rapidamente de roupa, vestiu a capa de
passeio e o chapu e desceu correndo a escada.
        No hall foi informada de que Caroline e o noivo haviam sado, e que a
duquesa se encontrava no salo azul, conversando com uma amiga.
        Dirigiu-se para l cheia de ansiedade, batendo de leve na porta antes de
entrar.
        -- Com licena -- disse, fazendo uma respeitosa reverncia para as
duas senhoras que tomavam ch.
        -- O que deseja, Ornella? -- perguntou a duquesa, com rispidez.
        Atribuindo o ressentimento que transparecia na expresso da velha 
interveno do marqus a seu favor, Ornella hesitou um pouco antes de
responder:
        -- Eu... Bem, notei que preciso fazer umas compras...
        -- Pea a uma das criadas para acompanh-la -- sugeriu ela,
secamente.
        Assentindo com um gesto de cabea, a jovem tratou de sair logo dali e
despediu-se de modo respeitoso. Em seguida, procurou o mordomo e pediu-lhe
que providenciasse uma carruagem.
        Feito isso, chamou a governanta, a sra. Mayhem, uma mulher idosa que
estava a servio do marqus h mais de trinta anos. Prestativa, ela concordou
prontamente em liberar uma das criadas para acompanhar Ornella.
       -- Aconselho-a a levar Emma, senhorita. Ela anda meio atrapalhada
ultimamente, e talvez um pouco de ar fresco lhe faa bem.
       -- Emma? Quem  ela?
       --  a moa que ajuda sua criada de quarto.
       -- Ah, sim! timo. Tenho certeza de que acharei a companhia dela
agradvel. Como ns duas somos do campo, encontraremos muitos assuntos
em comum.
       Minutos mais tarde a luxuosa carruagem deslizava pelas ruas agitadas
de Londres.
       Vestida de modo simples, com as faces coradas e os olhos brilhando de
admirao, Emma no se cansava de tecer comentrios entusiasmados sobre
as novidades oferecidas pela grande cidade. Com seu sotaque macio,
caracterstico de Hertfordshire, evocara os melhores momentos da
adolescncia de Ornella.
       -- Oh, deve estar me achando uma tola, senhorita.
       -- De modo algum, Emma. H cinco anos, em 1817, quando visitei
Londres pela primeira vez, tambm achei essa cidade semelhante a uma
caixinha de surpresas. Cada esquina tem uma novidade, e as pessoas mais
diversas circulam por aqui.
       Assim que a carruagem estacionou diante do nmero 59 do Strand,
Ornella saltou. Com passos decididos, entrou no prdio imponente, onde foi
atendida pelo gerente do Coutt's Bank em pessoa. E instantes depois, ao voltar
para a carruagem, j de posse das cinqenta libras, ordenou ao cocheiro que
seguisse pela Bond Street.
       Na ocasio em que comprara suas roupas, vira, na vitrine de uma
tabacaria famosa, um cachimbo de raiz de roseira, que formava conjunto com
uma finssima caixa de fumo aromatizado.
       Esmaltada em lindos tons de azul e vermelho, a tampa da caixa
mostrava um deus solitrio, sentado  porta de um templo em runas, ocupado
em observar o mundo, com um misto de melancolia e arrogncia no olhar.
       Essa gravura lhe agradara sobremaneira e, por um lapso de segundos,
a fizera recordar-se da figura de seu anfitrio.
       Agora, enquanto observava mais uma vez a pequena obra de arte,
confirmou sua opinio de que aquele seria um presente adequado para Darius.
       Percebendo-lhe o interesse, um vendedor aproximou-se sorridente,
encorajando-a.
       -- Garanto que se trata de um presente fino, senhorita. O artista goza de
renome internacional.
       --  muito cara?
       Era fato sabido que os cavalheiros pagavam somas astronmicas
por cachimbos e fumo de boa qualidade. Assim, Ornella teve receio de que o
presente sasse de seu oramento.
       -- Bem, como eu gostaria de t-la entre as minhas clientes, farei um
preo especial -- declarou o vendedor, aps hesitar um pouco. -- Cobrarei
somente vinte e cinco guinus.
       -- Deus do cu! E isso  um preo especial? Creio que no terei
condies de me tornar uma cliente assdua, senhor. Em todo caso, levarei
esse conjunto.
       -- Estou certo de que no se arrepender. Quer que eu o embrulhe para
presente?
        -- Sim, por gentileza.
        Dali a pouco, Ornella saa da loja, carregando, feliz, um embrulho bem-
feito, com papel brilhante.
        -- Encontrou o que procurava, senhorita? -- perguntou Emma, quando
Ornella se acomodou a seu lado.
        -- Tive sorte, Emma. Achei exatamente o tipo de artigo que desejava.
        -- Fico feliz...
        -- Agora poderemos voltar para casa e descansar.
        A expresso de tristeza que sombreou o rosto da jovem criada deixou
Ornella intrigada.
        -- No fique triste, Emma. Prometo que tentarei traz-la para passear
com mais freqncia.
        -- A bem da verdade, eu adorei, senhorita. Nunca tinha andado de
carruagem...
        -- Daqui para a frente, no faltaro oportunidades.
        Desviando o olhar para esconder as lgrimas, Emma retrucou, quase
num sussurro:
        -- Receio que no ser possvel... Desconfio que no estarei mais por
aqui.
        -- Pretende voltar para casa?
        -- Antes fosse... Ai, meu Deus, por que estamos falando nisso? Eu...
eu tinha ficado to feliz que havia me esquecido.
        -- Esquecido do qu?
        -- Esquea... No foi nada...
        -- Ora, Emma, no fuja do assunto. Quando estamos em dificuldade, 
sempre melhor conversar com algum. Vamos, desabafe! Pode confiar em
mim.
        -- No tenho coragem, senhorita... Mas preciso ir embora logo!
        -- Por qu?
        -- No posso contar, senhorita, no posso!
        -- Escute, se voc estiver em alguma dificuldade, juro que tentarei
ajud-la.
        Descontrolada, Emma cedeu  necessidade de compartilhar seus
problemas com algum e comeou a falar, com a voz entrecortada por soluos.
        -- No tive culpa, senhorita! Juro que no! Ele me jogou na cama e
tapou minha boca com as mos... Tentei me libertar... Mas ele era forte, e
disse que, se eu gritasse, ia me castigar e me mandaria embora, sem carta de
referncia... Quando acabou... jogou um guinu sobre mim e me ameaou,
caso eu abrisse a boca...
        -- Oh, Emma, acalme-se, isso j passou -- consolou-a Ornella,
acariciando-lhe os cabelos.
        -- No! Eu rezei, mas... mas... -- A criada enterrou a cabea nas mos,
num choro convulso. -- Estou de dois meses.
        -- Voc vai ter um beb?
        -- Sim, senhorita. O que ser de mim? No tenho coragem de voltar
para casa. Meu pai me mataria.  o guarda-caa de Sua Senhoria, e sempre
foi um homem orgulhoso!
        -- Quem fez isso com voc, Emma?
        -- Sir Mortimer Wrotham.
        Aliviada, Ornella soltou um breve suspiro, recriminando-se por ter
imaginado que o marqus seria capaz de um ato to mesquinho e bestial. No!
Darius pertencia a outra classe de pessoas, e jamais se aproveitaria de algum
de condio inferior.
       -- Quem  sir Wrotham?
       -- Um cavalheiro, amigo de Sua Senhoria, que se hospedou no palcio
durante uma festa...
       -- Isso aconteceu depois da festa?
       -- No, senhorita! Foi antes, quando ele subiu para mudar de roupa
para o jantar. Eu tinha ido ao quarto verificar se o fogo estava aceso. Era cedo,
e o criado de quarto dele ainda no havia chegado. Assim que o vi, fiz uma
reverncia, pronta para sair, mas ele fechou a porta  chave!
       -- E se voc conversasse a respeito com sir Mortimer? Acha que ele a
ajudaria?
       -- Em absoluto! Ele negaria, e ningum pe em dvida a palavra de um
cavalheiro.
       -- Tem razo... No entanto, como voc no pode voltar para casa, para
onde vai?
       -- Se tivesse dinheiro, Jim me ajudaria. Ns nos conhecemos desde
crianas, e planejvamos nos casar. Sei que ele se casaria comigo e tomaria
conta da criana como se fosse filho dele.
       -- Quem  esse rapaz?
       --  o chefe da estrebaria de Sua Senhoria.
       -- Sei... De quanto vocs precisariam a fim de mudar-se para algum
lugar onde pudessem comear uma vida nova?
       -- Jim pretendia abrir uma cocheira de aluguel ao norte da Inglaterra...
Porm, s dispomos de umas poucas libras...
       -- Quanto custaria uma cocheira?
       -- Muito, senhorita. Um dia a gente conversava a respeito disso com um
irmo de Jim, que possui um negcio do tipo, e ele disse que para iniciar eram
precisas setecentas libras. Uma fortuna!
       -- Espere, vamos encontrar uma soluo!
       -- Creio que a nica soluo  eu me afogar no rio.
       -- Emma! No repita um absurdo desses!
       -- Sei que isso seria errado, senhorita, mas que posso fazer? No
conseguirei emprego e serei discriminada por todo mundo. Logo minha barriga
comear a crescer e no terei como ocultar essa gravidez.
       -- Oh, Cristo! Esse miservel precisa pagar pelo que fez!
       --  impossvel! A corda arrebenta sempre do lado mais fraco.
       -- No, no seria justo...
       Notando que a carruagem j cruzava os portais de Park Lane, Ornella
tomou as mos de Emma entre as suas, tentando confort-la.
       -- Oua, Emma, no v cometer nenhuma tolice. Prometo que tentarei
ajud-la.
       -- O que pretende fazer?
       -- Juro que tudo o que estiver ao meu alcance.
       -- Mas no vai contar para Sua Senhoria, vai?
       -- Talvez essa seja a melhor soluo...
       -- No! No! Mesmo que Sua Senhoria quisesse ser gentil, no
poderia fazer nada! E os demais criados descobririam tudo. Pressionariam para
que eu fosse despedida na mesma hora!
        -- Oh, Emma, no fale assim! Duvido que eles se mostrem to
insensveis.
        -- Eu sei o que estou dizendo, senhorita. Isso j aconteceu antes, e eles
no tm piedade da mulher! O homem  o nico que sempre se sai bem.
        Durante alguns segundos, Ornella lembrou-se de todos os casos
semelhantes que ouvira.
        -- Tem razo, Emma. No comentarei uma palavra a respeito disso com
ningum. Em troca, quero que voc garanta que no tomar nenhuma atitude
sem antes me consultar.
        -- Prometo, senhorita. Nem sabe como fico agradecida.
        Nesse instante, a carruagem parou diante da porta de entrada, e o
mordomo apareceu para ajudar Ornella a descer.
        -- Fez um bom passeio, senhorita?
        -- Maravilhoso! Diverti-me bastante... Lady Caroline j voltou?
        -- Est l em cima.
        -- E o marqus?
        -- Na biblioteca, trabalhando.
        -- Sozinho?
        -- Exato, senhorita.
        -- timo. Ento, irei v-lo.
        Com uma reverncia, o modormo encaminhou-a at a sala onde ela j
estivera no dia em que planejara fugir. Antes de entrar, Ornella bateu
timidamente  porta.
        -- Pode entrar -- respondeu uma voz grave.
        Ao v-la, Darius fitou-a de modo interrogativo, e, depositando a longa
pluma com a qual escrevia sobre a escrivaninha, levantou-se para receb-la.
        -- Onde tem andado, Ornella? Fazendo compras?
        -- Trouxe-lhe um presente, milorde... Felicidades, e que essa data se
repita por muitos anos!
        Atnito, ele apanhou o gracioso embrulho que sua hspede lhe estendia
e no conteve uma exclamao admirada diante do lindo estojo que recebera.
        -- Onde conseguiu isso?
        -- Comprei com meu prprio dinheiro.
        -- Seu dinheiro?!
        -- Vendi... alguma coisa...
        -- Por que se preocupou em me comprar um presente?
        -- O senhor tem sido to gentil... Deu-me roupas maravilhosas e
mostrou-se compreensivo num momento difcil para mim. Eu no poderia
deixar que seu aniversrio passasse em branco.
        --  um conjunto belssimo! Escolheu-o por algum motivo especial?
        Aps uma ligeira hesitao, ela resolveu lhe revelar a v'erdade.
        -- Pensei que... o homem sozinho com o mundo aos ps... parecia o
senhor.
        -- Como assim?
        -- Assim como o senhor, ele tambm se mantm numa posio
isolada... quase superior. Observa tudo o que acontece em torno, sem tomar
parte... ficando fora da vida... deliberadamente.
        -- Como sabe disso?
        -- Para ser franca, apenas sinto que seja assim.
        -- Voc est certa. Porm, nunca imaginei que algum fosse capaz de
perceber isso!
       Como Ornella no retrucasse, Darius fixou o olhar na caixa que
segurava, murmurando:
       -- No preciso dizer que guardarei isso como um tesouro, Ornella. No
s pelo fato de que  o primeiro presente depois de muitos anos, mas tambm
porque possui um significado que eu no conseguiria explicar atravs de
palavras.
       -- Sinto-me...feliz. To feliz!
       Num impulso, o marqus adiantou-se alguns passos e tomou-lhe as
mos delicadas entre as suas. Fitando-a nos olhos, depositou um beijo gentil
em cada uma de suas palmas.
       Enrubescida, Ornella sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha e, sem
conseguir controlar a emoo que a dominava, correu para fora da biblioteca.

        No final da tarde, depois de escolherem as roupas que usariam na
recepo de Carlton House naquela noite, Caroline e a prima pediram licena 
duquesa para descansar.
        -- Muito bem, meninas. Hoje ser uma ocasio especial, e quero que as
duas estejam lindas.
        -- Sem dvida. Afinal, toda a alta sociedade estar reunida num nico
lugar, e  difcil brilhar perto de tantas beldades -- comentou Caroline.
        -- Oh, querida, mas  claro que voc ir brilhar!
        -- Vamos brilhar juntas, Ornella. Alis, com seu vestido de gaze
prateado e o meu vermelho, formaremos uma dupla imbatvel!
        De braos dados, subiram at o quarto de Caroline, onde uma criada j
as aguardava. Enquanto a prima se preparava para dormir, Ornella sentou-se 
beira da cama, perguntando num tom casual.
        -- O que sabe a respeito de sir Mortimer Wrotham, Caroline?
        Antes de responder, a moa fitou Ornella, com uma expresso
enigmtica.
        -- Por acaso sentiu-se atrada por ele?
        -- Oh, no! Para ser franca, nunca o vi. Mas ouvi alguns comentrios
sobre ele e fiquei curiosa.
        -- Bem, sir Wrotham  o que se chama de um homem fisicamente
atraente, embora no se possa dizer o mesmo de suas qualidades morais.
        -- Ele  casado?
        -- . Contam que a esposa dele  uma megera e o traz a rdeas curtas.
Apesar disso, mora no campo e o deixa levar uma vida de solteiro, em Londres.
        -- Ele e o marqus so amigos?
        -- Hum, digamos que ele costuma frequentar as festas oferecidas por
Darius. Creio que, em funo disso, voc ir encontr-lo, mais cedo ou mais
tarde...
        -- No estar em Carlton House esta noite? -- estranhou Ornella.
        -- De modo algum! Sir Mortimer se julga um corteso, e ligou-se mais 
rainha, em Buckingham Palace, do que ao regente. Comenta-se a boca
pequena que foi ela quem o designou para coronel da guarda.
        -- Pelo que percebi, voc no morre de amores por ele, no ?
        -- Se quer saber, eu nunca o escolheria para um dos meus namoros! E
mais: aconselho-a a mant-lo a distncia.
        -- Quanto a isso, pode ficar tranquila.
       -- Eu sei. Confio em voc, querida.
       Despedindo-se da prima com um beijo carinhoso, Ornella rumou para o
prprio quarto, cuja porta trancou chave, enquanto se trocava. Vestindo um
elegante traje de l, num tom de verde-esmeralda, apanhou um regalo de pele
e agasalhou as mos, protegendo-as do frio mido da tarde.
       Em seguida, desceu silenciosamente a escada, torcendo para no
encontrar ningum nos corredores.
       Por sorte, a duquesa e Caroline dormiam. E o marqus provavelmente
fora para um clube em Bond Street.
       Com um suspiro de alvio, Ornella constatou que o hall se encontrava
deserto, exceto pela presena de um lacaio, ao qual ela ordenou que
providenciasse uma carruagem.
       -- Pois no, senhorita -- assentiu o rapaz, retirando-se.
       Assim que se viu sozinha, Ornella correu at o mvel onde estavam
expostas as armas da famlia. Passeando o olhar pelas caixas, logo encontrou
o estojo das duas pistolas de duelo, com cabo de madreprola. Essas peas
faziam parte da decorao em todas as casas de cavalheiros, e sempre eram
mantidas prontas para uso.
       Com dedos geis, Ornella colocou munio numa delas e escondeu-a
no regalo, recompondo a aparncia.
       Mal tinha feito isso, a porta abriu-se e o lacaio anunciou:
       -- A carruagem est esperando, senhorita.
       -- Obrigada...
       Fingindo naturalidade, atravessou a sala e saiu. Willand, o mordomo,
aguardava ao lado do veculo, e demonstrou surpresa ao perguntar:
       -- No quer uma criada para acompanh-la, senhorita?
       -- Obrigada, mas  desnecessrio, Willand. Vou s at a casa de sir
Mortimer Wrotham entregar um bilhete. Por favor, d o endereo ao cocheiro,
sim?
       Mal disfarando a perplexidade, o homem ordenou ao velho que
ocupava a bolia que se dirigisse para a Hatf Moon Street, nmero 25.
       Minutos mais tarde, a carruagem estacionava diante de uma requintada
manso.
       Sem demonstrar a menor sombra de inquietao, ela tocou a campainha
e aguardou, batendo impacientemente a ponta de um dos ps.
       -- O que deseja? -- perguntou o criado que atendeu  porta, medindo-a
de alto a baixo com o olhar.
       -- Sir Mortimer est?
       -- Sim... Mas tenho ordens de no deixar ningum entrar.
       -- Ele me receber. Esta  uma situao muito especial.
       Dando de ombros com indiferena, o rapaz conduziu-a por um comprido
corredor acarpetado, at uma sala ampla, decorada em tons pastel e prateado.
Indicando-lhe uma cadeira de espaldar reto e braos compridos, ele perguntou:
       -- A quem devo anunciar?
       Atribuindo a nota insolente que havia na voz do criado ao fato de, na
certa, ele no guardar o menor respeito pelas mulheres que visitavam o patro,
ela ergueu a cabea com grande altivez.
       -- Srta. Ornella Stanyon.

      De compleio forte, cabelos levemente grisalhos e olhar cnico, sir
Mortimer saboreava uma dose de conhaque, enquanto observava distrado as
chamas da lareira.
        Virando-se lentamente, ao ouvir a porta ser aberta, no escondeu a
surpresa quando se deparou com a figura graciosa de Ornella. No entanto, logo
recobrou o autocontrole, levantando-se para receb-la.
        -- Perdoe-me, senhorita, mas no acredito que j nos conheamos.
        -- Sou prima de Caroline, a futura esposa do marqus le Ryde. Creio
que o senhor  amigo de Sua Senhoria.
        -- Sem dvida! Mas a que devo a honra de receber uma visita to bonita
e atraente como a senhorita?
        -- Esperava encontr-lo a ss, pois tenho algo importante para lhe
dizer...
        Juro que estou ficando intrigado. -- Sir Mortimer sorriu, acrescentando:
-- No quer sentar-se e contar-me do que se trata? Na certa, o assunto
merece toda a minha ateno. Afinal, a senhorita se exps muito, vindo me
visitar. Se isso for descoberto, as ms-lnguas rapidamente inventaro mil
suposies.
        -- No me importo com o que falem a meu respeito.
        Encarando-o com firmeza, ela declarou:
        -- Vim por causa de uma moa chamada Emma Higson, sir Mortimer!
        -- Emma Higson? Infelizmente no sei de quem se trata...
        -- Mesmo?
        -- Perdoe-me, srta. Stanyon, mas no conheo essa mulher.
        -- Provavelmente o senhor esqueceu de perguntar-lhe o nome na
ocasio. Aps desfrutar seu prazer, limitou-se a dar-lhe um guinu. Uma
compensao bastante inadequada para algum que mora em Ryde House!
        Visivelmente embaraado, ele demorou um pouco antes de refutar, num
tom nada convincente:
        -- No fao a menor idia da pessoa a quem se refere, senhorita
Stanyon. E aconselho-a a deixar os meus aposentos e voltar a Ryde House, se
 l que est hospedada. No vejo razo para discutirmos tais assuntos, que
alis no so adequados para uma dama!
        -- Prefere discuti-los com outra pessoa?
        -- Ora essa! 0 que deseja de mim? Emma Higson! Nunca ouvi falar
dessa mulher!
        -- Como no?! Ela vai dar  luz um filho seu.
        -- Nunca ouvi absurdo maior!
        Sem se dar por vencida, Ornella afirmou:
        -- Quero a soma de mil libras para tir-la de Londres. Feito isso, Emma
poder casar-se com um jovem decente, que tratar a criana como se fosse
sua.
        -- Isso  uma fortuna! Eu nunca disporia dessa quantia por causa de
uma histria absolutamente inverdica.
        -- Por favor, vamos evitar cenas. O senhor sabe que violentou essa
moa num quarto em Ryde House. Agora, deve arcar pelo menos em parte
com as conseqncias de seu ato.
        -- Se a tal moa afirma que agi assim, garanto que mente! Como pode
acreditar na acusao de um rato de esgotos qualquer?
        -- No acredito que o marqus fosse capaz de empregar um "rato de
esgotos" em sua casa. Para seu governo, Emma  filha do guarda geral de Sua
Senhoria, e  uma menina decente. Portanto, a nica maneira de impedir um
escndalo  dar-me esse dinheiro.
       -- Como pode uma mulher dessas causar algum escndalo? Acredita
que a palavra dela valeria mais do que a minha?
       --  o que veremos... Se no me der o dinheiro, sir Mortimer, irei
procurar sua esposa, e, caso ela tambm no queira me ouvir, levarei Emma
at a presena da rainha! Sua Majestade  famosa por ser uma mulher
compreensiva.
       -- Como ousa ameaar-me?
       -- Hum, que termo forte! Estou simplesmente informando-lhe o que farei
se no receber as mil libras necessrias para ajudar Emma Higson a comear
vida nova.
       --  inacreditvel!
       -- Ora, nem tanto.
       -- Como posso saber que a senhorita  quem diz ser? Qualquer uma
pode chegar aqui, inventar uma histria e tentar me extorquir dinheiro.
       -- Pacincia! O senhor ser obrigado a acreditar em mim.
       -- Que acha de chegarmos a um acordo, minha querida? Darei mil libras
a Emma Higson e mais mil para voc, em troca de fazermos amor.
       Ao v-lo aproximar-se com um sorriso cnico nos lbios, Ornella desceu
vagarosamente a mo at o regalo de peles e empunhou a pistola. Sem dizer
palavra, encarou-o firmemente e apontou a arma em sua direo.
       Dando-se conta do perigo que corria, sir Mortimer parou, paralisado,
com os olhos arregalados de susto.
       -- A senhorita est louca? Chamarei o criado e mandarei jog-la na rua,
que  o seu lugar!
       -- Faa isso e irei direto conversar com sua esposa.
       Durante alguns segundos, ele a desafiou com o olhar, mas logo baixou a
cabea, temeroso.
       -- Muito bem: ter o que pede. Sei o tipo de problemas que uma vbora
como a senhorita pode causar. E, embora eu duvide que minha mulher fosse
acreditar, prefiro viver calmamente. Como quer receb-lo?
       -- Se possvel, em dinheiro.
       -- Disponho de apenas duzentas libras, que ganhei no jogo ontem 
noite. Quanto ao restante, farei um cheque.
       -- Claro. Mas, por favor, no o faa em meu nome.
       Murmurando blasfmias, ele abriu uma das gavetas da escrivaninha,
pegando um talo de cheques. Preencheu um cheque e entregou-o a Ornella.
       Aps conferir tudo, Ornella levantou-se, prevenindo-o:
       -- Caso pense em sustar o cheque, lembre-se de que minha ameaa de
contar tudo a sua esposa continua de p, sir Mortimer.
       -- J conseguiu o que queria, senhorita. Agora, quer tratar de ir dando o
fora?
       -- Com todo o prazer. Antes, porm, quero avis-lo de que, se no
fosse pela minha interveno, essa criana nasceria num hospital pblico, sem
nome. Talvez at acabasse num rio junto com a me.
       Sem lhe dar chance de retrucar, Ornella saiu, batendo a porta atrs de
si. Desceu a escada devagar, suspirando aliviada ao se ver de novo na rua.
       Subiu rapidamente na carruagem e ordenou ao cocheiro que voltasse a
Ryde House.
        Imersa em seus pensamentos, nem suspeitou que estava sendo seguida
durante todo o percurso at Park Lane.
        Minutos mais tarde, rezando para que ningum a surpreendesse,
Ornella foi recolocar a pistola em seu respectivo lugar. Acabava de descarreg-
la quando a porta se abriu com um rudo.
        Seu corao deu um salto, e ela empalideceu de imediato.
        Nunca vira o marqus to enfurecido como naquele momento.
        Com os lbios cerrados num ricto de dio, ele se aproximou dela, com
os olhos faiscando de raiva.
        -- O que estava fazendo no apartamento de Wrotham? -- perguntou,
com a voz alterada.
        Atnita, Ornella arregalou os olhos, incapaz de responder.
        -- Pensei que estava sonhando quando a vi sair de l. No pude
acreditar nos meus olhos... Por que foi visit-lo? Que tipo de atrativo Mortimer
ofereceu para lev-la aos seus aposentos em plena luz do dia, quando poderia
ser vista?
        Com as pernas trmulas, Ornella sentiu que o cho lhe fugia dos ps.
Buscou apoio num mvel para no desmaiar. Entretanto, a voz no lhe saa.
        -- Responda: o que Wrotham significa para voc? Aquele devasso! Est
apaixonada por ele? Oh, meu Deus, pensei que voc fosse diferente, e teria
apostado minha vida como no se deixaria iludir com esse tipo de homens!
Mas vejo que me enganei...
        Passando a mo pelos cabelos, num gesto que demonstrava desalento,
continuou:
        -- O que pretende, envolvendo-se com um homem casado?
        Num impulso, Darius segurou-a pelos ombros e comeou a sacudi-la
com violncia.
        -- Responda, miservel! Diga a verdade! O que aconteceu em segredo
com aquele homem?
        Com os olhos cheios de lgrimas e no limite do desespero, Ornella no
encontrou foras para impedir que o regalo caisse no cho, espalhando as
notas e a pistola ao redor.
        Boquiaberto, Darius soltou-a e recuou um passo, horrorizado. Observou
o dinheiro que jazia aos seus ps e sacudiu a cabea, com incredulidade.
        Em seguida, enterrou o rosto entre as mos, murmurando algo
ininteligvel. Quando voltou a encar-la, sua expresso era a de um homem
derrotado.
        -- Ento foi assim que conseguiu seu... dinheiro...


                                CAPTULO VI


       Dominada por uma indignao crescente, Ornella sacudiu a cabea, mal
acreditando nas insinuaes maldosas do marqus.
       Olhou para as notas espalhadas no cho, depois encarou Darius.
       -- Como ousa pensar uma coisa dessas de mim?
       Antes de responder, ele a fitou de cima a baixo, com evidente desprezo.
       -- E o que esperava que eu imaginasse?
       -- Garanto que nada, milorde. Alis, como eu poderia esperar algo do
senhor?
        -- Ah, sim! Agora, eu virei o bandido. .. -- Ele bateu as mos nas
pernas, com impacincia. -- Oua, Ornella, independente de sua opinio sobre
mim, exijo que me conte toda a verdade. Fao questo de saber o que houve
entre voc e Wrotham.
        Assustada com o tom ameaador da voz dele, ela recuou um passo.
Depois, erguendo a cabea com altivez, tomou uma deciso.
        -- Pois bem, vou lhe dizer o que deseja saber.
        -- timo... Sou todo ouvidos -- zombou ele, de modo irnico.
        -- Fui visitar seu amigo, porque ele violentou uma moa aqui nesta
casa. Hoje ela est grvida.
        Cego de raiva, ele avanou em sua direo, mas no fez nada alm de
esbravejar.
        -- E que diabos voc tem a ver com isso? Mesmo que seja verdade,
minha governanta recebe para resolver esse tipo de assunto!
        -- Ora, no banque o ingnuo, milorde. O que pensa que ela faria? Iria
se limitar a pr a pobre moa no olho da rua, ou a mand-la de volta para a
casa de seus pais, onde todos a discriminariam!
        -- E o que mais poderia ser feito?
        -- A jovem de quem falo j tinha a soluo -- respondeu Ornella, com
ironia. -- Estava pronta para atirar-se no rio e destruir o filho bastardo de seu
amigol
        -- Pelo amor de Deus, pare de repetir esse seu amigo. Fala como se eu
tivesse culpa do comportamento de Wrotham!
        -- De certo modo, tem, uma vez que o aceitou.  impossvel nos
mantermos  margem de qualquer assunto. Quando nos negamos a tomar
posio, j estamos nos posicionando, milorde.
        -- Talvez esteja certa. Lamento que uma coisa to desagradvel tenha
se desenrolado em minha casa. Mas a moa poderia tomar mais cuidado.
        -- Acredita nisso? Acredita realmente que uma jovem do campo, pouco
mais do que uma criana, conseguiria defender-se de um homem experiente
como sir Mortimer?
        Ornella fez uma pausa para medir o efeito de suas palavras e depois
acrescentou:
        -- Posso assegurar que a nica maneira de se defender dele 
armando-se. Como, alis, tomei o cuidado de fazer, antes de procur-lo.
        -- Est insinuando que ele fez propostas a voc?
        -- Mas  bvio que sim!
        -- Maldito! Juro que o matarei por tamanho atrevimento!
        -- Ora, ora! O senhor se aborreceu porque ele me abordou, mas no se
importou com o fato de ele ter estuprado uma menina que tambm estava sob
a sua proteo, mesmo que de forma indireta. S posso pensar que seu cdigo
 muito semelhante ao de sir Mortimer!
        -- No admito que repita tamanha barbaridade, Ornella. Saiba que
jamais tomei uma mulher sem o seu consentimento, e nunca me aproveitei da
ingenuidade das criadas.
        -- timo! S espero que tenha a decncia de, no futuro, de excluir o
nome de sir Mortimer de sua lista de convidados.  uma irresponsabilidade
deix-Io em contato com moas decentes, seja qual for a classe a que perten-
am.
        -- Quanto a isso, pode ficar tranqila! Mortimer no voltar a colocar os
ps em nenhuma das minhas propriedades. No entanto, ainda sou da opinio
de que voc no devia ter se metido nessa histria. Tais assuntos devem ser
tratados por pessoas experientes.
        -- E quais seriam essas pessoas? Empregados graduados que acabam
fazendo as vezes de censores implacveis de sua prpria classe?
        Como Darius no respondesse, Ornella provocou-o:
        -- Na sua opinio, as damas de posio deveriam manter-se afastadas
desses incidentes... de mau gosto, no , milorde?
        -- Exatamente!
        -- Pois  bom que saiba que no sou uma dama de posio, e acredito
que j est na hora de as mulheres, independentemente do lugar que ocupam
na sociedade, comearem a ver a realidade que as cerca.
        -- Mas existe gente especialmente designada para resolver cada tipo de
problema.
        -- Ah, claro! E, por deixar nossos destinos nas mos dessas pessoas,
veja s o caos a que estamos chegando. Francamente!
        -- Fala como se todos tivessem culpa das injustias.
        -- Por acaso no  assim? Ora, os nobres s se envolvem nessas
questes quando se sentem entediados e precisam de um passatempo...
        -- Ornella...
        -- No me interrompa, por favor. Sabe que estou dizendo a verdade. A
nobreza torce o nariz e finge que no v as casas de prostituio que se
multiplicam dia aps dia.
        -- E o que voc sabe a respeito desse assunto?
        -- O suficiente para me compadecer do drama dessas mulheres.
Inclusive, sei de uma casa suspeita que fica a menos de cinco minutos daqui.
Ademais, qualquer pessoa que no seja cega, ao se dirigir a Carlton House,
pode ver as prostitutas esperando clientes nas sombras do Piccadilly.
        -- Ornella, voc no deve falar de tais coisas!
        -- Ento o que devo fazer? Fechar os olhos? Fingir que no vejo essas
pobres criaturas, s vezes com pouco mais de doze anos, esperando que um
cavalheiro bbado aceite seus convites? Devo esquecer que h quatrocentos
habitantes na Casa de Correo, em Saint Giles, aprendendo a ser
delinquentes desde cedo, os meninos, roubando, e as meninas, prostituindo-
se, porque no existe outro emprego para eles?
        -- Quem lhe contou isso?
        -- No subestime minha capacidade de raciocnio, milorde. Qualquer
criatura que leia os jornais e acompanhe os debates do Parlamento sabe os
horrores que acontecem em outras partes do pas. No sou o tipo de mulher
que se deixe cegar pelo brilho das jias e a falsa alegria das festas, ficando
insensvel  misria alheia.
        Molhando os lbios com a ponta da lngua, Ornella prosseguiu:
        -- Como posso tomar champanhe em paz, se centenas de mulheres,
com o busto nu, so obrigadas a empurrar pesados carrinhos de carvo
atravs do ar ptrido das minas? J parou para pensar no destino das crianas
de cinco, seis anos que trabalham nos moinhos durante catorze horas
seguidas, sendo espancadas para no adormecer? Oh, meu Deus, e se isso
no bastasse, ainda h aquelas que trabalham como limpa-chamins. Sou
capaz de ouvir seus gritos, quando o fogo sob os ps as obriga a subirem pelas
suas chamins.
       Percebendo que sua voz soava trmula, Ornella virou-se a fim de
impedir que Darius visse as lgrimas que afloravam a seus olhos. Sua
respirao estava ofegante, fazendo com que seus seios arfassem sob a l
macia do casaco.
       Com grande altivez, ela rumou at a janela e ps-se a admirar os jardins
bem cuidados. Num gesto mecnico, desamarrou o chapu e deixou-o cair no
cho, permitindo que os cabelos se espalhassem como uma cascata em suas
costas.
       Os ltimos raios de sol se refletiam em seu corpo, fazendo com que sua
delicada silhueta, recortada contra a janela, parecesse a imagem de uma
deusa.
       Pensamentos confusos a assaltavam, provocando-lhe uma deprimente
sensao de vazio e solido. De repente, o futuro lhe parecia ameaador, pois
perdera seu nico ponto de apoio naquele mundo hostil e cheio de intrigas.
       -- Perdoe-me, Ornella -- murmurou Darius, com humildade.
       O som musical daquela voz grave a fez estremecer da cabea aos ps,
e foi com um esforo sobre-humano que ela conseguiu resistir  tentao de
desculp-lo.
       -- No posso... esquecer seu juzo sobre mim... -- Plida, voltou-se
lentamente e recolheu as notas que haviam se espalhado.
       Feito isso, apanhou o regalo de pele e o chapu, rumando a seguir para
a escada.
       Perturbado, Darius tentou interceptar-lhe o caminho, suplicando:
       -- Ornella, deixe-me ajud-la nessa questo.
       -- No preciso de sua ajuda, milorde. No... no confio mais no senhor.
       -- Se pretendia ferir-me com essa declarao, conseguiu -- murmurou
ele, com amargura.
       Por um momento, Ornella hesitou. Porm, o orgulho falou mais alto.
       -- No h mais nada a dizer, milorde.
       Chocado, Darius permaneceu em silncio, observando o vulto delicado
que subia os degraus sem se voltar uma nica vez.

       Chegando ao quarto, Ornella no perdeu um segundo. Tocou a
campainha, chamando Emma, e, de modo resumido, colocou-a a par de tudo o
que havia acontecido, omitindo apenas sua discusso com o marqus, pois
no queria aumentar as preocupaes da pobre moa.
       -- Como posso agradecer-lhe, senhorita? No pensei que ainda
houvesse tanta bondade no mundo.
       -- Agradea procurando Jim o mais cedo possvel. Sugiro que diga 
sra. Mayhem e aos outros empregados que Jim recebeu uma proposta para
comprar uma cavalaria no norte, e vocs precisam mudar-se imediatamente.
       -- Sem estarmos casados ainda?
       -- Ora, invente uma desculpa qualquer. Vocs podem alegar que
preferem se casar na casa do irmo dele. No creio que algum v recrimin-
los por isso.
       Dito isso, entregou a Emma as notas que trazia no regalo.
       -- Aqui esto duzentas libras. Arranjarei a transferncia do restante
assim que Jim abrir uma conta no nome de vocs.
       -- Oh, senhorita!  a coisa mais maravilhosa que poderia me acontecer.
       -- Ento, enxugue essas lgrimas, seno vo pensar que voc est indo
para um funeral, e no para o seu casamento. Deixarei o dinheiro escondido na
gaveta desta arca. Acho mais prudente voc no guard-lo em seu quarto.
       -- Tem razo! L as outras empregadas poderiam ver, e seria
embaraoso.
       -- Bem, agora ajude-me a tomar banho e mudar de roupa. Se eu me
atrasar para o jantar em Carlton House, a duquesa ficar uma fera.
       Apesar de sentir-se exausta e sem a menor disposio p
       ara ir quela festa, Ornella percebeu que no seria prudente arranjar
uma desculpa qualquer e ficar no palcio.
       Sabia que o marqus jamais comentaria o incidente da tarde com
algum. No entanto, se ela alegasse cansao, a duquesa ou mesmo Caroline
poderiam investigar, e fatalmente descobririam sua sada, o que jogaria por
terra seus esforos para auxiliar Emma.
       Vencendo o desnimo, Ornella vestiu o elegante traje de gaze branca
entremeada com fios de prata e pequenas imitaes de safira. Penteou os
cabelos com esmero e prendeu-os com um sofisticado arranjo de ouro e bri-
lhantes, que combinavam  perfeio com os graciosos pingentes de seus
brincos.
       Para disfarar o abatimento, aplicou uma leve camada de ruge e um
pouco de batom rosa bem claro.
       Apesar disso, suas feies continuavam tensas, denunciando a angstia
que lhe invadia a alma.
       Sem dvida, a discusso com Darius, bem mais do que um mero
incidente desagradvel, tivera o poder de deix-la profundamente deprimida,
com uma inexplicvel sensao de vazio.
       Ornella acabava de calar as luvas quando uma suave batida  porta
arrancou-a de suas divagaes.
       Usando um provocante modelo vermelho, Caroline entrou no quarto,
exibindo uma verdadeira profuso de jias.
       -- Voc est linda, Ornella! -- elogiou, enquanto dava uma pequena
volta pelo aposento, a fim de mostrar sua roupa nova.
       -- E voc vai despedaar coraes, Caroline.
       -- Acha mesmo?
       -- Claro! Nunca a vi to deslumbrante.
       -- Voc  um amor, Ornella... Bem, que acha de descermos? Darius
odeia chegar atrasado onde quer que seja.
       Ignorando a apreenso que a simples meno ao nome do marqus lhe
causava, Ornella forou um sorriso e acompanhou a prima escada abaixo.
       No hall, o marqus as aguardava ao lado da av, que, como sempre,
fitou-as de modo reprovador.
       -- Ora, finalmente! Pensei que haviam desmaiado -- resmungou a
duquesa.
       -- S espero que tenha valido a pena esperar... -- provocou Caroline,
estendendo a mo para que o noivo a beijasse.
       -- Sugiro que, para no amassar os vestidos elegantes que vocs usam
esta noite,  melhor seguirmos para Carlton House em duas carruagens.
Caroline ir comigo, e a senhora levar Ornella, vov!
       --  uma boa idia, Darius. Vocs dois podem sair, que Ornella e eu
iremos logo atrs.
       -- Perfeito! Ns as esperaremos no hall, caso se atrasem.
       Dito isso, ofereceu o brao a Caroline e retirou-se. Usava uma casaca
de corte perfeito e seu peito estava coberto de condecoraes, que brilhavam 
luz das velas, fazendo-o parecer mais sedutor do que nunca. As calas de
cetim branco, muito justas, moldavam-lhe as pernas musculosas e
combinavam  perfeio com as brilhantes botas negras de cano longo.
       Desviando o olhar para afastar aquela viso perturbadora, Ornella sentiu
a mgoa renascer em seu peito com fora redobrada. Humilhada, no
conseguia acreditar que ele fora capaz de julg-la de modo to errneo.
       Minutos mais tarde, enquanto a carruagem deslizava suavemente pelas
ruas escuras, ela se sobressaltou quando a voz dura da duquesa obrigou-a a
deixar de lado suas reflexes.
       -- Desculpe-me, milady... Estava to distrada que no compreendi o
que disse...
       -- Eu disse que, como voc  muito especial, espero que encontre um
par  altura em Carlton House.
       Decidida a no aceitar a provocao, Ornella manteve-se em silncio.
       -- A bem da verdade, acho que nenhum cavalheiro ingls de bom senso
se entusiasmar com essas suas idias romnticas, mas algumas mulheres
nasceram para ficar solteironas mesmo.
       Dando de ombros, Ornella decidiu nem retrucar. Afinal, de que
adiantaria que o fizesse?
       Alm do mais, era at provvel que a velha dama tivesse razo, e ela
fosse somente uma garotinha ingnua e pretensiosa, para a qual nenhum tipo
de homem serviria, pois ainda se iludia com a imagem ideal do prncipe
encantado.
       Entretanto, no daria o brao a torcer diante da duquesa por nada, e
assumiu uma pose orgulhosa ao ultrapassarem os portais iluminados de
Carlton House.
       Superando todas as suas expectativas, o luxo e a sofisticao do lugar
deixaram-na boquiaberta, com sua ornamentao riqussima.
       No chamado salo chins, um espaoso cmodo pintado de amarelo
com teto abobadado e colunas de granito vermelho, uma profuso de pinturas,
esculturas, porcelanas e inumerveis objetos raros colecionados pelo regente
bastavam para deixar qualquer mortal simplesmente extasiado.
       Ornella, porm, no se entusiasmou com nada, e sentia vontade de
correr para um canto e chorar at a exausto.
       Apesar disso, fez um esforo enorme para manter uma conversa com os
dois cavalheiros sentados  sua frente  mesa de jantar. Discutiram sobre
diversos assuntos, e eles no pouparam alguns comentrios maliciosos sobre
o crescente endividamento do regente, que se mostrava cada dia mais
desinteressado da administrao do pas.
       Embora isso no constitusse nenhuma novidade para Ornella, que tinha
o hbito de informar-se pelos jornais, sua antipatia em relao aos poderosos
chegou ao ponto de ela mal conseguir fingir delicadeza quando foi apresentada
ao regente.
       Muito animado, ele teceu alguns elogios exagerados  beleza de
Caroline e brincou com Darius, afirmando que fazia questo de ser o padrinho
de seu casamento.
       Em seguida, lanou um olhar de aberta admirao a Ornella, que lhe foi
apresentada.
       Encabulada, ela fez uma ligeira reverncia.
       -- Encantadora! Encantadora! -- murmurou o prncipe, beijando-lhe as
mos.
       Nesse momento, lady Hertford apareceu e monopolizou a ateno do
prncipe. Muito descontrada, tomou-o pelo brao e conduziu-o para fora do
salo, murmurando confidncias em seus ouvidos e rindo de maneira afetada.
       Dos duzentos convidados, apenas setenta felizardos haviam participado
do jantar.
       Agora, todos j tinham chegado e dividiam-se em vrios grupos. Alguns
danavam no salo de baile, outros passeavam pelos jardins e uns poucos
espalhavam-se pelas demais salas do palcio.
       Ornella preferiu a ltima opo e vagou pelos inmeros ambientes,
tentando interessar-se pelo que via. Sentia-se exausta, e o ar abafado
aumentava sua indisposio.
       Para piorar, irritava-se profundamente com os trechos de conversa que
acidentalmente escutava. Ser que aquelas pessoas no tinham nada melhor a
fazer, alm de falar sobre a vida dos outros?
       Afastando-se cada vez mais do centro da festa, Ornella deteve-se numa
sala mais discreta, decorada com sobriedade, onde apenas uns poucos
senhores conversavam.
       Com um suspiro de alvio, notou que ningum se importava com sua
presena e resolveu ficar um pouco ali.
       Ocupava-se em examinar um quadro, quando teve a sbita impresso
de que estava sendo vigiada. Virou-se lentamente e quase desmaiou ao
encontrar o olhar de lorde Rotherton, o homem que a pedira em casamento!
       Arrependida por ter procurado se isolar, fez meno de fugir.
       No entanto, ele foi mais gil e interceptou-lhe o caminho, pousando a
mo em seu brao.
       -- Preciso falar com a senhorita.
       -- No h nada a ser dito, milorde.
       -- Acho que se engana.
       Ela o encarou de modo desafiador.
       -- A senhorita foi muito esperta, mas no pretendo ser descartado
dessa maneira!
       -- No sei a que se refere.
       -- Pare de se fazer de tola e convena-se de que no vou desistir
assim facilmente! Sempre consigo o que quero!
       Apesar de assustada, Ornella deixou o orgulho ser mais forte e retrucou
com firmeza:
       -- Engana-se, milorde. Quis avis-lo pessoalmente sobre minha deciso
de recusar seu pedido de casamento, mas impediram-me de encontr-lo a ss.
Por isso, pedi ao marqus que falasse por mim.
       -- Ah, no diga! E da? Isso no muda meu desejo de torn-la minha
esposa.
       -- Acredite, milorde, que nada me far mudar de deciso.
       -- No seu lugar, eu no ficaria to seguro. Como j a preveni, sou o tipo
de homem que no desiste facilmente.
       -- Pois considero isso muito pretensioso de sua parte.
       -- Eu quero voc, Ornella. Desejo-a at a loucura, e juro que vai se
casar comigo, ou, se preferir, ser minha amante. No importa! O fato  que,
mais cedo ou mais tarde, vou t-la em meus braos, sem lhe deixar sada!
        Assustada com a determinao quase doentia que havia na voz dele,
Ornella olhou ao redor em busca de ajuda.
        Por sorte, a duquesa se aproximava, e ele a soltou, sem deixar de fit-la.
        Assim que se viu livre, Ornella demorou alguns segundos para recuperar
o controle das prprias aes.
        Quando o fez, correu para a outra extremidade da sala onde parou para
recuperar o equilbrio.
        Pouco depois, quase refeita do susto, deixou o salo com aparente
naturalidade. Ao chegar  porta, porm, voltou-se e surpreendeu-se ao
constatar que o conde e a duquesa conversavam em voz baixa, como se
trocassem confidncias.
        Pressentindo que algo terrvel a aguardava, Ornella cedeu ao impulso de
buscar ajuda e seguiu as ordens de seu corao.
        Esbarrando em vrios convidados, desceu a escada em direo ao
andar trreo.
        Fora uma tola ao subestimar a ameaa que lorde Rotherton
representava.
        Sem dvida, sua recusa s servira para inflam-lo, e agora ele estava
determinado a possu-la a qualquer preo.
        Desesperada, Ornella ponderou que no podia pedir para voltar a Park
Lane quela hora, quando a festa mal tinha comeado. Na certa, o regente se
sentiria ofendido, e ela atrairia para si a antipatia de toda a alta-roda, que
considerava o mximo de honra participar de uma recepo em Carlton House.
        Ao mesmo tempo, no sentia a menor vontade de permanecer ali,
correndo o risco de tornar a encontrar-se com o conde, que, por sua vez, no
perderia a chance de abord-la.
        Sem se dar conta, ela atravessou o salo de baile e saiu para o terrao.
        Inmeras lanternas iluminavam o jardim, e, aproveitando a sombra das
rvores, vrios casais de namorados trocavam beijos furtivos, longe de olhares
curiosos.
        A um canto mais afastado, recostado  amurada de um lago artificial,
Ornella avistou um vulto familiar. Seguindo um apelo mudo, correu para junto
dele. Naquele momento, o marqus representava sua nica esperana de
alvio e segurana. At mesmo a mgoa e as lembranas da desagradvel
discusso perdiam a importncia diante da forte emoo que ele despertava
em seu ntimo.
        Sem se virar, ele olhou para o cu e perguntou, calmamente:
        -- Quem a assustou?
        Surpresa, Ornella se indagou como o marqus havia percebido que ela
estava amedrontada. Sem encontrar resposta, postou-se ao lado dele na
amurada, com a respirao mais calma e pausada.
        De repente, o terror que lorde Rotherton havia lhe provocado
desaparecera, e sua confiana voltava.
        -- Agora... estou bem, milorde.
        Ao ouvir sua voz quase sussurrada, ele voltou a cabea para olh-la.
        -- No  do seu feitio sentir medo.
        -- No pude... evitar.
        -- At onde posso saber, voc  muito corajosa.
        -- Nem sempre.
        Depois de uma pausa, ele disse gentilmente:
        -- Posso ser perdoado, ou deverei pedir de joelhos? Quero o seu
perdo, Ornella. Preciso dele desesperadamente!
        Incapaz de encar-lo, ela teve a sensao de que uma emoo
desconhecida a dominava, fazendo com que tudo ao redor desaparecesse...
menos a figura alta e atraente do marqus!
        -- Quer que eu lhe conte no que pensava enquanto voc vinha para c,
Ornella?
        -- Sim... quero.
        -- Eu me perguntava que jias ficariam bem em voc. S ento descobri
que no havia nenhum adorno  sua altura... A desejei ser um deus para
poder capturar um raio da lua e transform-lo numa tiara para seus cabelos.
        Sensibilizada pela ternura que havia em sua voz, ela levantou
timidamente o olhar.
        -- Esta noite voc parece o luar, Ornella. E quem conseguiria descrever
com palavras uma viso to linda?
        De repente ela descobriu o nome do estranho sentimento que a simples
proximidade do marqus lhe inspirava: amor!
        Amava aquele homem desde o primeiro instante em que o vira, naquela
noite longnqua em Morden... Mas esse amor era impossvel!


                                CAPTULO Vil


       Nos instantes que se seguiram  declarao do marqus, Ornella no
cabia em si de contente.
       Como num milagre, os temores haviam desaparecido, deixando no lugar
uma incrvel sensao de paz e segurana, como sempre acontecia quando
estava prxima daquele homem intrigante e ao mesmo tempo envolvente,
sedutor.
       Agora compreendia a razo de nunca procurar outra pessoa, alm de
Darius, ao se ver em apuros: amava aquele homem! Ele era tudo o que ela
desejara encontrar numa pessoa.
       Porm, ele estava irremediavelmente comprometido com Caroline, e,
mesmo que quisesse, no poderia corresponder aos seus sentimentos...
       Mas o que ela poderia fazer? Se, por um lado, seria incapaz de trair a
confiana da prima, por outro, desejava ardentemente ficar perto do marqus,
toc-lo, acarici-lo ...
       No! No tinha esse direito. Antes de morrer, o tio a fizera prometer que
velaria por Caroline, e era nisso que precisava se concentrar.
       Assim, por mais que lhe custasse ocultar seu amor, ia mant-lo no fundo
do corao e jamais o revelaria a algum. Pelo prprio bem do marqus, lutaria
para que o casamento dele com Caroline desse certo e se transformasse numa
eterna fonte de felicidade para as duas pessoas que mais amava no mundo.
       Imersa nesses pensamentos, recostou-se  amurada, observando as
guas plcidas do lago, que refletiam a luz plida da lua.
       O som da msica chegava diludo at ali, misturando-se ao barulho de
risadas e conversas, e de vez em quando uma brisa fresca soprava,
balanando de leve seu vestido.
        -- E ento, Ornella? Voc ainda no respondeu  minha pergunta.
        De volta  realidade, ela se perguntou quanto tempo permanecera ali,
imvel, divagando. No sabia dizer se apenas uns poucos minutos ou horas.
No entanto, as transformaes que haviam se passado em seu ntimo tinham
sido imensas. E ela lamentava que em algumas ocasies o amor pedisse
sacrifcios to grandes.
        -- Oh, desculpe-me... Eu estava distrada. O que foi mesmo que me
perguntou?
        -- Perguntei se podia me perdoar. Agora sei que minha atitude foi
absurdamente infantil e tola. S posso lhe pedir que acredite em mim outra vez.
        Lembrando-se de que tambm o ofendera, Ornella corou,
envergonhada.
        -- Por favor, esquea as tolices que eu disse hoje  tarde. Fiquei
magoada com sua desconfiana e perdi o controle... Eu confio no senhor. ..
Confio muito!
        -- Obrigado, Ornella. S posso agradecer a Deus que voc tenha me
perdoado. Mas antes quero que me faa uma promessa...
        -- Qual?
        -- Que nunca mais se expor dessa maneira. Se estiver em
dificuldades, venha a mim pedir ajuda. Por mais, difcil que seja, prometo que
no abusarei de sua confiana e tentarei ajud-la, mesmo que no concorde
com seu ponto de vista.
        Para disfarar o embarao, Ornella sorriu, antes de observar:
        -- Isso  muito generoso de sua parte, milorde, sobretudo porque tenho
o pressentimento de que vai desaprovar muitas das coisas que vou fazer.
        -- D-me a chance de provar que sua confiana no ser intil.  muito
importante para mim, Ornella.
        -- Est bem, eu prometo.
        -- E, por favor, seja sincera comigo e no minta nunca. Acho que eu
no suportaria uma atitude desleal de sua parte.
        -- Mas eu sempre digo a verdade.
        -- Eu sei, e isso  uma das coisas que mais aprecio em voc. Poucas
pessoas so verdadeiras. Voc me promete?
        -- Claro! Fique tranqilo, pois eu jamais trairia sua confiana.
        O marqus fez meno de dizer alguma coisa, porm desistiu, com uma
careta de desagrado. Acompanhando-lhe o olhar, Ornella avistou a prima, que
se aproximava de braos dados com um homem.
        -- Finalmente, Darius! Eu j estava me perguntando onde voc poderia
ter-se escondido. Sua Excelncia e eu nos cansamos de procur-lo!
        Pelo tom de voz de Caroline, Ornella percebeu que mentia. Embora
ningum que no a conhecesse bem desconfiasse que aqueles seus trejeitos
para aparentar despreocupao e naturalidade fossem uma mscara, Ornella
no se deixou enganar.
        Era evidente que Caroline estivera fazendo das suas.
        O rapaz que a acompanhava tinha o tipo fsico que ela considerava
ideal, e ambos traziam os sapatos empoeirados, uma prova cabal de que
haviam andado bastante pelos jardins.
        Na certa, a exemplo de tantos outros casais enamorados, os dois tinham
resolvido aproveitar o isolamento e a paz da noite para desfrutarem de alguns
instantes de romantismo, trocando beijos, carcias e palavras apaixonadas em
algum canto escuro.
       -- Excelncia, quero lhe apresentar minha prima, a srta. Ornella
Stanyon. Ornella, este  o conde Adelco di Savelli, o embaixador italiano. Creio
que o senhor e meu noivo j se conhecem.
       -- De fato. Como tem passado, milorde?
       -- Bem, obrigado, Excelncia.
       Com desenvoltura, Caroline aproximou-se do noivo, segurando-o pelo
brao.
       -- Oh, Darius, por que saiu do salo?
       -- L dentro estava muito quente.
       -- Tem razo! E o que voc e Ornella conversavam?
       -- Nada em especial... -- Depois de alguma hesitao, o marqus
completou: -- Tentvamos resolver uma antiga discusso sobre... problemas
sociais.
       -- Hum, que coisa mais chata! Hoje  dia de festa, devemos deixar as
preocupaes de lado. Por falar nisso, Sua Excelncia est ansioso para
danar com voc, Ornella.
       Intrigada pelo tom enigmtico de Caroline, Ornella imaginou que
houvesse alguma razo oculta por trs daquele convite, e pensou em recusar.
       Entretanto, o embaixador antecipou-se, deixando-a numa situao
delicada.
       -- Creio que j descansou, srta. Stanyon, e no me privar do prazer de
uma dana.
       Para piorar, Caroline interveio, obrigando-a a aceitar.
       -- Vo, meus amores, e divirtam-se. Darius e eu ficaremos observando
vocs l do tablado.
       Falando sem parar, Caroline conduziu-os de volta ao salo de baile,
muito iluminado.
       Ento, aps uma reverncia, Adelco tomou o brao de Ornella, levando-
a para o centro da pista de danas.
       Era um homem extremamente atraente, de talhe esbelto, cabelos
escuros e eloqentes olhos negros.
       Enquanto o observava, Ornella concluiu que ele parecia muito jovem
para ocupar um posto de tanta importncia.
       -- Quero lhe pedir um favor, srta. Stanyon.
       Com um tremor, ela disse a si mesma que suas suspeitas logo iriam se
confirmar.
       -- O que ?
       -- Caroline e eu precisamos de sua ajuda.
       -- Como assim?
       -- Dependemos da senhorita, por isso ela forou-a a danar comigo.
       -- Certo... Mas o que deseja?
       -- Sua prima garantiu que posso confiar na senhorita... Diga-me, ficaria
muito surpresa se soubesse que me apaixonei por ela?
       -- Sua Excelncia deve saber que Caroline est noiva do marqus de
Ryde!
       -- Sim, eu sei, mas no meu pas os casamentos so arranjados pelas
famlias, que levam em conta coisas como posio social, dote e situao
respeitvel... Nada do que os franceses chamam de affaire de coeur.
        -- Isso  bastante diferente na Inglaterra...
        -- Quer me convencer de que sua prima est loucamente apaixonada
pelo noivo?
        -- Penso, Excelncia, que isso  assunto deles!
        Surpreendentemente, o embaixador deu uma risada divertida.
        -- Asseguro, srta. Stanyon, que conto com a permisso de Caroline
para pedir seu auxlio. Ela me disse que vocs so muito amigas.
        -- De fato! Afinal, fomos criadas juntas.
        -- Ento ajude-me a faz-la feliz!
        -- Mas o que posso fazer, uma vez que no aprovo esse tipo de
comportamento?
        -- To jovem e to severa! Tenho a impresso de que, no fundo, a
senhorita  mais simptica do que tenta parecer. Acreditaria se eu afirmasse
que me apaixonei desde o primeiro instante em que vi Caroline?
        -- O problema  que ela pertence a outro, Excelncia!
        -- Ainda no...
        -- Quer dizer que pretende casar-se com Caroline?
        Ele deu um suspiro e balanou a cabea negativamente.
        -- Infelizmente isso no ser possvel. Meu casamento foi arranjado h
anos. Minha noiva  uma moa bonita e gentil, cuja posio social tem um peso
fundamental para minha carreira.
        -- Entendo... E como acha que ela se sentiria caso descobrisse que o
noivo se apaixonou por outra mulher?
        -- Ginetta ainda est numa escola-convento. Dentro de dois anos,
quando ela for apresentada  sociedade, nosso noivado ser anunciado.
        -- Independente disso, quero lhe pedir que no induza Caroline a
cometer alguma tolice da qual se arrepender no futuro!
        -- Eu jamais desejaria magoar a bela Caroline. Estou consciente de que
qualquer escndalo seria desagradvel e talvez perigoso.  exatamente por
isso que recorremos  sua ajuda!
        -- Ah, no! No devem... Fatalmente, o caso de vocs se tornaria alvo
de mexericos e falatrios.
        -- J pensamos a respeito disso, e decidimos implorar por seu auxlio...
S queremos que finja que sou um pretendente seu!
        No primeiro instante, Ornella hesitou, desconfiada de que no entendera
direito o que lhe pediam. Mas logo suas dvidas se dissiparam, deixando no
lugar uma grande indignao.
        Respirando fundo, fitou-o nos olhos e protestou de modo rspido:
        -- Jamais farei uma coisa dessas! Como ousa sugerir tamanho
disparate? Se eu concordar, estarei encorajando Caroline a entrar nessa
loucura, que s pode prejudicar a ambos.
        -- Basta que tomemos os cuidados necessrios, e ningum suspeitar
de nada. Sei disso por experincia prpria.
        -- Nisso eu acredito! Oua bem, no s no pretendo me envolver
nessa trama, como farei tudo para impedir Caroline de agir de modo to
absurdo.
        -- Est bem! Admiro sua sinceridade, srta. Stanyon, embora eu ainda
ache que sua prima se exponha a insinuaes maldosas.
        -- De modo algum!
        -- Talvez Caroline consiga persuadi-la...
       -- Por favor, Excelncia, no faa isso! Alm de errado, pode trazer
conseqncias desastrosas. Afaste-se de Caroline!
       -- Vocs duas so to bonitas, que s um cego ficaria indiferente...
Lamento, mas no posso renunciar a minha felicidade, nem  de Caroline...
Portanto, jamais concordarei com seu pedido, e prefiro esperar que a sorte
sorria para ns.
       Enquanto falava, ele ergueu-lhe a mo, levando-a aos lbios. Este gesto
jamais seria feito por um ingls com uma moa solteira no meio do salo, e
Ornella corou violentamente, sentindo que todos os observavam.
       -- A senhorita  encantadora -- declarou Adelco em voz alta, assim que
a msica terminou.
       Percebendo que a inteno dele fora justamente ser ouvido pelos
demais convidados, ela o fuzilou com o olhar.
       Durante o resto da noite, Ornella danou com vrios jovens de cujos
nomes mal se lembrava. O embaixador procurou-a uma segunda vez,
convidando-a para uma valsa camponesa. Ela aceitou, e, para seu alvio, no
houve chance de conversarem.
       De volta a Ryde House, Ornella no perdeu tempo, indo direto para o
quarto.
       Estava preocupada com o estouvamento da prima e tinha a conscincia
pesada por causa de seu amor pelo marqus.
       Ansiosa por deitar-se, na esperana de refletir melhor sobre tudo aquilo,
vestiu uma camisola, tranou os cabelos e ia entrar na cama, quando a porta
se abriu, revelando a figura de Caroline.
       -- Ol, querida! Ele no  divino? O que voc acha dele?
       -- Se voc se refere ao embaixador, devo dizer que considero o
comportamento dele incompatvel com o de um homem dessa posio.
       -- Bobagem! Imaginei que voc fosse se chocar, Ornella, mas preciso
que me ajude! No posso fazer nada sem seu auxlio e quero tornar a v-lo,
entende?
       -- Como pode ser to tola, Caroline? Ser que no percebe o escndalo
que isso vai causar?
       -- Mas ningum ir desconfiar de nada! Todos vo pensar que ele est
interessado em voc!
       -- Por que insiste tanto?
       -- Se voc soubesse como  maravilhoso estar nos braos dele, sem
dvida iria me ajudar.
       -- No diga essas coisas, Caroline!
       --  a verdade! Ele beija de maneira divina... bem melhor do que meu
outro namorado italiano! Alm disso, Adelco est louco por mim, e sei que no
me v como um mero flerte passageiro.
       Ornella balanou a cabea num gesto de censura e perguntou:
       -- Mesmo que voc tenha razo, o que espera desse relacionamento,
uma vez que nunca poder se casar com ele? O embaixador est noivo de
uma moa muito rica, na Itlia.
       -- No se iluda, Ornella! Se eu fosse rica, ele se casaria comigo, e o
inverso tambm  verdadeiro! Infelizmente, ns no podemos nos dar ao luxo
de alimentar esse tipo de fantasia e somos obrigados a aproveitar cada
momento, pois s dispomos de uma semana!
       -- Uma semana? Por qu? Sua Excelncia vai voltar  Itlia?
         -- No. .. Eu vou me casar.
         -- Por que tanta pressa? Pensei que vocs iriam esperar at o fim de
junho!
       -- O regente ofereceu-se para ser o padrinho e permitiu que a recepo
seja feita em Carlton House.
       -- Sei, e da?
       -- Da que Sua Alteza pretende mudar-se para Windsor, porque lady
Hertford prefere morar l. Ento, isso nos obriga a nos casarmos antes das
corridas de Ascot, quando o regente ir para Windsor e no voltar mais a
Londres.
       Com o corao apertado, Ornella percebeu que precisaria deixar Ryde
House logo depois do casamento da prima, o que a impediria de continuar
vendo o marqus.
       Apesar de envergonhada pelo fato de amar o futuro marido da prima,
no conseguia evitar que uma intensa sensao de vazio se apoderasse dela,
e s a muito custo conseguiu disfarar a tristeza.
       -- Uma semana! -- repetiu Caroline, com voz distante -- Depois disso,
terei que agir com o mximo de discrio, no s em relao a Adelco, mas
com qualquer homem! Darius jamais permitiria qualquer escndalo que
envolvesse o nome de sua esposa!
       Depois de uma breve pausa, comentou:
       -- Ele pode ter desrespeitado todas as convenes, mas, quando se
trata de questes de famlia, torna-se excessivamente orgulhoso!
       -- Com toda a razo! No encoraje o embaixador, Caroline! Mande-o
embora agora, antes de se envolver ainda mais.
       -- Ser que estou mesmo apaixonada? Cansei de me perguntar isso e,
francamente, no descobri a resposta. Adelco me excita, gosto dos seus beijos
e vibro com suas declaraes de amor... No entanto, eu jamais seria capaz de
abrir mo da fortuna que terei ao me casar com Darius para ficar com ele.
       -- E ele?
       -- Acho que nesse ponto somos idnticos.
       -- Ora, ento vocs no esto apaixonados um pelo outro. Um amor
verdadeiro superaria todos os obstculos e no se preocuparia com questes
de dinheiro.
       -- Mas eu o desejo... Apesar de voc no acreditar, sou sensvel e
odiaria ferir o orgulho de Darius. Por isso, se voc me ajudar, prometo que
agirei de forma correta.
       -- Oh, Caroline, voc est me deixando numa situao difcil de
propsito. Isso no  justo!
       -- A nica coisa que desejo, querida,  me divertir um pouco, antes de
me acomodar  vida de casada. Caso eu engravide logo, imagine como ser
aborrecido no ter nada para fazer, alm de escutar as observaes cnicas de
Darius. Quero aproveitar ao mximo o pouco tempo de liberdade que me resta!
       -- No sei o que voc espera que eu faa...
       -- Isso significa que voc vai me ajudar? Ah, meu anjo, voc  a prima
mais maravilhosa do mundo!
       -- No prometo nada at saber exatamente o que voc espera de mim.
       --  simples! Adelco no lhe explicou? Ele vai fingir que a corteja, e eu
convencerei a duquesa de que o considero um partido bastante conveniente.
Depois, ele a convidar para sair, e eu os acompanharei... Caso voc
concorde, iremos jantar juntas amanh.
       -- Sozinhas?
       -- Claro! Ou voc espera que ele convide o marqus e a duquesa?
       -- No vo achar estranho?
       -- Deixe tudo por minha conta, que j planejei cada detalhe. Amanh
cedo, voc receber um convite para jantar na embaixada italiana. Direi 
duquesa que Sua Excelncia havia me consultado e conta com minha
aprovao...
       -- E o marqus?
       -- Se Darius se oferecer para nos acompanhar, do que duvido,
explicarei que o embaixador j planejou o jantar e causaria muito embarao a
presena de outro homem.
       -- Tem certeza de que a duquesa no vai estranhar?
       -- Absoluta! Ela j se acostumou com o fato de os homens se
entusiasmarem por voc. Hoje mesmo, vi lorde Rotherton despejando as
mgoas sobre ela durante a festa.
       -- Oh, Caroline, odeio esse tipo de coisa!
       -- Vou encontrar-me com Adelco de qualquer maneira! Recuso-me a
desistir do homem mais excitante que passou pela minha vida nesses ltimos
meses, e pouco me importam as conseqncias!
       Consciente de que nada faria a prima mudar de idia, Ornella suspirou
fundo. Ainda que lhe desagradasse profundamente participar daquela farsa,
no via outra sada.
       Se recusasse, Caroline no hesitaria em cumprir suas ameaas, e,
descuidada como era, acabaria provocando um escndalo.
       -- Repito que est me chantageando, Caroline... Mas vou jantar na
embaixada, desde que voc prometa comportar-se corretamente.
       -- Garanto que, em pblico, agirei como uma freira!
       -- No quero mais falar nisso! -- exclamou Ornella, irritada. -- Odeio
esses fingimentos e subterfgios! Sinto repugnncia por essas intrigas
mesquinhas e srdidas!
       -- Pelo menos voc est sendo franca!
       Havia tanta frieza em sua voz e seu rosto tinha uma expresso to
magoada, que Ornella se arrependeu e correu para abra-la.
       -- Caroline, minha querida, desculpe. No pretendi feri-la, mas fico
assustada quando penso que voc pode estragar sua vida comportando-se
dessa maneira extravagante.
       -- De vez em quando sinto necessidade de me aventurar! Procuro algo
que, pelo menos, se assemelhe s emoes do verdadeiro amor.
       -- Por que no tenta amar seu noivo, Caroline?
       -- J me cansei de tanto tentar, Ornella. Gosto muito de Darius, mas
no suporto as crticas constantes que ele me faz...
       Ela suspirou, concluindo:
       -- Se eu sentisse o corao dele bater mais forte quando me aproximo,
talvez conseguisse me apaixonar... No entanto, Darius parece feito de pedra e
no se empolga com nada.
       -- Quem sabe, quando vocs se casarem...
       -- Como pode ser to romntica? Garanto que s nos livros o amor
chega depois do casamento! O amor  uma chama que queima por dentro e
leva o homem a superar qualquer barreira para conquistar a pessoa que
deseja.
        -- No, Caroline! Isso que voc descreve chama-se paixo, desejo...
no tem nada a ver com o tipo de amor com que ns sonhvamos durante a
infncia.
        -- E at quando vou esperar que o prncipe encantado me encontre e
me leve para seu castelo, onde viveremos felizes para sempre? Essas coisas
no acontecem na vida real, e voc sabe disso to bem quanto eu. No
podemos esperar por um homem que seja bonito, rico e esteja perdidamente
apaixonado por ns.
        -- No seja to amarga, Caroline.
        --  verdade! A gente pode encontrar um prncipe, ou um mendigo. Um
lhe oferece amor, o outro, dinheiro! Desse modo, acabamos sendo obrigadas a
aceitar os dois ao mesmo tempo.
        -- Mas isso  trapaa!
        -- Trapaa ou no,  o que pretendo fazer. Agora vou para a cama.
Quero estar encantadora para Adelco amanh  noite.
        -- Oh, Caroline, no sei mais o que fazer com voc!
        -- Ento faa somente aquilo que eu quiser...
        Assim que a prima se retirou, Ornella tornou a deitar-se e fechou os
olhos, pensando no marqus.
        Preocupava-a saber que, agora que descobrira que se apaixonara por
ele desde Morden Green, no conseguiria mais manter a mesma naturalidade,
vendo em tudo um sinal de alerta contra sua paixo proibida.
        Desde que se vira obrigada a reconhecer a verdade, percebia como ele
acertara ao compar-la com a Bela Adormecida.
         semelhana daquela herona, ela tambm acordara com um beijo... o
beijo que Darius lhe dera numa tarde distante.
        Desde que chegara a Ryde House, tentava se esquivar e ignorar a
agitao que dominava seu peito sempre que o marqus se encontrava
presente, mas fora intil...
        Sabia, porm, que no devia alimentar esperanas, e, por mais que lhe
custasse, tinha a obrigao de esforar-se para que o casamento dele com
Caroline fosse bem-sucedido.
        De repente, deu-se conta de que, ao ajudar a prima na quele absurdo
namoro com o embaixador, estava, de certa forma, traindo Darius.
        E o pior era que, por mais que pensasse, no conseguia imaginar um
meio de impedir Caroline de agir com tanta infantilidade.
        Enfim, talvez a nica maneira fosse Ornella manter-se sempre perto da
prima, alertando-a e impedindo-a de ultrapassar os limites do razovel.
        Desse modo, evitaria os mexericos que poderiam ferir o marqus e
pouparia o nome de Caroline de uma difamao.
        Haveria apenas um segredo: a prpria Ornella, que se torturaria horas a
fio por estar enganando a pessoa que mais amava no mundo!
        Chorando baixinho, ela afundou a cabea nos travesseiros e apagou a
vela da cabeceira. Aos poucos, o cansao a dominou, fazendo-a adormecer.

       Pouco antes do almoo, Ornella estava ocupada em bordar uma
tapearia, quando Caroline surgiu na saleta com uma expresso radiante no
rosto.
       -- Bom dia, querida. Dormiu bem?
       -- Como uma criana. Sentia-me cansada e feliz, Ornella; uma
combinao perfeita! Alm do mais, deitei fingindo estar nos braos de Adelco!
       Percebendo a careta de desagrado que se formava no rosto da prima,
Caroline caiu na gargalhada.
       --  brincadeira! Falei isso s para ver sua reao.
       -- timo! Mas seja cautelosa, Caroline! As paredes desta casa tm
ouvidos.
       -- Ento vo ter muito o que escutar daqui para a frente. Vamos descer
e tentar encontrar algum que nos leve a passear de carruagem?
       Embora estranhasse o pedido, Ornella no protestou. Quando chegaram
ao hall, uma imensa cesta de orqudeas brancas chamou-lhe a ateno.
       -- Olhe que flores lindas, Caroline.
       --  mesmo! Quem as teria mandado? -- Decidida, ela foi at o cesto e
leu o pequeno carto, fingindo espanto. -- Ora! So para voc, Ornella!
       -- Para mim? Mas  imposs...
       -- H uma carta junto com elas...
       Nesse instante, a porta da biblioteca se abriu e o marqus entrou no
ambiente.
       Quase sem perceber o que fazia, Ornella abriu a carta que Caroline lhe
entregara e leu:
       "Encantadora srta. Stanyon,
       Imploro que honre minha embaixada com sua presena no jantar de
hoje  noite. Espero ansioso que aceite ser minha convidada, e mandarei uma
carruagem busc-la s sete e meia.
       A senhorita me disse ontem que no tinha nenhum compromisso. Por
isso, aguardo ansiosamente sua chegada.
       De seu humilde admirador,
       Adelco di Savelli".

        -- Mas que carta encantadora, Ornella! S que no acho correto voc
ir sozinha! Afinal, no podemos confiar nesses estrangeiros, no , Darius?
        -- De quem voc est falando, Caroline? -- perguntou ele, lanando um
olhar de desprezo s flores.
        -- De Sua Excelncia, o embaixador da Itlia. Parece que ele perdeu o
corao por causa de Ornella. Alis, notei isso a noite passada, quando ele
pediu minha permisso para convid-la para jantar. Concordei, desde que eu
pudesse acompanh-la...
        Envergonhada, Ornella baixou a cabea, mal reprimindo a vontade de
rasgar aquela carta e gritar que no queria ir a embaixada alguma.
        Depois de alguns instantes, o marqus disse:
        -- Ornella deve fazer o que quiser. Se voc acha que  seu dever,
proteger a reputao de sua prima, ento  claro que deve acompanh-la.
        -- Eu sabia que voc entenderia, querido... Bem, Ornella, voc deve
escrever um bilhete para o embaixador, agradecendo as flores e dizendo que
ficamos encantadas em aceitar seu convite.
        -- Voc vem passear comigo, ou tem outros planos para esta manh,
Caroline?
        A maneira como o marqus falava deixou Ornella preocupada. Por
algum motivo, intua que ele no se deixara enganar por aquela histria.
        Ao mesmo tempo, estranhava que, suspeitando da verdade, ele no
fizesse nada para impedir que a noiva se envolvesse com outro homem.
       Incapaz de suportar durante mais tempo aquela encenao, fez uma
reverncia e subiu correndo a escada, sentindo que o marqus a seguia com
um olhar penetrante.
       Entrando na saleta, bateu a porta com raiva atrs de si.
       Achava absolutamente intolervel que Caroline a colocasse numa
situao daquelas!
       Sabia que, no fundo, o que mais a incomodava no era o
comportamento ftil da prima, mas a opinio que o marqus faria a seu
respeito.
       Estava consciente de que no tinha razo para se importar com isso,
uma vez que as atitudes gentis dele no significavam nada alm de um agudo
senso de responsabilidade, que o fazia sentir-se obrigado a velar pela prima
desamparada da noiva.
       Angustiada, ela enterrou o rosto nas mos e chorou durante um longo
tempo, sem encontrar resposta para as dvidas que tanto a atormentavam...
       Sentia que, aos poucos, sua situao tornava-se mais delicada, e tinha
medo de, em vez de ajudar Caroline e o marqus a superarem seus
problemas, acabar por lhes arranjar outros.


                                CAPTULO VIII


       Escuros portes de ferro batido davam acesso ao pequeno bosque que
circundava o imponente prdio da embaixada italiana. A elegante construo
de paredes brancas, localizada no centro de Londres, era quase to magnfica
quanto Carlton House.
       O hall de entrada tinha o cho revestido de mrmore branco, e inmeros
lacaios circulavam naquele ambiente repleto de espelhos de cristal, pinturas da
Renascena italiana e objetos de arte de valor inestimvel.
       Um tapete vermelho conduzia aos aposentos privados do embaixador,
um apartamento de dois andares.
       O piso inferior, decorado com extremo bom gosto, dividia-se em sala de
estar e de jantar.
       -- Que palavras posso usar para exprimir meu prazer em receb-las? --
saudou o embaixador. Aproximando-se de Caroline, beijou-lhe as duas mos,
com um brilho apaixonado no olhar.
       -- Voc parece uma estrela, querida... -- Virando-se para Ornella,
acrescentou: -- J percebi que Caroline  mais persuasiva do que eu, srta.
Stanyon.
       Embora tivesse planejado manter uma aparncia severa durante todo o
tempo, Ornella sorriu. Afinal, quem conseguiria resistir aos modos infantis e to
espontneos do embaixador?
       Alm disso, seu interesse por Caroline era patente e se revelava nos
mnimos gestos, na entonao carinhosa da voz e na maneira gentil como a
conduzia at a sala de jantar, onde uma mesa ricamente preparada os
aguardava.
       Antes de a refeio ser servida, ele sugeriu um brinde e pediu ao
mordomo que providenciasse uma garrafa de champanhe rosado.
        Enquanto saboreavam a deliciosa bebida, chegou o quarto convidado:
um amigo ntimo do anfitrio, que fora convidado a fim de completar o segundo
par do jantar.
        Em pouco tempo, os dois italianos, com sua natural irreverncia e
espirituosidade, criaram um clima descontrado. Falavam incansavelmente das
viagens que haviam feito, de lugares pitorescos, das aventuras dos tempos de
criana e adolescncia.
        Longe da presena repressora e vigilante da duquesa, as primas
pareciam muito mais  vontade e riam bastante, encorajando-os a contar
outros casos e anedotas.
        Decidido a mostrar-se fascinante, o embaixador esforava-se para agir
de modo solcito, mantendo-se atento s mnimas expresses de Caroline.
        Sem dvida, esse comportamento no passava despercebido a
ningum, nem mesmo ao conde Carlo Ferranda, seu amigo, que no ocultava
um brilho divertido no olhar.
        O jantar foi uma verdadeira festa, constando de uma enorme variedade
de pratos requintados, servidos em bandejas de prata. A entrada consistiu em
saladas e creme de cebola, a que se seguiram duas variedades de carnes,
preparadas segundo a tradio italiana, com muito queijo, organo e molhos.
        Aps a sobremesa, os convivas deixaram a mesa e foram at a sala de
estar para tomar caf e licores.
        -- Oh, Ornella, se voc no se importar, o embaixador ofereceu-se para
me mostrar o viveiro de pombos...
        -- Ora, fiquem  vontade -- interveio o conde, mal disfarando o riso. --
Com certeza, eu e a srta. Stanyon encontraremos algo para conversar.
        Apesar de contrariada, Ornella assentiu com um gesto de cabea,
reprovando intimamente a atitude da prima. Alm de estar agindo de modo
condenvel, Caroline nem se dava ao trabalho de elaborar uma desculpa
convincente!
        Percebendo a expresso desgostosa com que ela via a outra retirar-se
de braos dados com o embaixador, o conde riu, divertido.
        -- No se acha muito jovem para agir como acompanhante rabugenta,
srta. Stanyon?
        -- Desculpe-me! Sei que estou sendo desagradvel, mas no consigo
evit-lo. Essa situao me deixa ansiosa...
        -- Compreendo que desaprove o relacionamento deles, porm no h
nada que se possa fazer para mud-lo. Quando as pessoas esto
apaixonadas, esquecem que a sociedade se diverte transformando-as em
alvos para mexericos.
        -- Tem razo! -- Depois de alguns instantes de silncio, ela pediu: --
Por favor, no poderia conversar com o embaixador e faz-lo entender que foi
muito arriscado virmos aqui sozinhas para um jantar to ntimo? A reputao
de Caroline pode ficar abalada.
        -- Por acaso pensa que o embaixador me daria ouvidos? De maneira
nenhuma! As pessoas apaixonadas fazem as suas prprias leis.
        -- Mas eles no podiam estar apaixonados! Como o senhor deve saber,
minha prima est noiva e vai se casar dentro de uma semana.
        Com um sorriso condescendente, ele meneou a cabea, declarando:
        -- Justamente por isso, acho menos indiscreto jantarmos os quatro
sozinhos. Se tivssemos outros convidados, com certeza eles sairiam fazendo
mexericos sobre o comportamento do embaixador italiano e da deslumbrante
Caroline.
        -- Talvez tenha razo. Em todo caso, creio que isso no deve se repetir.
        -- Eu adoraria se acontecesse o contrrio... Bem, senhorita, que acha
de esquecermos esses assuntos aborrecidos e aproveitarmos a noite? Devo
dizer-lhe que  a mulher mais bonita que conheci desde que cheguei a
Londres...
        -- Agradeo sua gentileza, no entanto, quero lhe pedir que no me
elogie.
        -- Por qu?
        -- Como os ingleses raramente fazem elogios, quando os ouo fico
embaraada...
        Ornella calou-se, espantada ao notar que o conde, em vez de se
aborrecer, como ela previra, jogava a cabea para trs, dando uma gargalhada.
        -- A senhorita no  s a mulher mais bonita que j encontrei, mas uma
das mais originais.
        -- Deve ser porque gosto de dizer as coisas com clareza e objetividade.
        -- Alis, duas coisas bem raras nas pessoas.
        Um silncio constrangedor caiu entre eles, criando um clima
desagradvel.
        -- Por que no jogamos piqu? -- sugeriu Ornella, de repente.
        -- Ah, no! Detesto jogos de qualquer espcie. Acho melhor
simplesmente conversarmos.
        -- Tudo bem, desde que o assunto no seja eu.
        -- Meu Deus! Nunca conheci uma pessoa .que no estivesse
interessada em falar de si prpria.
        -- Ento devo ser uma exceo, milorde.
        -- Estranha exceo, pois sou da opinio de que ningum, alm de uma
mulher bonita, merece tanto esse privilgio.
        -- Apesar disso, prefiro escutar algo sobre sua vida. Diverti-me bastante
durante o jantar...
        Por um momento, o conde a fitou como se duvidasse da sinceridade das
suas palavras, mas logo se sentou confortavelmente ao seu lado no sof.
        -- Muito bem! Ento vou lhe contar minha vida na Itlia.
        Gesticulando muito, ele falou sobre a famlia a que pertencia, e disse
que era casado.
        Seu casamento fora arranjado, e a condessa sofria de uma doena
incurvel que a mantinha na cama, impedindo-a de acompanhar o marido
aonde quer que fosse.
        Desse modo, ele levava uma vida de solteiro em Londres, lugar que
visitava com freqncia, a fim de verificar pessoalmente a administrao de
suas propriedades na Inglaterra.
        Graas ao estilo vivo e interessante com que ele se expressava, Ornella
nem percebeu o tempo passar. Porm, quando o relgio bateu onze horas e
no havia sinal de Caroline, ela comeou a se preocupar.
        -- Meu Deus, que tarde! Acho que est na hora de voltarmos.
        -- Eu a aborreci?
        -- No, em absoluto! A bem da verdade, adorei nossa conversa. O
problema  que a duquesa deve estar nos esperando.
        -- Mas o que quer que eu faa? Saia por a procurando os seus
protegidos, para ver se no fugiram juntos? Ou interromp-los no que poderia
ser um momento ntimo?
       Embora ele sorrisse, Ornella manteve-se sria.
       -- Por favor, no brinque com isso. Trata-se de uma situao delicada, e
eu me sinto responsvel por Caroline.
       -- Pensei que sua prima fosse mais velha do que a senhorita ...
       -- Somente na idade. s vezes tenho a impresso de que ela no passa
de uma criana levada.
       -- Que exagero!
       --  a pura verdade. J me surpreendi com a sensao de ser av dela.
       -- Posso assegurar-lhe que no parece av de ningum, mia bella, mas,
ao contrrio, a deusa que personifica a primavera.
       No mesmo instante, Ornella lembrou-se daquele dia distante em que o
marqus a comparara  singela criatura pintada por Botticelli, na tela
Primavera.
       Sentindo-se culpada, rezou para que ele nunca viesse a desconfiar
daquela escapada de Caroline.
       No entanto, achava difcil que isso acontecesse, uma vez que, para
todos os fins, era nela que o embaixador estava interessado, o que constitua
uma desculpa pouco convincente. Quem acreditaria que Caroline se oferecera
para acompanh-la a algum lugar, sem ter um interesse pessoal no convite?
       Ningum! Menos ainda um homem com a perspiccia do marqus, a
quem, alis, ela prometera no mentir nunca.
       Experimentando uma horrvel sensao de desconforto, jurou a si
mesma que no tornaria a ceder s exigncias da prima. Por mais que lhe
custasse, precisava manter-se leal para com Darius!
       Pouco depois, quando o relgio bateu onze e quinze, ela se levantou de
um salto e ps-se a andar de um lado para outro na sala.
       -- Precisamos fazer alguma coisa!
       -- Est bem! Vou sair e procurar aqueles dois estouvados.
       -- Muito obrigada! Eu no lhe pediria que fizesse algo to embaraoso
se no estivesse preocupada de fato.
       -- No duvido. -- Com uma piscadela maliciosa, ele brincou: -- Se o
embaixador me despedir por causa de minha audcia, a responsabilidade ser
inteiramente sua!
       Embora procurasse sorrir, Ornella no conseguiu faz-lo. Sentia-se cada
vez mais ansiosa e no via a hora de chegar a Ryde House.
       Quando ouviu o barulho de passos, correu ao encontro do grupo que
chegava, mas parou, estupefata, assim que notou o estado da prima.
       Caminhando alguns passos  frente dos dois homens, Caroline estava
com os cabelos despenteados, o vestido amassado e os lbios muito
vermelhos.
       -- O conde disse que voc est aflita, minha querida. O que houve?
       --  tarde e precisamos voltar para casa. Voc sabe to bem quanto eu
que no teremos nenhuma explicao razovel para justificar tanto atraso.
       -- Hum, que coisa mais aborrecida ter a prpria conscincia
permanentemente ao nosso lado!
       -- Lamento, Caroline, mas procure ser razovel.
       Com um suspiro de resignao, Caroline postou-se diante de um
espelho, ajeitando algumas mechas de cabelo.
       Com ar grave, o embaixador aproximou-se de Ornella e tomou-lhe uma
das mos, levando-a aos lbios.
       -- Tem razo, srta. Stanyon. Por favor, perdoe-me por ter sido to
irresponsvel, mas no paraso no se contam as horas, e foi l que estive at
agora,
       -- Sinto t-los interrompido, milorde.
       Nesse instante, o conde se aproximou e, com grande cavalheirismo,
ajudou Ornella a vestir o manto.
       A luxuosa carruagem da embaixada j as aguardava na rua, e partiu
rapidamente, assim que as duas jovens se acomodaram.
       Com um sorriso deslumbrante, Caroline sentou-se num canto e fechou
os olhos, murmurando:
       -- Foi maravilhoso! Maravilhoso!
       -- Pelo amor de Deus, tente parecer entediada! Se voc chgar a Ryde
House desse jeito, ningum vai acreditar, nem por um momento, que  por mim
que o embaixador est fascinado!
       -- Claro! Farei uma cara bem feia -- prometeu ela, com uma careta.
       Balanando a cabea, Ornella riu, divertida com a brincadeira, e a
tenso diminuiu um pouco. Quando a carruagem estacionou diante do castelo,
o mordorno saiu para receb-las.
       -- Onde est a duquesa, Willand? -- perguntou Caroline, ao notar que o
hall se encontrava deserto.
       -- Ela se sentia indisposta e deitou-se cedo, milady.
       -- Ah, sim! E o marqus?
       -- Saiu logo depois do jantar e ainda no voltou. Precisam de alguma
coisa?
       -- No, obrigada. J vamos para o quarto.
       Willand despediu-se com uma reverncia, enquanto as duas subiam
rapidamente os degraus.
       -- Viu s o que fez, Ornella? Eu ainda podia ter demorado um pouco --
lamentou Caroline, no topo da escada.
       -- Ns tivemos sorte! Imagine se ocorresse o contrrio e o marqus
estivesse nos esperando...
       -- Ora, eu inventaria uma desculpa qualquer. Juro que no vou ouvi-la
da prxima vez.
       Dito isso, entrou no prprio quarto e fechou a porta com estrondo.

       No dia seguinte, a duquesa informou que o neto promoveria um almoo
ao qual compareceriam diversos polticos.
       -- Por acaso isso  inveno sua, Caroline? -- perguntou a velha, sem
esconder o desagrado.
       -- Minha?! De jeito nenhum! Para ser franca, considero todas essas
querelas polticas extremamente tediosas.
       -- Que estranho! Darius nunca se interessou por poltica... Em todo
caso, tratem de se apressar, seno chegaremos atrasadas.
       Pouco depois, Ornella e a prima, vestindo graciosos trajes de tarde,
desciam para o salo, onde cerca de doze convidados conversavam animados.
       Sentada num canto discreto, Ornella prestava ateno  conversa,
tentando descobrir, pelas posies, a que partido pertencia cada um dos
presentes. Envolvida nessa tarefa, sobressaltou-se quando o mordomo
anunciou a chegada do polmico Henry Grey Bennett.
        Ato contnuo, um homem de cerca de cinquenta anos, de cabelos
grisalhos e olhar penetrante, atravessou a sala com passos firmes. Aps os
cumprimentos de praxe, ele mostrou um pequeno volume encadernado em
couro e comentou:
        -- Lembram-se de que ainda ontem comentei algo acerca de meu
projeto de lei que pretende proibir o trabalho dos meninos que limpam
chamins? Pois bem, nem imaginam minha felicidade ao constatar, por este
livrinho, que no estou sozinho nessa luta.
        Com o corao acelerado, Ornella confirmou suas piores suspeitas:
tratava-se de seu livro de poemas.
        -- O que  isso? -- perguntou o marqus, interessado.
        -- Ainda no leu esse livro? -- estranhou um senhor de suas negras.
        -- Comprei-o ontem  tarde -- comentou um terceiro. -- Ouvi dizer que
est causando sensao nos meios literrios, porque ningum consegue
descobrir o autor.
        -- Ora, deve ser de algum desses reformistas -- interveio o senhor de
suas.
        -- Seja quem for, que Deus o abenoe! Quero ler um trecho para vocs,
pois estou convencido de que ter um valor inestimvel para o meu projeto.
        Aps uma breve pausa, comeou a ler em voz alta:

      -- "No burburinho misterioso da rua St. James,
      Almofadinhas bbados compram meninas de olhos
         pintados,
      Enquanto pobres garotos de ps descalos
      Sufocam na fuligem das chamins, com tristes gritos de
         dor..."

        Um murmrio escapou dos lbios dos ouvintes, e Henry Grey sorriu,
satisfeito com o resultado que obtivera.
        -- E ento? No acham que  o caso de conseguir uma autorizao do
autor para imprimir estes versos em panfletos? Eles tm um inegvel apelo
emocional que conseguir tocar as pessoas.
        -- Posso dar uma olhada nele? -- perguntou o marqus curioso.
        Em resposta, Henry Grey estendeu-lhe o livro, que Darius folheou,
interessado, detendo-se aqui e ali para ler algum poema.
        Incapaz de aparentar naturalidade diante do fato de seu trabalho ter
atrado a ateno de um homem importante como Henry Grey, Ornella
refugiou-se num canto afastado, prximo  lareira.
        O parlamentar ficara famoso por sua participao incansvel nas lutas
contra as injustias sociais, o que lhe angariara inmeras antipatias... e
tambm simpatias. Entre estas, a de seu tio, o conde de Morden.
        Os dois haviam encaminhado juntos uma campanha pedindo a punio
de todos aqueles que explorassem o trabalho de menores, e desde ento
tinham mantido intensa troca de correspondncia.
        Agora, embora ela se sentisse segura de que ningum desconfiaria que
o autor daqueles versos fosse uma mulher, lamentava no poder discutir seus
pontos de vista com Henry Grey.
        Na certa, ele teria muito para lhe ensinar...
       -- Sabe quem  o autor, Henry? -- perguntou um dos nobres.
       -- Nem imagino, mas adoraria conhec-lo. Deve ser um homem de
muita sensibilidade.
       -- Se ele no tomar cuidado, acabar sendo preso por insubordinao
-- observou um velho corteso.
       -- Insubordinao?
       -- Sim! Eu j li esse livro e sei o que estou dizendo, Ryde -- esclareceu
o corteso. -- Veja "O Grito de Protesto" e ter uma idia do tipo de agitador
com o qual estamos lidando. Esses camaradas vo nos enforcar nos postes na
primeira oportunidade.
       Adiantando-se, Henry Grey tomou o volume das mos do marqus.
       -- Eu mesmo lerei para vocs. Trata-se de um poema excelente.
       -- Nem discuto seu valor literrio. No entanto, considero-o bastante
perigoso do ponto de vista ideolgico.
       -- Fala de que assuntos? -- interveio a duquesa, com visvel interesse.
       -- Voc nos deixou curiosos, Henry! -- comentou o marqus.
       O parlamentar sorriu, enquanto virava algumas pginas. Em seguida,
limpou a garganta e, em voz calma, comeou:

      -- "O que aconteceria se a imensa multido de famintos
      Descobrisse os trinta pratos de entrada que so servidos em
         Carlton House?
      E se, num acesso de loucura, atravessando a barreira do lgico,
      Resolvesse banhar-se em champanhe?
      Ah, seria muito engraado se nossas famosas damas,
      Despidas de seus trajes valiosos,
      Passassem um dia inteiro numa mina escura,
      Empurrando pesados carrinhos de carvo...
      No lhes agrada essa hiptese? Por qu?
      Nunca pararam para pensar que talvez, num dia prximo,
      A crueldade, o dio, a doena e o sofrimento tero fim?
      Ou se iludem, achando que nossos bravos revolucionrios
          morreram em vo?"

        O constrangimento geral era evidente e no se ouvia um nico rudo, at
que o corteso que falara antes declarou:
        -- A est! O que mais esperam para mandar esses traidores para a
Torre? Querem apenas a anarquia. So capazes de jogar o pobre Prinny para
fora do trono antes mesmo de ele assumir o poder.
        -- Voc parece convencido de que a represso  a melhor poltica
-- observou o marqus, num tom severo.
        -- Tudo o que sei  que esse tipo de bobagem faz mais mal do que as
caricaturas repugnantes que infestam os jornais ultimamente. No podemos
esquecer que tais apelos foram, em grande parte, responsveis pela
Revoluo Francesa! Portanto, se os senhores quiserem manter as cabeas
sobre os ombros e suas propriedades bem cuidadas, aconselho-os a acabar
com os rebeldes o mais breve possvel!
        -- Discordo -- opinou Henry Grey, com firmeza. -- Quanto mais as
crticas forem levadas a srio, melhor aperfeioaremos nossa legislao em
busca de uma sociedade justa.
        -- Iluso! Aposto como voc no conseguir fazer o Parlamento aprovar
sua lei -- afirmou o corteso. -- Lauderdale se encarregar de indispor todos
contra voc.
        -- Ora essa! No vejo por qu.
        -- Ele declarou que voc no passa de um velho que chora lgrimas de
crocodilo por causa de um bando de meninos que est muito melhor limpando
chamins do que roubando nas ruas.
        Ao que tudo indicava, a discusso ia se tornar acalorada, caso Willand
no a interrompesse, anunciando que o almoo seria servido.
        -- Agora parem de brigar -- pediu a duquesa, com bom humor. -- Alis,
esse  o mal dos polticos: a todo momento exaltam-se ao defender suas
posies, tratando de assuntos que deveriam ser relegados  Cmara dos
Comuns.
        -- Tem razo, milady -- concordou lorde Worcester. -- Pessoalmente,
considero a poltica bastante tediosa.
        Como num passe de mgica, os nimos logo se acalmaram e todos se
dirigiram  sala de almoo, falando de amenidades.
        Ornella, porm, no conseguira se descontrair.
        Preocupada, tentava recordar o contedo de sua conversa com o
marqus. Naquele dia, deixara-se dominar pela emoo e falara longamente
sobre as injustias sociais, denunciando conhecimentos invulgares numa
dama.
        Ser que isso o levaria a relacion-la com o livro? Era provvel que no,
uma vez que o nmero de descontentes com o regime crescia a cada dia. Alm
disso, o caso dos limpa-chamins, em particular, andava na boca de todas as
pessoas.
        H alguns dias, inclusive, devido a uma matria que sara no Times, a
duquesa conversara a esse respeito com as amigas.
        Evidentemente, todas elas estavam escandalizadas com as propostas
de Henry Grey, e, cheias de malcia, chegaram a sugerir que ele no estivesse
bem da cabea. Afinal, onde j se vira um nobre agir contra sua prpria classe?
Muito absorvidas em suas mesquinharias e futilidades, elas no conseguiam
perceber a crise que assolava o pas em propores crescentes.
        As condies subumanas de vida da maior parte da populao
comeavam a escandalizar e comover at mesmo respeitveis membros da
nobreza, como era o caso do marqus, que na vspera se encontrara com
Henry Grey, a fim de oferecer-lhe apoio.
        Surpresa com essa constatao, Ornella se perguntou at que ponto
seria ela a responsvel pelo sbito despertar poltico de Darius.
        Absorvida nesses pensamentos, quase no prestou ateno  comida, e
deu graas a Deus quando a duquesa se levantou, dando o almoo por
encerrado.
        No caminho de volta para a sala, a velha aristocrata colocou-se entre as
duas primas, perguntando:
        -- O que pretende fazer esta noite, Caroline?
        -- Prometi passear de carruagem com um amigo. Ele est ansioso para
me mostrar um par de puros-sangues que comprou.
        -- Quem  ele? Eu o conheo?
        -- Talvez...  o conde Carlo Ferranda, que chegou recentemente da
Itlia.
        -- Nunca ouvi falar dele -- afirmou a duquesa, com indiferena.
        -- Ento precisa conhec-lo. Trata-se de um rapaz encantador.
        Abismada com a naturalidade com que a prima inventava as histrias
mais esfarrapadas, Ornella lamentou que no estivessem a ss para lhe
chamar a ateno. Por outro lado, sabia que de nada adiantaria sua
interveno, pois Caroline era voluntariosa e no hesitaria em voltar-se contra
todos para realizar os caprichos mais loucos.
        Na sala de estar, foram servidos o cafezinho e os licores habituais, e
Caroline aproveitou-se da confuso para escapar.
        Ao v-la sair, Ornella esperou alguns instantes antes de fazer o mesmo.
        Subiu os degraus que conduziam ao andar superior, decidida a bater 
porta da prima e conversar seriamente com ela.
        No entanto, a coragem faltou-lhe por completo. No tinha pacincia para
iniciar uma discusso intil, que poderia at mesmo provocar um escndalo.
        Portanto, cuidaria de sua prpria vida, que, alis, j andava bastante
complicada.
        De repente, nascera nela uma irresistvel vontade de escrever,
colocando para fora todos os fantasmas que a afligiam, vencendo suas
prprias barreiras e as inibies mais secretas.
        Seguindo um impulso poderoso, Ornella se dirigiu para o escritrio.
Sentou-se  escrivaninha e, abrindo a gaveta que reservara para seus
documentos pessoais, apanhou uma grande pasta de couro.
        Apesar do medo que sentira ao ouvir seus poemas lidos por Henry Grey,
tinha a convico de que fizera a coisa certa ao mandar public-los.
        Se estivesse vivo, o tio se orgulharia dela, pois ele sempre se revoltara
contra os horrores cometidos nas gals, nas minas e nas favelas do East End.
        Por isso, Ornella tinha um compromisso moral para com a memria do
conde de Morden: continuar sua cruzada, denunciando em alto e bom som
todas as injustias, ainda que desagradasse  ala conservadora da sociedade.
        Abrindo a pasta, tirou alguns poemas que escrevera recentemente e
ps-se a revis-los. Planejava reunir mais alguns e depois envi-los para que
Watkins e Rufus os avaliassem.
        Os dois editores haviam encomendado um segundo volume, e talvez
viessem a se interessar por essas produes ...
        Sem se dar conta, Ornella comeou a escrever com rapidez, sem
hesitao alguma, quase como se algum estivesse lhe ditando as palavras.
        Concentrada, logo perdeu a noo de tempo e espao. Tanto que nem
levantou a cabea quando ouviu algumas batidas leves na porta.
        -- Entre.
        -- Chegaram flores para a senhorita -- informou um lacaio.
        -- Pode deix-las a.
        No instante seguinte a porta se fechou com rudo, e uma voz cnica
comentou:
        -- Sem dvida, seu novo namorado  bastante prdigo quando se trata
de flores!
        Incapaz de reprimir um gritinho de susto, Ornella levantou-se de um
salto.
        Ao ver o marqus parado junto a uma cesta de orqudeas vermelhas,
instintivamente ela virou a folha em que estivera escrevendo, tentando cobri-la
com as mos.
        -- Por que ficou to surpresa ao me ver? -- perguntou ele, de modo
acusador.
        -- No... milorde... Quero dizer... sim! Pensei... que tivesse sado.
        -- Caroline fez outros planos para a tarde. Por isso, resolvi ver se voc
queria dar um passeio de carruagem comigo.
        -- Eu s estava escrevendo alguma coisa.
        -- Uma carta de amor? Por acaso, seu novo prncipe encantado  to
extravagante nos seus protestos de amor quanto com as flores?
        -- No, milorde... Eu no escrevia para o embaixador... se  isso que
est... imaginando.
        -- Quem, ento, ser honrado com as suas confidncias?
        -- Ningum. No se trata de uma carta.
        -- No  uma carta para seu timo e ardente admirador?
        -- No, milorde.
        -- Ento para que tanto segredo?
        -- Na verdade,  algo muito... pessoal.
        Intensamente ruborizada, Ornella abaixou a cabea para escapar do
olhar perscrutador que o marqus lhe lanava.
        -- O que est escondendo de mim, Ornella?
        -- No estou... escondendo nada. Mas eu no gostaria de lhe mostrar o
que escrevi.
        -- E quem lhe disse que eu iria pedir para ver?
        Completamente confusa, ela no respondeu, limitando-se a cobrir ainda
mais o papel.
        -- O que escreveu que eu no possa ler?
        -- No  nada... O senhor no tem o direito de me questionar.
        -- Tenho esse direito, sim. Voc deu sua palavra de honra de que iria
confiar em mim e no se envolveria em situaes perigosas, alm de me dizer
sempre a verdade! Estou esperando que cumpra suas promessas, Ornella!
        -- No! Isto no tem nada a ver com o senhor! Juro que isso  uma
coisa... que devo guardar s para mim.
        -- No acredito.
        Atnita, Ornella levantou a cabea e encarou-o, assustando-se com a
expresso de desconfiana que havia em seus olhos.
        Percebendo que o irritara, teve medo de que o marqus arrebatasse o
papel de suas mos.
        -- Por favor... Por favor! Compreenda que no devo mostrar isso ao
senhor!
        -- Por qu?
        -- No posso explicar... Mas compreenda que no quero que veja o
que escrevi.
        -- De uma vez por todas, Ornella, se voc no tem um bom motivo,
pensarei que est tentando me enganar.
        Como ela no respondesse, Darius avanou em sua direo, afirmando:
        -- Quero ler o que voc escreveu.
        Com um gesto decidido, ele tomou-lhe a folha de papel. Embora se
esforasse para dizer alguma coisa, Ornella permaneceu muda, com os olhos
cheios de lgrimas.
                               CAPTULO IX


       Com o corao aos saltos, Ornella viu o marqus manusear o papel e
afastou-se para perto da janela. Darius, por sua vez, comeou a ler em voz
alta:

      -- "Para voc, quase nada: apenas um beijo!
      Mas os anjos cantaram para mim
      E as estrelas caram do cu,
      Marcando em meu corao esse momento".

       Atnito, ele dobrou lentamente a folha e fitou-a, comovido, antes de
perguntar:
       -- Acredita realmente que no significou nada para mim, Ornella?
       Como ela no respondesse, Darius acrescentou:
       -- Desde o primeiro instante eu sabia... Tentei me enganar dizendo que
tudo no passava de efeito do ponche que eu bebera, mas foi intil... O tempo
todo eu sabia a verdade...
       Incapaz de compreender o significado dessas palavras, ela se voltou
lentamente, perguntando:
       -- Que verdade voc sabia?
       A expresso dele se enfureceu de repente, revelando algo de quase
ameaador, que a assustou.
       -- Naquele momento, eu percebi que algo estranho havia acontecido
comigo. Experimentei pela primeira vez uma sensao diferente... Eu estava
apaixonado!
       -- No! No... no pode ser verdade!
       --  claro que pode. Pensa que no me lembrei da maciez dos seus
lbios? A maravilha que senti quando os toquei ainda est gravada em minha
memria com marcas de fogo. No instante em que a tive em meus braos,
percebi que a amava, Ornella.
       -- Por favor...
       -- Eu a amo, e voc sabe que  a pura verdade.
       -- No devemos falar nisso...
       Como se no a escutasse, Darius deu vazo  necessidade de dizer
todas as coisas que h tempos o sufocavam.
       -- Quase voltei l no dia seguinte. Fiquei acordado a noite inteira,
planejando o que lhe diria.
       Notando seu ar interrogativo, ele esclareceu:
       -- Eu achava que no podia lhe oferecer casamento, e no quis
estragar tudo com outra proposta...
       -- E que mais?
       -- Tive medo de sofrer outra desiluso...
       Comovida com a nota de amargura que se revelava na voz dele, Ornella
torceu as mos nervosamente.
       -- Foi a nica coisa boa que fiz na minha vida inteira! E depois dizem
que existe um Deus misericordioso...
       -- No fale assim. Tudo o que aconteceu entre ns foi maravilhoso...
perfeito. No temos o direito de estragar um sentimento to puro.
        Com o corao nas mos, Darius notou que Ornella era dona de um
desprendimento mpar. Ao contrrio da maioria das pessoas, que pensava
apenas em si prpria, ela se preocupava com ele, e abria mo da felicidade
para v-lo menos angustiado.
        -- Oh, minha querida, o que vamos fazer?
        -- No podemos alimentar esperanas vs. Voc esta comprometido
com Caroline, e nosso amor  impossvel!
        -- Em absoluto! Devemos tentar, pelo menos... Olhe, eu posso procurar
Caroline e revelar a verdade, pedindo-lhe que nos ajude.
        -- De maneira alguma! Mesmo que Caroline concordasse, a sociedade
inteira zombaria dela, sem acreditar que ela tomara a iniciativa de romper o
compromisso.
        -- Voc conhece meu apelido. Tenho sido desrespeitoso,
irresponsvel... Mas no posso faltar com a minha palavra, pois, apesar de
tudo, nunca agi de uma maneira que os outros homens considerassem
desonrosa.
        -- Sei disso, e jamais permitiria que voc fizesse algo que viesse a
magoar Caroline... ou maculasse nosso amor.
        -- Oh, minha pequena e adorada Primavera... Voc me deixa louco de
cimes! s vezes, quando lembro que outros homens se aproximam de voc,
dizendo coisas que no posso dizer e oferecendo-lhe algo que para mim 
impossvel, sinto-me como se o mundo fosse desabar.
        Assustada com a impetuosidade de suas palavras, Ornella soltou um
murmrio fraco, quase inaudvel. Mas ele ignorou seu frgil protesto e
continuou a falar, com a voz carregada de paixo.
        -- Como viverei longe de voc? Onde arranjarei foras para me privar
de sua beleza, da doura dos seus lbios, de sua voz musical?
        -- Precisamos ser... fortes -- sussurrou ela, hesitando.
        -- Por que isso foi acontecer justo no momento em que deixei de
acreditar na possibilidade de um dia encontrar uma mulher que me amasse
sem egosmo e sem qualquer interesse?
        Nervoso, Darius atravessou a sala com passos firmes, postando-se
prximo a ela.
        --  desse jeito que voc me ama, Ornella?
        -- Voc sabe que sim!
        Num impulso, ele fez meno de tom-la nos braos, mas logo recuou,
passando a mo pelos cabelos.
        Em seguida, virou-se de costas e acrescentou, baixinho:
        -- Ainda pensava em voc quando viajei para Paris, onde me envolvi
num dos meus escndalos habituais. De forma irresponsvel, provoquei uma
situao que poderia levar a um escarcu de propores internacionais. Ento,
pedi Caroline em casamento.
        Como ela no retrucasse, Darius fez uma pequena pausa, antes de
explicar:
        -- Por favor, acredite que nunca fingi amar Caroline. Sempre fui claro
em relao ao que significava esse nosso... arranjo. Ns dois sabamos que se
tratava simplesmente de um acordo amigvel entre duas pessoas adultas,
onde ambas teriam algo a lucrar.
        -- Tenho a impresso de que Caroline gosta muito de voc --
murmurou Ornella, sem convico.
       -- No tente se enganar, meu anjo. Acha que sua prima se casaria
comigo caso eu no tivesse dinheiro nem posio social?
       Envergonhada pela atitude mercenria de Caroline, Ornella baixou a
cabea, sem foras para rebater aquelas palavras.
       -- No se preocupe, Ornella -- disse Darius, percebendo-lhe o
constrangimento. -- Ns dois jogamos limpo o tempo todo... No entanto, no dia
em que voc entrou no salo ao lado de Caroline, minha paz desapareceu.
Naquele instante descobri que sofreria um castigo duro, para pagar lentamente
todas as faltas que cometi.
       -- No me torture! No  possvel que seja... assim!
       -- Mas ser, minha doura...
       -- Para mim, amar algum como voc  uma maravilha impossvel de
descrever em palavras... E o simples fato de saber que voc tambm se
importa comigo compensa todas as dores.
       -- Eu amo voc! Amo voc at o limite da loucura, com uma intensidade
que jamais imaginei ser possvel.
       Como se quisesse fugir de si mesmo, o marqus recomeou a andar de
um lado para outro.
       -- No passado, zombei do amor, julgando-o uma mera criao da
imaginao, uma bobagem capaz de encantar apenas a adolescentes e
malucos. Como eu iria adivinhar que um dia sentiria o que sinto hoje?
       -- Oh, no diga mais nada! Devemos fazer somente o que ... certo.
       -- E voc, meu corao? O que acontecer com voc? Dando de
ombros, Ornella baixou a cabea, sem saber o que responder.
       --  bvio que voc logo encontrar algum que a ame de verdade e
possa faz-la feliz. S no sei como suportarei v-la casada...
       -- Nunca! Nunca me casarei!
       -- Isso no tem sentido! -- exclamou ele, chocado.
       -- Quando admiti para mim mesma que o amava, entendi a razo pela
qual todos os outros homens empalideciam perto de voc... Alm disso, sei
que sou o tipo de pessoa que ama apenas uma vez na vida. Jamais o
esquecerei, Darius, e no acho justo iludir algum.
       -- Como pode dizer uma coisa dessas? Voc  a materializao da
imagem que qualquer homem sonha possuir como mulher. No entende que
precisa se casar e ter filhos?
       -- No, no sou obrigada a faz-lo. Eu no suportaria que outro
homem... me tocasse.
       -- Mas quem cuidar do seu futuro?
       -- Sou capaz de cuidar de mim... e sei como ganhar meu sustento.
       -- Outro volume de O Observador? -- perguntou ele, sorrindo.
       -- Voc... voc adivinhou! -- exclamou Ornella, perplexa.
       -- Ora, minha querida, ainda que as palavras no fossem idnticas s
que voc usou quando discutimos, seu rosto a trairia. Facilmente percebi sua
preocupao na hora em que Henry Grey comeou a ler seus versos em voz
alta.
       -- E no ficou bravo comigo? Quero dizer, no se importa que eu
escreva?
       -- Eu seria incapaz de impedi-la de expor suas idias. Fico orgulhoso de
saber que voc  capaz de se preocupar com os problemas do pas. S no
entendo como, sendo to jovem, tomou conhecimento de tantos sofrimentos.
       -- Caroline no lhe contou sobre o livro de seu pai?
       -- No! Nunca imaginei que o conde fosse escritor e estivesse
preparando um livro.
       -- Na verdade, ele s comeou a escrever quando tomou conhecimento
das condies precrias dos trabalhadores nas minas de carvo. Nessa poca,
travou inmeros contatos, inclusive com William Cobbett.
       -- O reformador? Aquele que foi preso alguns anos atrs, aps
denunciar as torturas contra os rebeldes capturados?
       -- Exato! Em 1817, quando eu e meu tio viemos a Londres, passamos
boa parte do tempo na companhia do sr. Cobbett, que nos contou sobre as
casas de correo e nos mostrou a que ficava na rua Saint Giles. No me
deixaram entrar, mas da carruagem pude ver as inmeras crianas miserveis
que entravam e saam sem parar.
       -- Cobbett levou-a at Saint Giles?! Esse homem devia estar
completamente demente!
       -- Creio que ele nem percebeu que eu existia...
       -- Como assim?
       -- Simples: s o que o interessava era converter meu tio para sua
causa!
       -- Entendo... E, pelo visto, foi bem-sucedido.
       Ornella respondeu com um sorriso, acrescentando:
       -- Depois dessa visita, passamos a receber vrias cartas dele, de Henry
Grey e de outros radicais e reformadores interessados em ajudar meu tio a
coletar material para o livro que pretendia escrever.
       -- E onde se encontram os originais?
       -- Infelizmente, meu tio no conseguiu conclu-los.
       -- Que pena! O mundo deve ter perdido uma boa obra de pesquisa.
       -- Sem dvida! Por isso, tento transmitir um pouco do que aprendi com
ele atravs dos meus poemas, que so fceis de se ler e de se compreender.
       -- No subestime seu trabalho, Ornella. Seus versos conseguiram
causar um grande rebulio, tanto na Cmara dos Comuns quanto na Cmara
dos Lordes.
       -- Verdade?
       --  claro, s que eles nem suspeitam que o autor  uma mulher!
       -- Oh, no quero nem pensar no escndalo que haveria caso
descobrissem a verdade.
       -- O escndalo  o de menos, minha querida. O que me preocupa  a
possibilidade de uma punio.
       -- Tem razo... No entanto, continuarei a escrever.
       -- Nem lhe peo o contrrio. Apenas a aconselho a agir com bastante
discrio, para no correr o risco de ser descoberta.
       -- Claro! Talvez a melhor soluo seja eu me mudar para o campo.
       -- No, por favor. No suporto a perspectiva de perd-la para sempre.
       -- Esse perigo no existe, Darius... Meus pensamentos o
acompanharo a cada momento.
       -- Voc no compreende?
       -- Compreender o qu?
       Com ar desolado, ele a fitou um longo instante, com os braos cados ao
longo do corpo.
       -- Que no posso ficar sem v-la, querida -- afirmou ele com voz rouca.
-- Apesar de no poder toc-la, quero ao menos o consolo de poder v-la, de
ouvir sua voz, de t-la perto de mim.
       -- Tambm desejo tudo isso, Darius. Por essa razo, acho prudente no
nos vermos mais. Mais cedo ou mais tarde, perderamos o controle da
situao, e no quero em hiptese alguma ferir Caroline!
       -- Caroline! Caroline! Ela se intromete entre ns a cada segundo... Oh,
esquea! Eu me descontrolei, pois sei que o nico culpado dessa situao sou
eu mesmo.
       -- Pare de se torturar, isso no tem sentido. Independente de qualquer
coisa, sinto-me a mais feliz das mulheres por t-lo encontrado. Saber que meu
amor  correspondido basta para que o futuro no parea to negro.
       -- Pode ser o suficiente para voc, mas no para mim. Sinto que a vida
ser um vazio desesperador... S posso rezar para no viver muito.
       -- No! No diga isso!
       Num impulso, Ornella avanou at ele e estendeu as mos em sua
direo, num gesto cheio de compreenso e solidariedade.
       Experimentando um misto de alegria e angstia, o marqus olhou-a com
uma expresso enigmtica, antes de sussurrar, roucamente:
       -- No se afaste de mim, Ornella. Sou um simples ser humano, que est
sofrendo um inferno, sem qualquer esperana de voltar a ser feliz!
       Antes que ela pudesse retrucar, Darius deu meia-volta e saiu, batendo a
porta atrs de si.
       Paralisada, Ornella no conseguiu esboar nenhum movimento,
enquanto as lgrimas lhe escorriam abundantemente pelo rosto.
       De repente, teve a sensao de que o cho lhe fugia dos ps e atirou-se
numa cadeira, enterrando o rosto nas mos.
       Sentia a cabea latejar de tanta dor, e no conseguia coordenar os
pensamentos caticos que a assaltavam.
       Aos poucos, foi se acalmando e retomando conscincia da realidade. O
marqus a amava! A coisa que ela mais desejava na vida acontecera... Mas
no havia qualquer esperana para eles no futuro.

       Na tera-feira seguinte, Ornella foi informada de que o marqus
retornara de viagem e j partira para Epsom, onde pretendia adquirir alguns
cavalos novos.
       Desde a conversa que haviam tido naquela tarde, ela no tornara a v-
lo, pois Darius partira para o campo, a fim de recolocar as idias no lugar e
recuperar o autocontrole.
       Apesar de faltarem apenas dois dias para a cerimnia, na Igreja de So
Jorge, em Hanover Square, Ornella no conseguia aceitar a idia de que o
perderia para sempre. Em seu ntimo, uma vozinha persistente aconselhava-a
a conservar as esperanas.
       Entretanto, o bom senso recriminava-a por ser to absurda e lhe
recomendava que esquecesse de vez aquela loucura.
       Por isso, ela se esforava por participar das conversas mantidas pela
prima e pela duquesa.
       Porm, mostrava-se bastante dispersiva, no respondia ao que lhe
perguntavam e aborrecia-se imensamente com as futilidades que as outras
duas discutiam.
       Deprimida por no conseguir disfarar seu estado de esprito, achou que
seria mais prudente isolar-se do convvio com as outras, e comeou a passar
horas interminveis trancada no quarto, ou dando longos passeios solitrios
pelo jardim.
        Durante as noites, tinha o sono agitado e era constantemente assaltada
por pesadelos que a faziam levantar-se com o corao aos saltos e o corpo
banhado de suor.
        Nesses momentos, aproveitando o silncio da madrugada, dava vazo 
sua dor, chorando amargamente e rememorando uma a uma as palavras que
ela e o marqus haviam trocado.
        Um enorme conflito se travava em seu ntimo, dividindo-a entre a
perspectiva de negar seus mais nobres ideais, traindo a prima, e a tristeza que
seria sua vida sem a presena protetora de Darius.
        Entretanto, sabia que jamais teria coragem de provocar a infelicidade de
Caroline. No que a prima o amasse. Pelo contrrio, parecia cada vez mais
entusiasmada pelo embaixador. Mas Caroline jamais se recuperaria do choque
de ver-se posta de lado s portas do altar.
        Portanto, s lhe restava uma sada: aguardar que a cerimnia se
realizasse e, sob um pretexto qualquer, retornar a Morden, deixando o caminho
livre para que os dois noivos tentassem construir urn lar feliz e tranqilo, com
os filhos que logo viriam.
        Guardando absoluta discrio sobre seus planos, ajudou Caroline a
realizar os ltimos preparativos para a cerimnia e se ofereceu mesmo para
ajudar a retocar seu luxuoso vestido de noiva.
        Ocupada nessa tarefa, sobressaltou-se quando uma leve batida  porta
trouxe-a de volta  realidade. Depositou a agulha e as linhas na caixinha de
costura que jazia ao lado de sua cadeira e levantou-se para atender, torcendo
para que no fosse a duquesa.
        -- Ora, por que se trancou  chave? -- perguntou Caroline, envolvida
numa nuvem de perfume francs.
        Com uma aparncia radiante, ela vestia um traje de seda rosa-plido e
exibia um elegante chapu de abas largas.
        -- Oh, por nada. S no gosto de ser interrompida enquanto costuro.
        -- Ah, bom! Minha querida, vou passar o dia fora e gostaria que voc
distrasse a duquesa, impedindo-a de fazer muitas perguntas.
        -- Use a cabea, Caroline! E o marqus?
        -- J me informei de que ele passar o dia inteiro em Epsom,
inspecionando os cavalos.
        -- Deus do cu, voc esquece que vai se casar depois de amanh?
        -- Claro que no! Alis, essa  a principal razo para eu no perder uma
nica chance de ficar a ss com Adelco. Provavelmente, esse ser nosso
ltimo encontro.
        Balanando a cabea em aberta desaprovao, Ornella suspirou fundo,
recomendando:
        -- Por favor, procure ser cautelosa!
        -- No se preocupe. Um amigo de Adelco que mora em Chelsea
emprestou-nos seu apartamento para passarmos o dia. Ele estar viajando e
deu folga aos empregados. Assim, no haver ningum l... Ficaremos
absolutamente sozinhos!
        -- Meu Deus! Voc no deve estar falando srio!
        -- Pelo contrrio... No vejo a hora de encontr-lo longe de tudo e de
todos, sem precisar ficar de olho no relgio a cada cinco minutos.
       Sem lhe dar oportunidade de protestar, Caroline beijou-a no rosto,
pedindo:
       -- Mantenha o velho drago entretido. Vou sair antes que ela comece a
fazer perguntas!
       Ato contnuo, retirou-se do quarto e precipitou-se escada abaixo,
produzindo um alegre farfalhar de seda.
       Desolada, Ornella concluiu que seria melhor procurar a duquesa, antes
que ela comeasse a especular com os empregados sobre o desaparecimento
de Caroline.
       -- Onde foi parar sua prima? J cansei de procur-la -- disse a velha
dama, assim que Ornella entrou na sala de ch.
       -- Ela foi resolver alguns problemas, milady...
       -- Engraado... Por que Caroline no me avisou antes de sair?
       Ornella respondeu com um gesto evasivo, e a outra acrescentou:
       -- Acaba de chegar uma carruagem lotada de presentes de casamento,
que os secretrios esto se desdobrando para listar. Acho que Caroline devia
ao menos dar uma olhada no que ganhou!
       -- Creio que ela anda muito ocupada... Afinal, s vsperas da
cerimnia, h muitos problemas para serem resolvidos.
       -- Ora, como voc sabe? -- indagou a duquesa, num tom de sarcasmo.
       Embora Ornella no respondesse s provocaes, a duquesa continuou
a tecer comentrios desagradveis e crticas durante o resto da manh. Para
piorar, ordenou que o almoo fosse servido mais cedo, pois pretendia visitar
uma amiga em Hampstead e queria que Ornella a acompanhasse.
       Ainda que a contragosto, Ornella trocou de roupa rapidamente e postou-
se no hall  espera da duquesa. Via de regra, detestava as amigas da velha
senhora e no sentia o menor desejo de conhec-las. Apesar disso, vestira-se
de modo apurado, escolhendo um traje de tarde azul-plido, com detalhes
prateados, e chapu do mesmo tom.
       Usava tambm luvas rendadas e sapatinhos brancos de cetim, que a
faziam parecer uma fada.
       Por volta de uma hora, a duquesa, enfiada numa vistosa capa de viagem
de cor violeta, desceu a escada, carregando um pequeno embrulho nas mos.
       Reparando que o pacote parecia conter um livro, Ornella ficou
imaginando que tipo de presente a duquesa estaria levando para sua amiga.
       No instante seguinte, Willand entrou, anunciando que a carruagem j as
aguardava diante do palcio. Aps uma pequena reverncia, coaduziu-as at o
veculo.
       Quando chegaram ao jardim, a duquesa parou de sbito e, apontando
para um landau luxuoso, cochichou no ouvido de Ornella:
       -- Aquele landau estacionado ali na esquina pertence a uma velha
amiga, a condessa de Berrington. Ser que voc poderia fazer a gentileza de ir
at l entregar-lhe este presente?
       Visivelmente surpresa, Ornella fitou-a de modo interrogativo, e ela se
apressou em explicar:
       -- A condessa teve um desentendimento com meu neto e jurou que
nunca mais colocaria os ps em Ryde House... Se eu no fosse to velha e
conseguisse andar depressa, iria v-la pessoalmente.
       Sem lhe dar chance de perguntar nada, colocou o pequeno embrulho
em suas mos.
       -- Por favor, v correndo, seno nos atrasaremos. Diga  minha amiga
que a espero no casamento.
       Embora achasse estranho, Ornella deu de ombros e correu at o landau,
ansiosa por se livrar logo da tarefa.
       Ao lado do veculo, um lacaio usando libr colorida estava parado, com
a mo pousada na maaneta da porta. Assim que a viu, curvou-se numa
reverncia, com o chapu encobrindo-lhe boa parte do rosto, e abriu a porta.
       Ornella agradeceu com um sorriso e inclinou-se para dentro do landau, a
fim de falar com a condessa.
       Estranhou que as cortinas estivessem cerradas, mergulhando tudo na
mais completa escurido, mas comeou a dizer:
       -- A duquesa pediu-me que...
       De repente, sem saber como, viu-se violentamente empurrada para
dentro da carruagem.
       Assustada, no conseguiu sequer protestar quando a porta foi fechada
com estrondo e o veculo se ps em movimento.
       Atordoada pelo choque, Ornella ficou imvel durante alguns instantes,
incapaz de atinar com o que acontecera.
       Sentia o corpo todo dolorido, devido  brutalidade com que fora tratada,
e teve dificuldade para equilibrar-se e se acomodar no assento.
       Com pnico crescente, constatou que se encontrava sozinha e que os
cavalos ganhavam uma velocidade cada vez maior.
       -- Parem, por favor... Houve um engano... parem... -- gritava, batendo
desesperadamente na parede que a separava da bolia.
       Ao perceber que seus protestos no obtinham resposta, abriu uma das
cortinas que encobriam a pequena janela. A luz da tarde invadiu o ambiente, e
ela foi obrigada a piscar repetidas vezes at seus olhos se acomodarem de
novo  claridade.
       Ento, com o corao acelerado, examinou o interior do landau.
       Pintado de preto, com frisos dourados, era muito luxuoso e dispunha de
estofamento de couro. Sobre um dos bancos, refletindo a luz do sol, um brazo
banhado em ouro denunciava seu proprietrio: lorde Rotherton! Ornella
percebeu ento que ele se fizera passar por um criado, e agora dirigia
pessoalmente a carruagem.
       Perplexa diante dessa descoberta, sentiu que seu corao gelava,
paralisando-a de puro pavor.
       Os cavalos seguiam a uma velocidade alucinante, e o rudo produzido
por seus cascos contra o asfalto abafava qualquer outro som, o que tornava
seus gritos inteis.
       Tremendo dos ps  cabea, tentou girar as maanetas, mas elas no
se moviam. Alm disso, mesmo que abrisse uma das portas e saltasse, sem
dvida a queda seria fatal, por causa da grande velocidade.
       Assim que conseguiu se localizar, deu-se conta de que lorde Rotherton
fora perspicaz ao elaborar o roteiro que fariam. Escolhera apenas ruas de
pouco movimento, nas quais no causariam estranheza.
       Em funo disso, ela colocou de lado a sua idia de chamar a ateno
de algum transeunte. Mesmo que o conseguisse, nada poderia ser feito, uma
vez que ningum ousaria interceptar a passagem de uma carruagem
pertencente  nobreza.
       Tentou se acalmar e refletir com objetividade sobre aquela situao.
       Quando a apresentara a lorde Rotherton, a duquesa lhe informara que
se tratava de um nobre respeitvel, amigo do marqus... Portanto, era bem
capaz que ele a tivesse raptado somente para assust-la, pressionando-a a
aceitar seu pedido de casamento.
       Talvez, com um pouco de tato, Ornella o convencesse de sua negativa,
e ele a levasse de volta em segurana...
       Enterrando o rosto nas mos, ela disse a si mesma que no adiantava
se iludir. Lorde Rotherton no recuaria diante de nada para possu-la e
tampouco sentiria remorsos se a fizesse infeliz.
       Alis, como ele prprio afirmara em Carlton House, desejava Ornella e
faria dela sua esposa... ou amante, a qualquer preo.
       Cega de raiva, Ornella maldisse a hora em que se deixara enganar pela
maquiavlica duquesa.
       Caroline tinha razo! A velha aristocrata s se preocupava com os
cifres e, na certa, estava sendo bem recompensada por sua conivncia.
Cnica como era, sem dvida inventaria uma histria convincente para justificar
a "fuga" de Ornella, apostando que, depois de tudo consumado, a jovem no
teria coragem de revelar a verdade a ningum.
       Afinal, quem duvidaria que ela tivesse mudado de idia, resolvendo
aceitar a proposta do conde e optando por uma cerimnia secreta, para no
atrapalhar o casamento da prima?
       Ningum, exceto uma pessoa: o marqus! Mas como Darius poderia
ajud-la, sem saber onde encontr-la?
       Inconformada com a terrvel armadilha em que fora envolvida, Ornella
cedeu  curiosidade e abriu o pacote que a duquesa lhe entregara.
       O mao de papis em branco que encontrou, longe de escandaliz-la,
apenas confirmou a suspeita de que a duquesa tivera uma participao direta
no plano. Sem se limitar a ser uma mera colaboradora, devia ter planejado
minuciosamente todos os detalhes do rapto, escolhendo a hora e o local onde
tudo se concretizaria.
       Recostando-se, Ornella tentou relaxar, consciente de que s seria capaz
de encontrar uma sada caso mantivesse a calma e o bom senso. Respirou
fundo e, inclinando-se um pouco, ps-se a observar a paisagem.
       Os cavalos prosseguiam em ritmo frentico e tinham abandonado h
muito a cidade.
       Agora, as casas escasseavam cada vez mais, e imensas reas
cultivadas se estendiam ao longo da tortuosa estrada que percorriam.
       Na certa, lorde Rotherton pretendia chegar  sua propriedade de campo,
em Guildford, antes do anoitecer. Ela sabia que a cidade ficava distante de
Londres, o que o obrigaria a mudar os cavalos no meio do trajeto, quando
talvez Ornella conseguisse fugir. E se ele no estivesse indo para Guildford?
       Apreensiva com essa possibilidade, comeou a observar atentamente a
paisagem, na esperana de que uma placa no meio da estrada lhe indicasse a
direo que seguiam.
       Em pouco tempo a viso maravilhosa daqueles campos frteis
transportou-a para sua tranqila Morden. L passara os melhores anos de sua
vida, num lugar pacato, onde todos se conheciam. As pessoas simples de
Morden, ao contrrio das grandes elites, respeitavam-se e jamais seriam
capazes de prejudicar o prximo. Em vez disso, cultivavam uma forte
solidariedade, que os aproximava e os ajudava a superarem juntos as
dificuldades impostas pela vida.
        Imersa nessas reflexes, Ornella sobressaltou-se quando leu numa
placa: "Epsom". Era para l que o marqus fora pela manh.
        De repente, uma pequena alegria insinuou-se em seu ntimo. E se lorde
Rotherton planejasse trocar os cavalos em Epsom?
        O marqus devia ser bastante famoso na cidade, e, com um pouco de
sorte, Ornella encontraria algum disposto a ajud-la.
        No entanto, suas esperanas logo morreram. Em vez de entrar na via
secundria que conduzia a Epsom, o landau continuou na estrada principal.
        Sua situao tornara-se angustiante ao extremo, e Ornella sentia os
nervos em frangalhos. Quanto tempo ainda ficaria naquela corrida louca, sem
saber o que a aguardava e para onde se dirigia?
        De uma coisa, porm, tinha certeza: no poderia esperar nenhum tipo
de clemncia por parte de seu raptor. Desde o incio, sua intuio a prevenira
de que precisava evitar a proximidade daquele homem, que reunia em si toda
sorte de maldades e vcios.
        Com um estremecimento, ela imaginou aquelas mos repugnantes
percorrendo seu corpo delicado.
         beira do desespero, procurou pela ensima vez uma forma de fugir,
mas no lhe ocorreu nada.
        Enojava-a a possibilidade de ser tocada por lorde Rotherton, e ela
preferiria morrer a chegar a uma situao degradante como aquela.
        Esforando-se por manter o pouco de sangue-frio que lhe restava, rezou
com fervor, buscando em Deus uma resposta.
        -- Ajude-me, meu Deus! Por favor, ilumine-me, indicando-me como
escapar desse homem. Mesmo que meu amor pelo marqus seja um
sentimento errado, a violao que lorde Rotherton pretende me infligir seria a
maior degradao que uma mulher conseguiria suportar... Seria a
ridicularizao de tudo o que  belo e sagrado no amor. Ajude-me, por favor,
meu Deus!
        O landau balanava-se de um lado para outro enquanto corria
desabaladamente pela estrada de terra, deixando atrs de si nuvens de poeira
avermelhada.
        Olhando para fora, Ornella deduziu que ainda levariam muito tempo para
chegar a um lugar onde pudessem trocar os cavalos.
        De repente, estranhou que lorde Rotherton dirigisse o landau
pessoalmente, em vez de entreg-lo a um cocheiro hbil, ficando livre para
fazer a viagem ao lado dela.
        Ser que ele tinha alguma razo especial para lev-la, o mais depressa
possvel,  sua casa? Ou, por uma dessas contradies humanas, desejava
impression-la com sua habilidade no comando dos cavalos?
        Sem dvida, poucos homens conseguiriam obter tamanha velocidade e,
ainda por cima, manter o controle das rdeas com tanta segurana.
        Ao mesmo tempo, apenas um louco trancaria a mulher que dizia amar
durante uma viagem de mais de duas horas, num veculo que sacolejava
incessantemente.
        Afinal, qualquer tolo seria capaz de prever que sua vtima entraria num
estado de verdadeira histeria, diante de tal tratamento. Alm disso, no era
necessrio tanta violncia para imobilizar uma pessoa delicada como ela, a
menos que a inteno dele fosse exatamente essa: deix-la em tal estado de
desespero, que Ornella perdesse por completo a noo das coisas e no
tivesse condies de resistir.
       Claro! No devia ser outra coisa. Por isso tornava-se fundamental
manter a calma e fingir tranqilidade, a fim de desconcert-lo.
       Entretanto, venc-lo atravs desse mtodo lhe parecia quase
impossvel, quando considerava a hiptese de ser tocada por ele. A bem da
verdade, Ornella sabia que morreria de desgosto caso no pudesse evit-lo.
       Com um esforo sobre-humano, conseguiu acalmar a onda de pnico
que se desencadeara dentro dela.
       Logo, como uma imagem que viesse de muito longe, recordou-se do
marqus.
       Se pelo menos conseguisse avis-lo do que se passava... Tinha certeza
de que Darius arranjaria uma forma de intervir, pondo um fim quela tortura.
       Aos poucos, lembrou todas as vezes em que ele a salvara, devolvendo-
lhe a paz e a segurana que ela julgara perdidas.
       No dia em que o encontrou observando o lago em Carlton House, tivera
a sensao de estar chegando a um porto tranqilo, aps uma tempestade em
alto-mar.
       No instante seguinte, como se a simples lembrana do marqus a
reavivasse, sentiu um novo nimo invadi-la. O amor que os unia era a nica
coisa que podia faz-la lutar com todas as suas foras, e Ornella agarrou-se a
esse sentimento, como um nufrago  tbua de salvao.
       -- Eu amo voc, Darius. Venha em meu socorro, pois no suportarei
que outro homem me toque -- murmurou ela, cerrando os punhos.
       Uma incrvel sensao de tranqilidade a invadiu, e Ornella fechou os
olhos. Por incrvel que parecesse, seu medo desaparecera por completo,
deixando no lugar a certeza de que tudo acabaria bem.
       Depois de um longo tempo, a carruagem diminuiu o passo, e ela abriu
os olhos, esperanosa.
       Entravam num minsculo povoado de aspecto pitoresco, cujas estreitas
ruas de terra exibiam casas modestas. No havia quase ningum nas ruas, e
alguns cachorros latiam  passagem do veculo.
       Dobrando uma esquina, o landau chegou ao que deveria ser a rua
principal da cidade, uma via larga, calada de pedras. Ali as casas tinham uma
aparncia mais requintada e misturavam-se a alguns prdios de dois pisos, que
pareciam pertencer a comerciantes.
       Passado o largo da igreja, avistava-se uma estalagem com estrebaria
anexa.
       Assim que estacionaram, Ornella apurou a viso e leu a placa de
madeira que balanava ao vento: "A guia de Asas Abertas".
       E ento, numa sbita inspirao, soube o que devia fazer.


                                CAPTULO X


       Convencido de que batera o recorde de tempo no trajeto de Londres 
cidadezinha vizinha de Epsom, lorde Rotherton desceu da bolia com um
sorriso satisfeito nos lbios. Afinal, fora bem-sucedido em seu projeto de
ludibriar o marqus de Ryde, e transformaria Ornella em sua esposa dentro de
algumas poucas horas.
        E ento, quando ela lhe pertencesse legalmente, nada nem ningum
poderia ameaar sua felicidade.
        Por sorte, tudo havia transcorrido de acordo com seus planos, pensou,
enquanto observava os cavalos banhados de suor, que seriam substitudos por
quatro puros-sangue descansados.
        Com um leve movimento de cabea, indicou a um criado que abrisse a
porta da carruagem. Assim que o lacaio destravou a fechadura, o conde
adiantou-se, escancarando-a.
        Durante um momento, olhou incrdulo para o interior da carruagem,
perguntando-se como Ornella conseguira fugir. Mas logo a avistou cada no
cho, com a cabea apoiada no assento, os cabelos em desalinho e as
plpebras cerradas.
        -- Est doente?
        Simulando dor, ela entreabriu os olhos para, em seguida, tornar a fech-
los.
        -- Acho que foi o balano da... carruagem -- murmurou ela, numa voz
quase inaudvel. -- Sinto-me... enjoada. Por favor... preciso me deitar... por
alguns. .. instantes.
        -- Francamente! Como eu poderia prever uma coisa dessas?
        Ornella no retrucou, limitando-se a emitir um fraco gemido.
        -- Muito bem! Vou lhe dar dez minutos para descansar. Creio que uma
dose de conhaque tambm lhe far bem.
        Dito isso, estendeu os braos e enlaou-a pela cintura, ajudando-a a
descer do landau. Em seguida dirigiu-se para o interior da estalagem, onde um
homem de bigode os recebeu com vrias reverncias.
        Percebendo a expresso de espanto com que o estalajadeiro olhava
para Ornella, explicou num tom spero:
        -- Esta senhorita sente-se indisposta. Leve-a para o melhor quarto e
sirva-lhe uma dose de conhaque imediatamente!
        -- Est bem, milorde. Tomarei todas as providncias.
        Ato contnuo, foi at uma porta lateral e chamou:
        -- Molly! Venha j aqui.
        No mesmo instante surgiu uma jovem corada, usando touca e avental
brancos sobre um vestido estampado.
        Aps ouvir as instrues do patro, ela abraou Ornella pela cintura e
ajudou-a a subir a escada de madeira que conduzia ao andar superior. Depois,
levou-a at um quarto espaoso e bem iluminado, que dava vista para o jardim.
        Assim que entraram no aposento, Ornella livrou-se do brao de Molly e,
virando-se com incrvel rapidez, trancou a porta atrs delas.
        -- Preciso de sua ajuda!
        Surpresa, a moa no conseguiu emitir uma nica palavra, limitando-se
a balanar a cabea, num gesto de assentimento.
        -- Estou sendo raptada por esse cavalheiro, e quero que voc
providencie algum que leve um bilhete at as cocheiras do marqus de Ryde!
Sabe onde ficam?
        -- No, milady. Mas Jim deve saber.
        -- Quem  Jim?
        --  o garoto que trabalha na cocheira.
       Sem perder tempo, Ornella acomodou-se  penteadeira, tirando de
dentro da bolsa um pedao de papel e o estojo de maquilagem que Caroline
lhe dera de presente.
       Com gestos decididos, abriu-o e pegou o lpis de sobrancelhas, com o
qual escreveu:

       "Darius:
       Lorde Rotherton me raptou e me leva para sua propriedade perto de
Guildford. Encontro-me agora na hospedaria A guia de Asas Abertas.
       Por favor, salve-me!
       Ornella".

       Dobrando o papel em quatro, endereou-o ao marqus de Ryde e
entregou-o a Molly, que a fitava, atnita.
       -- D isto a Jim -- pediu, abrindo a bolsa e estendendo-lhe uma moeda
de ouro. -- Diga a ele que receber outro soberano se for rpido ao encontro
do marqus.
       -- Tenho certeza de que ele achar o marqus... Isto  um bocado de
dinheiro para Jim!
       -- E aqui est a mesma quantia para voc -- disse Ornella, depositando
outra moeda nas mos da moa.
       -- Oh, milady,  mais do que eu ganharia em meses de trabalho. Muito
obrigada.
       Entusiasmada, a jovem correu para a porta, pronta para sair, mas parou
ao ouvir a voz de Ornella.
       -- Espere um momento. Explique a Jim que ele no deve, em hiptese
alguma, deixar algum ver esse bilhete, e tampouco pode dizer aonde vai.
Pea-lhe tambm que corra,  da maior importncia!
       -- Fique tranquila, milady.
       -- Se algum dos cavalheiros perguntar por mim, faa de conta que estou
muitssimo doente.
       -- Tudo bem, milady.
       Quando Molly se retirou, deixando-a sozinha, Ornella lavou as mos e o
rosto numa bacia e deitou-se.
       Rezando baixinho, pedia a Deus que Jim encontrasse o marqus. Sabia
que Darius no pouparia esforos para salv-la e, bem no ntimo, acreditava
que tudo acabaria dando certo.
       Fechando os olhos, apurou os ouvidos, escutando as vozes que vinham
do trreo. Percebeu que o conde estava exaltado e sorriu, satisfeita consigo
mesma.
       Minutos mais tarde, o barulho de passos na escada deixou-a
sobressaltada. Abandonando os braos ao longo do corpo, recomeou a gemer
baixinho.
       Ao notar que se tratava de Molly, que entrava no quarto, carregando
uma bandeja de prata, suspirou aliviada e sentou-se.
       Com um sinal, pediu  moa que se aproximasse e perguntou, num
sussurro:
       -- Est tudo bem? Jim compreendeu o que precisava fazer?
       -- Sim. Ele conhece as cocheiras do marqus de Ryde e partiu a todo
galope, milady. Garantiu que no levaria mais do que alguns minutos para
chegar at l.
        -- timo! Muito obrigada.
        -- Mas... o cavalheiro l embaixo disse que chegou a hora de partirem.
        -- Nesse caso, desa e diga que estou to doente que voc acha
aconselhvel chamar um mdico.
        -- Farei isso, milady... S duvido que ele me d ouvidos.
        -- Pelo menos, no custa nada tentar.
        A moa saiu e, minutos depois, Ornella ouviu os passos de lorde
Rotherton subindo a escada.
        -- O que h com voc? -- perguntou ele, invadindo o quarto. -- Um
enjo de viagem nunca fez mal a ningum! Vamos embora, Ornella! O pastor
est esperando para nos casar.
        -- O... pastor? -- repetiu ela, hesitante.
        -- Exato! Nunca vi uma mulher que no se sentisse melhor com um anel
de noivado no dedo.
        -- Oh, milorde, j lhe disse que... no desejo... me tornar sua esposa...
        -- Mas eu quero me casar com voc. Vamos! Haver tempo de sobra
para voc descansar depois da cerimnia, Ornella.
        Antes que ela pudesse protestar, ele percorreu vagarosamente seu
corpo com o olhar e, com a voz rouca de desejo, acrescentou:
        -- Isto , se eu permitir que voc durma...
        Compreendendo a insinuao que havia atrs dessas palavras, Ornella
estremeceu, encolhendo-se.
        -- Pretende ir andando at a carruagem, ou prefere que eu a carregue
nos braos?
        -- Vou andando -- afirmou, depressa. Percebendo que a doena dela
no passava de um pretexto, lorde Rotherton soltou uma gargalhada.
        -- Continua fugindo, Ornella! -- exclamou suavemente. -- Desista.
Agora  tarde demais, e eu j tinha avisado que sempre consigo o que quero.
        Furiosa, ela se levantou e colocou o chapu.
        -- Jamais imaginei que um cavalheiro pudesse se comportar de maneira
to desprezvel com uma mulher sozinha e indefesa, milorde.
        -- Lembre-se de que vou me casar com voc. Outros homens talvez
no lhe oferecessem sequer isso.
        -- Se espera que eu aceite ser sua esposa, est completamente
enganado!
        -- Duvido que repita essas palavras daqui a algumas horas.
        Compreendendo a ameaa que havia nessas palavras, Ornella deu
meia-volta e saiu do quarto.
        Logo ele a alcanou e, segurando-a pelo brao, conduziu-a at o landau.
        Os cavalos j haviam sido substitudos, e um cocheiro, usando chapu
alto, ocupava a bolia.
        Com firmeza, lorde Rotherton obrigou-a a entrar no veculo e acomodou-
se a seu lado.
        Sem perder tempo, um lacaio trancou a porta e pulou para a bolia.
        Desfalecida, Ornella recostou a cabea e cerrou os olhos, perguntando-
se quanto tempo Jim levaria para encontrar o marqus.
        Com um sobressalto, imaginou o que faria caso Darius j houvesse
partido de volta para Londres...
         simples idia de que isso podia acontecer, Ornella aprumou-se no
assento, observando que o landau j deixara o povoado para trs e avanava a
todo galope pela estrada principal.
        Evitando olhar na direo do conde, no percebeu quando ele se
inclinou e estendeu os braos em sua direo.
        -- No me toque! -- gritou, assustada, ao sentir as mos dele em seus
ombros.
        -- To corajosa, mas to ineficiente -- zombou ele, sorrindo.
        Ignorando os murros e pontaps que Ornella desferia a torto e a direito,
na intil tentativa de libertar-se, o conde pressionou seus lbios contra os dela.
        Desesperada, ela se debatia freneticamente, procurando de algum modo
machuc-lo, mas sem conseguir.
        Considerava repugnante o fato de se ver forada a beijar algum, e todo
o seu corpo se rebelava contra isso.
        De repente, teve a impresso de que tudo escurecia  sua volta e
pensou que fosse desmaiar. Mas uma freada brusca da carruagem trouxe-a de
volta  realidade.
        Praguejando, lorde Rotherton tentou distinguir as vozes que discutiam
do lado de fora e libertou-a.
        Suspirando, aliviada, Ornella deslizou para o lado oposto do banco, fora
do alcance daquelas mos que queriam mant-la cativa.
        -- Com licena, milorde... -- comeou o lacaio, abrindo a porta da
carruagem.
        -- Com os diabos, o que aconteceu?
        -- Dois cavalheiros parados na estrada insistem em que precisam
conversar com o senhor.
        -- Mande-os para o inferno! No quero falar com ningum! Toque para a
frente!
        -- Acho melhor atender-nos, Rotherton.
        Ao reconhecer a voz do marqus, Ornella deu um grito de alegria. Sua
intuio no a enganara. Darius fora salv-la, e agora no havia mais nada a
temer.
        -- Ryde! Esse maldito no conseguir estragar meus planos --
murmurou o conde, cerrando os punhos.
        -- Venha aqui, Rotherton. Quero falar com voc -- insistiu o marqus,
num tom furioso.
        Aps uma breve hesitao, o conde sorriu de modo enigmtico,
concordando:
        -- Muito bem, Ryde. Sairei para ouvi-lo.
        Dito isso, levantou o assento do banco da frente, revelando uma espcie
de esconderijo, de onde tirou uma pequena pistola.
        Rapidamente, engatilhou-a e preparou-se para descer.
        Adivinhando suas intenes, Ornella soltou um grito de horror no exato
momento em que lorde Rotherton apontava a arma na direo do marqus.
        -- Cuidado! Cuidado, Darius!
        Com reflexos rpidos, o marqus pulou para o lado, fazendo com que
lorde Rotherton errasse o tiro. Em seguida, dando mostras de incrvel agilidade,
arrancou-o para fora do veculo e, torcendo-lhe o brao para trs, obrigou-o a
soltar a pistola.
        Ainda sem larg-lo, desferiu-lhe um soco violento no queixo.
        O conde caiu de joelhos, de cabea baixa, com o sangue escorrendo
pelo canto dos lbios. De repente, porm, levantou-se de um salto e, como um
animal enfurecido, jogou-se contra o adversrio.
       Mais uma vez, Darius atingiu-o com um soco. Agora, tanto a boca como
o nariz de lorde Rotherton sangravam, sujando o peitilho de sua elegante
camisa rendada.
       Lvido de raiva, ele tornou a se levantar, parecendo insensvel os golpes
certeiros do marqus.
       No entanto, com a habilidade de um lutador treinado, Darius preparou os
punhos e, pela terceira vez, desfechou um murro violentssimo no rosto de
Rotherton.
       Novamente o conde caiu na poeira, com a respirao ofegante.
       Puxando-o pelo colarinho, Darius obrigou-o a ficar de p.
       -- Voc no vai se livrar disso facilmente, crpula!
       Em seguida, comeou a esmurr-lo repetidas vezes, indiferente ao
sangue que jorrava do nariz e da boca de Rotherton.
       Descontrolado, s parou no momento em que o conde caiu, com o rosto
voltado para a poeira da estrada, num estado de inconscincia absoluta.
       Nesse instante, o cavalheiro que o acompanhava desmontou e tocou-lhe
o brao.
       -- Chega, Darius!
       -- Ah, no! Vou matar esse idiota!
       -- E que explicao daria depois? Alm do mais, Rotherton est
acabado. Ele atirou num homem desarmado, o que  imperdovel. Juro que
me empenharei para que ningum converse com ele no futuro.
       -- Se eu tornar a v-lo, garanto que terminarei o trabalho que voc est
me impedindo de completar hoje.
       O rapaz ia retrucar, mas foi interrompido pelo rudo de uma carruagem
preta e amarela que chegava, puxada por quatro cavalos puros-sangues,
recortando-se contra o sol daquele fim de tarde.
       Com expresso apreensiva, o marqus dirigiu-se  porta do landau,
onde Ornella, em p no degrau, o aguardava.
       Em silncio, ele examinou-lhe o rosto plido, os cabelos em desalinho e
a expresso assustada.
       -- Sente-se bem, Ornella?
       Balanando a cabea de modo afirmativo, ela o fitou nos olhos,
murmurando, emocionada:
       -- Graas a Deus, voc veio!
       -- Est em condies de viajar na minha carruagem?
       -- Claro que sim.
       Ao ouvi-la, Darius envolveu-lhe a cintura com os braos, conduzindo-a
at a carruagem.
       Acomodou-a no assento de couro e virou-se para o criado, ordenando:
       -- Monte o Trovo e venha atrs de ns, Harris.
       -- Est bem, milorde.
       -- Obrigado, Charlie -- disse Darius, virando-se para o homem que o
acompanhava. -- Fiquei muito agradecido por sua ajuda.
       -- Ora, no foi nada, meu velho.
       Despedindo-se com um aceno, Darius ps o veculo em movimento,
sem sequer olhar o corpo estendido na poeira da estrada.
       Mal acreditando que aquilo no fosse um sonho do qual acordaria de
uma hora para outra, Ornella sentia-se incapaz de articular uma palavra.
       Compreendendo sua necessidade de reordenar as idias, Darius
tambm se manteve em silncio durante boa parte do trajeto.
       -- Aquele canalha machucou voc? -- perguntou ele, por fim.
       Compreendendo perfeitamente a que ele se referia, Ornella negou com
um gesto de cabea.
       -- No... Ele guiou os cavalos pessoalmente... at chegarmos... ao
povoado...
       Um suspiro de alvio escapou dos lbios do marqus, mas ele no fez
mais nenhuma pergunta. Com absoluta segurana, conduzia a carruagem
atravs da estrada, desviando-se dos buracos e elevaes, a fim de evitar que
o veculo sacolejasse, incomodando Ornella.
       O pequeno povoado onde ela conseguira ajuda logo ficou para trs,
como uma lembrana ruim que se enterra para sempre. Epsom tambm
passou, e mais duas ou trs vilinhas modestas, onde crianas de ps
descalos saam, curiosas,  rua para ver o elegante veculo preto e amarelo.
       Experimentando uma incrvel tranqilidade, ela se espantou quando
Darius, desviando-se da estrada principal, entrou numa cidadezinha
movimentada.
       -- Creio que seria bom tomarmos um pouco de vinho -- explicou ele,
estacionando diante de uma taverna branca com gradis vermelhos.
       -- Como posso servi-lo, milorde? -- disse um homem magro que saa
do estabelecimento e ordenava a um criado que cuidasse dos cavalos.
       Aps ajudar Ornella a descer, o marqus trocou algumas palavras com o
taverneiro e fez sinal a Harris, que os acompanhava no garanho negro, para
que apeasse.
       Com uma reverncia, o homem magro conduziu-os a uma pequena sala,
onde o marqus encomendou vinho e queijos.
       Muito solcito, o homem anotou o pedido e retirou-se, deixando-os a ss.
       -- E... Harris? -- perguntou ela.
       -- Deve estar nos estbulos, cuidando dos cavalos...
       No momento seguinte, um silncio se formou entre eles e, como se uma
fora poderosa os atrasse, seus olhares se encontraram, revelando tudo o que
se passava em suas almas.
       Cedendo a um impulso irresistvel, Ornella atravessou a sala e se
aproximou do marqus. Timidamente, estendeu a mo em sua direo, incapaz
de avaliar o que sua atitude representava.
       Com um gemido rouco, Darius puxou-a para junto de si, envolvendo-a e
obrigando-a a recostar a cabea contra seu peito musculoso.
       -- Tive tanto medo de que o conde o matasse -- murmurou ela,
emocionada.
       Em resposta, os braos do marqus apertaram-na ainda mais,
desejosos de lhe transmitir conforto e segurana.
       -- Graas a Deus, seu grito salvou minha vida, Ornella. E acredito que
ainda no era minha hora de morrer, pois voc precisava de mim.
       -- Rezei tanto para que voc viesse...
       -- Oh, meu anjo, alguma coisa em meu ntimo me dizia que voc corria
perigo. Passei o dia com uma ansiedade inexplicvel, sentindo que algo no
corria bem. Vrias vezes tive vontade de retornar a Londres para verificar se
voc estava bem.
       -- Talvez... minhas vibraes tenham chegado at voc. Desejei sua
presena to intensamente, que devo ter lhe transmitido a sensao de que o
chamava.
       Com uma urgncia incontrolvel, ele apertou-a contra si, ansioso por
sentir o calor daquele corpo frgil e delicado que tremia de encontro ao seu.
       -- Ornella, venha comigo! Ns fugiremos e nos casaremos no exterior...
Sei que falaro muito sobre isso, mas, quando voltarmos  Inglaterra, todos os
mexericos j tero cado no esquecimento.
       Sobressaltada, Ornella afastou-se dele, de cabea baixa. Em seu ntimo,
idias confusas se misturavam, e emoes contraditrias a assaltavam.
       De um lado, sentia um desejo crescente de desfrutar do calor daquele
corpo forte, da presena inconfundvel daquele homem... De outro, a imagem
de Caroline, to estouvada e infantil, a acusava de traio.
       Sem dizer nada, ela caminhou at a parede oposta e observou a lareira
de pedras, onde um fogo fraco crepitava.
       -- E... Caroline? -- perguntou, sem encar-lo.
       -- Talvez ela sinta o orgulho ferido, mas no sofrer muito. Com toda
certeza, buscar consolo nos braos do embaixador ou de algum parecido
com ele.
       Com uma exclamao de assombro, ela se virou e fitou-o nos olhos.
       -- Ento voc sabia?
       -- Lgico! Acha que sou ingnuo a ponto de me deixar enganar pelo
teatro amadorstico que Caroline e Savelli armaram?
       -- E voc no ficou... zangado... com ela?
       -- Zangado?! Quem sou eu para julgar Caroline? Ela pode ter dado os
lbios para o embaixador, mas eu, minha querida, entreguei a voc meu
corao e minha alma.
       Desviando o olhar, ele acrescentou:
       -- No que valham muita coisa...
       -- Para mim valem... tudo neste mundo.
       Emocionado, o marqus caminhou para ela com os braos estendidos,
mas parou ao ouvir que a porta se abria, dando passagem ao estalajadeiro.
       Com uma reverncia respeitosa, o homem depositou uma tbua de
queijos sobre a mesa, alm de uma garrafa de vinho tinto e duas taas.
       -- Pode se retirar. Ns mesmos nos serviremos -- disse Darius. -- No
queremos ser perturbados.
       -- Cuidarei disso, milorde.
       Assim que o homem se retirou, Ornella caminhou at a janela em arco e
ps-se a admirar o lindo jardim que havia nos fundos da taverna. Alguns
poucos pssaros cantavam, quebrando o silncio da tarde, e parecia no existir
nada capaz de perturbar a paz daquele momento.
       Numa repentina resoluo, Ornella virou-se e fitou Darius de modo
carinhoso.
       -- Esta ser a nossa primeira refeio juntos, milorde. Estamos
completamente a ss... Por que no fingimos durante alguns instantes que
somos duas pessoas descomprometidas que se encontraram... e querem se
conhecer melhor?
       Aps uma breve pausa, ela continuou:
       -- Vamos fazer de conta que nada ameaa nossa felicidade... E que o
dia de hoje ser eterno.
       A nota de apelo que havia em sua voz era to irresistvel, que Darius
no hesitou.
       -- Sim, minha querida. Existe apenas este momento e duas pessoas
muito apaixonadas, Ornella!
       Tomando-lhe as mos delicadas entre as suas, ele depositou um beijo
em cada uma das suas palmas.
       -- Suas mos so to pequenas -- murmurou com carinho --, mas
contm tudo o que vale a pena desejar.
       Ornella sorriu timidamente em resposta, e ele levou-a at a mesa.
       Depois de ajud-la a sentar-se, acomodou-se ao lado dela e comeou a
falar dos seus cavalos, das corridas que pretendia ganhar em Ascot e dos
planos que tinha para o prximo ano.
       Descontrada, ela lhe contou sobre o desejo que os editores haviam
mostrado de publicar outro livro seu e discorreu a respeito dos assuntos que
pretendia abordar.
       Preocupados em desfrutar ao mximo daquele raro momento de
intimidade, os dois mal prestaram ateno  comida.
       Ao final da refeio, Darius serviu-se de mais uma taa de vinho e, aps
saborear um longo gole da bebida, recostou-se no espaldar alto da cadeira,
com as mos cruzadas sobre a mesa.
       Fitou-a com uma expresso sria e declarou:
       -- Agora, minha querida, quero que me conte o que aconteceu. Sei que
o assunto lhe desagrada, mas preciso descobrir toda a verdade.
       -- No podemos simplesmente esquecer isso?
       -- Em absoluto, Ornella! Preciso que confie em mim.
       -- Est bem. Ento oua-me.
       Escolhendo bem as palavras, Ornella contou-lhe resumidamente tudo o
que acontecera, desde o momento em que a duquesa lhe pedira para ir ao
landau de lorde Rotherton, enganando-a, at os instantes finais, quando sara
apreensiva da guia de Asas Abertas, ansiosa por descobrir se ele chegaria a
tempo de salv-la, ou se j havia voltado a Londres.
       O marqus no a interrompeu nem uma vez, escutando-a imvel. A
nica coisa que traa sua raiva era o ricto de dio que de quando em quando se
desenhava em seus lbios, pondo fim  sua expresso impassvel.
       -- Ah, no! -- exclamou ela, de repente, batendo com a mo na testa.
       -- O que foi, meu anjo?
       -- Esqueci de entregar a Jim a moeda de ouro que lhe prometi.
       -- No se preocupe. Recompensei-o bem quando me entregou seu
bilhete. A bem da verdade, eu seria capaz de lhe dar toda a minha fortuna, se
fosse necessrio. Oh, minha doura, nem imagina as coisas horrveis que me
passaram pela cabea, enquanto eu cavalgava como um louco na frente de
Charles.
       Com um suspiro profundo, concluiu:
       -- Voc podia se considerar salva desde o momento em que recebi o
bilhete. Mesmo que eu no conseguisse interceptar o conde no meio do
caminho, estava decidido a mat-lo, antes que ele a forasse a aceitar sua
proposta de casamento.
       Comovida, Ornella teve mais uma vez a confirmao de que o marqus
no s a amava profundamente como no vacilaria em colocar a vida em risco
para salv-la.
        De repente, ele se ajoelhou ao lado da cadeira dela e tomou-lhe as
mos entre as suas.
        -- Consegui salv-la desta vez, Ornella, mas o que acontecer no
futuro? O que ser de voc, meu amor? No pode viver sozinha... Por isso,
resolvi que deve casar-se.
        -- No. Por favor, no me pea isso. Eu jamais suportaria viver com
outro homem.
        -- Mas sempre haver homens determinados a possu-la.
        -- Estarei segura morando no campo, onde todos me conhecem. A vida
 muito tranquila em Morden Green.
        Embora se esforasse para aparentar naturalidade, Ornella no
conseguia desviar o olhar do marqus.
        -- Vou enloquecer de tanto pensar que voc pode estar correndo perigo,
ou infeliz. Acredita que conseguirei viver nessa agonia? No, Ornella! Sua
presena  fundamental para mim. Tudo o que quero e peo  vida  que voc
esteja do meu lado.
        Relutante, ela ergueu vagarosamente a mo e deslizou os dedos pelos
espessos cabelos negros do marqus.
        Com um gemido rouco, ele acrescentou:
        -- Ns combinamos que nos comportaramos como duas pessoas
apaixonadas. Deixe-me dizer, Ornella, que estou loucamente apaixonado por
voc. No quero perd-la, levando comigo somente as lembranas, depois que
toquei seus lbios e a tomei nos braos.
        -- Oh, meu amor...
        -- A coisa que mais desejo na vida  beij-la sem pressa, acarici-la por
inteiro e sentir o calor de seu corpo contra o meu...
        Como se estivesse hipnotizada por suas palavras, ela deixou escapar
um suspiro profundo.
        -- Se voc me quiser, Ornella, vou beij-la da cabea aos ps e me
sentirei no paraso por isso.
        -- Eu tambm o quero, Darius... Sei que no devo lhe dizer isso, mas 
um sentimento mais forte do que eu.
        -- Ento, meu amor, se ns dois nos desejamos, por que no vamos
embora juntos?
        Aflita, Ornella fez um esforo sobre-humano para no ceder  tentao
de responder que sim, que o acompanharia aonde quer que fosse, pois amava-
o com todo o seu ser.
        No entanto, no conseguiu evitar que a emoo que a invadia
transparecesse atravs de seus olhos.
        -- Voc vem comigo? -- insistiu ele, traindo sua ansiedade.
        -- Por favor... no exija que eu responda, pois perdi a capacidade de
raciocnio... Quando fico diante de voc... sinto-me fraca... e perco a noo
do que  certo ou errado. Sei apenas que o amo e que nada mais tem
importncia!
        Com os olhos rasos d'gua, Ornella baixou a cabea, suplicando:
        -- No tenho condies de responder  sua proposta, Darius... S o
que sei  que quero estar com voc... e faz-lo feliz. O resto quem deve
decidir...  voc. Faa... o que achar melhor... para ns dois.
        Enterrando a cabea entre as mos, Ornella comeou a chorar.
        -- No posso mais... lutar contra... meu corao.
       -- Est me pedindo para proteg-la... contra voc mesma? --
perguntou o marqus, incrdulo.
       -- No sei... o que estou pedindo... Entretanto, farei o que voc julgar
certo.
       Por um momento, ele a olhou fixamente, como se travasse um difcil
debate ntimo.
       Em seguida, levantou-se abruptamente e se afastou.
       -- Vamos! Vou lev-la para Londres!
       Viajaram em silncio, enquanto a carruagem corria desabaladamente
pela estrada poeirenta.
       Quando chegaram perto de Park Lane, Ornella virou-se para ele e disse
com suavidade:
       -- Eu amo voc... Vou am-lo por toda a minha vida, Darius, mas
tambm o respeito... e quero honr-lo.
       Sem responder, ele dirigiu os cavalos para os jardins de Ryde House e
parou diante da porta de entrada.
       Sentindo o corao apertado, Ornella desceu e correu para o hall.
       -- Estou com muita dor de cabea, Willand -- disse ela ao mordomo,
que se adiantara para receb-la. -- Avise  duquesa e a lady Caroline que no
quero ser incomodada em circunstncia alguma!
       -- Est bem, senhorita!
       Vagarosamente, Ornella subiu a grande escadaria, reprimindo o desejo
de dar meia-volta a fim de verificar se o marqus j entrava no hall.
       Reunindo toda a coragem que lhe restava, foi direto para o quarto e
fechou a porta atrs de si.
       Com gestos mecnicos, tirou o chapu e o casaco, atirando-os sobre
uma cadeira, antes de deitar-se.
       Desesperada, afundou a cabea nos travesseiros, dando vazo ao
choro que quase a sufocava. Agora sabia que no havia mais qualquer
esperana!


                                CAPTULO XI


       -- Que inferno! Estou plida como um fantasma! -- gritou Caroline,
olhando-se no espelho. -- Martha, traga meu pote de rougel
       Ajudando-a nos preparativos finais, antes da cerimnia, Ornella
empenhava-se em acalmar a prima, que amanhecera com os nervos  flor da
pele.
       -- Voc est com um aspecto magnfico, Caroline!
       De fato, ela jamais vira um vestido to bonito quanto o de Caroline.
Confeccionado em renda branca de Bruxelas, tinha frisos prateados no decote,
nas mangas e no barrado.
       O vu, que saa de uma delicada grinalda de rosas brancas, media
cerca de cinco metros, e seria carregado por quatro pajens ricamente vestidos.
       Vrios diamantes da coleo dos Ryde lhe enfeitavam os cabelos, o
pescoo e os pulsos, deixando-a com uma aparncia encantadora.
       Sobre a mesinha, ao lado das luvas compridas que completavam o traje,
um ramalhete de orqudeas, unidas por fitas prateadas, aguardava o momento
em que seria carregado para a igreja.
        Enquanto calava os delicados sapatinhos de cetim prateado, Caroline
disse:
        -- Preciso de uma taa de champanhe, para me reanimar, Martha,
providencie isso. Droga! No sei como ningum lembrou que eu necessitaria
de algo forte que me ajudasse a enfrentar a prova que me espera.
        Quando a criada deixou o quarto, apressada, Ornella censurou-a de
modo gentil:
        -- Voc dispe de pouco tempo, querida. Se no se apressar, deixar o
marqus esperando.
        -- Ser bem feito!
        O silncio que se seguiu foi quebrado quando Ornella disse, hesitante:
        -- Voc ser gentil com ele... no ser, Caroline? O marqus precisa
muito de carinho e de... compreenso.
        Inexplicavelmente, Caroline explodiu numa gargalhada sarcstica.
        -- Incrvel! Darius precisa de carinho e de compreenso! E eu? Ontem
ele foi desagradvel ao extremo comigo. Na verdade, no se parecia nem um
pouco com a imagem de um noivo ardente, impaciente pelo dia de npcias!
        -- Sente-se infeliz, querida?
        Fez-se uma pequena pausa, antes que Caroline respondesse,
desafiante:
        --  claro que no! Por sorte, a lua-de-mel no ser longa, e Adelco
estar esperando minha volta. Ele jurou manter-se fiel enquanto eu ficar longe,
e, por estranho que parea, acredito que cumprir a promessa.
        -- Caroline! Voc garantiu que agiria de forma adequada quando se
casasse.
        -- E o que  forma adequada? Se quer saber, sinto um desejo enorme
de tornar a ver Adelco.
        Como se no suportasse a dor causada pelas palavras de Caroline,
Ornella se levantou e caminhou at a outra extremidade do quarto.
        -- Quero muito que voc e o marqus sejam felizes, Caroline
        -- Quando falamos de felicidade, referimo-nos a duas coisas
completamente diferentes, Ornella, Agora, pelo amor de Deus, pare de fazer
sermes e v ver o que aconteceu com meu champanhe!
        -- Est bem.
        Enxugando uma lgrima furtiva, preparava-se para sair, quando ouviu o
barulho de passos e a voz de Martha no corredor.
        -- A vem a criada... mas voc tem que sair para a igreja dentro de trs
minutos.
        Enquanto falava, percebeu que as vozes do lado de fora ficavam mais
altas, como se dois homens discutissem, nervosos.
        De repente, a porta foi aberta com um empurro e um cavalheiro entrou,
empurrando para o lado o lacaio que tentava segur-lo.
        Apesar dos cabelos em desalinho e das roupas amassadas, notava-se
que se tratava de um homem distinto e seguro de si.
        Sem dizer uma palavra, ele parou no centro do quaito, olhando
fixamente para Caroline.
        Com um grito que ecoou pela casa, ela se levantou de um salto e correu
para junto do desconhecido.
        -- George! George!
         -- Caroline! -- exclamou ele, tomando-a nos braos. -- Cheguei a
tempo? Ouvi dizer que voc vai se casar.
         -- Finalmente voc voltou! Oh, George, voc voltou!
         Aos soluos, Caroline se deixava abraar e beijar por ele.
         -- Pensei que voc tivesse morrido. Ah, meu amor, por onde voc
andou?
         -- Constru minha fortuna! -- respondeu ele, com carinho. -- Agora sou
um homem rico, meu amor.
         -- Isso no tem a menor importncia!  voc que eu quero, George!
Sempre amei voc! Nunca me interessei, de fato, por outro homem.
         -- Oh, minha adorada, eu tambm amo voc. E, finalmente, seremos
felizes!
         Com uma saudade incontida, beijaram-se avidamente, enquanto seus
corpos se colavam num bal sensual.
         Sobressaltada, Ornella deu-se conta de que ainda permanecia ali,
observando-os, paralisada, enquanto o marqus j partia para a igreja.
         Num impulso, ela abriu a porta do quarto e saiu. Correu em direo do
patamar da escada e agradeceu aos cus quando viu o marqus parado no
hall.
         A carruagem de gala da famlia Ryde j estava parada no ptio, e Darius
pegava a bengala que Willand lhe estendia, pronto para sair.
         -- Milorde... milorde -- chamou Ornella.
         Como ele no a escutasse, ela desceu alguns degraus, repetindo:
         -- Milorde... Espere, por favor.
         Virando-se lentamente, ele a fitou de modo inquisitivo.
         -- O que aconteceu?
         Assustada com a aspereza de sua voz, ela explicou:
         -- Caroline... gostaria de... falar com o senhor.
         -- Agora?!
         -- Garanto que  um assunto da maior importncia!
         Com um gesto de impacincia, o marqus virou-se e comeou a subir a
escada.
         Irritado por ver seus planos alterados, passou por Ornella sem fit-la
e seguiu direto at a porta do quarto de Caroline.
         Aps uma batida leve, ele no esperou resposta e girou a maaneta. A
porta se abriu, mostrando Caroline com os braos em torno do pescoo de
lorde Faringham. Os dois se beijavam de maneira apaixonada.
         Por um momento, o marqus pareceu transformar-se em pedra, com o
rosto lvido de raiva.
         Pressentindo sua chegada, Caroline levantou o olhar em sua direo,
radiante de alegria.
         -- Darius, perdoe-me. Perdoe-me por no poder me casar com voc!
         Com as pernas trmulas, Ornella retirou-se, fechando a porta atrs de si.
         Sentia-se muito angustiada para permanecer ali, sabendo que toda a
sua felicidade futura dependia da resposta do marqus.
         Ao ouvir um rudo, Ornella virou-se e viu um lacaio que se aproximava,
carregando uma bandeja de prata, contendo champanhe gelado e taas de
cristal.
         -- Sua Senhoria no pode ser perturbado agora -- avisou,
interceptando-lhe a passagem. -- Coloque tudo sobre aquela mesa.
        Balanando a cabea de modo afirmativo, ele cumpriu as instrues e
fez uma reverncia respeitosa.
        -- Preciso viajar para o campo. Por favor, providencie uma carruagem e
diga ao cocheiro para esperar na entrada de Park Street.
        Acostumado com o comportamento estranho e inesperado da nobreza, o
lacaio no demonstrou nenhuma surpresa, limitando-se a responder:
        -- Est bem, senhorita. Tomarei todas as providncias.
        Temendo que o marqus obrigasse Caroline a cumprir com o
combinado, ou ainda que sua presena o pressionasse no sentido de pedi-la
em casamento, Ornella no via melhor sada para sua situao do que voltar a
Morden. Sem perder tempo, correu para o quarto e pegou uma mala, na qual
guardou seus livros de poesia, alguns artigos de toalete e meia dzia de
vestidos simples.
        Trocou-se rapidamente, colocando um traje de viagem, e, ainda
calando as luvas, saiu para o corredor.
        Resolvida a no chamar ateno, usou as entradas e escadas laterais.
        Por sorte, a maioria dos criados j havia se dirigido para a igreja, onde
esperava assistir ao casamento do patro e ver algumas das comentadas
figuras da alta sociedade.
        Dando uma ltima olhada para Ryde House, Ornella enxugou as
lgrimas e correu por uma estradinha de cascalho at o porto de Park Street.
        Ao v-la, o cocheiro saltou da bolia do veculo e pegou sua mala,
ajudando-a a entrar e acomodar-se.
        Feito isso, fez uma reverncia e trancou a porta, pondo os cavalos em
movimento.
        Apertando as mos de puro nervosismo, Ornella se recostou no assento,
tentando acalmar o tumulto que se desencadeara em seu crebro.
        Atravs das janelas da carruagem, via desfilar as ruas e as casas
luxuosas, que simbolizavam toda a sua estada em Londres.
        Com o corao acelerado, comeou a rezar baixinho.
        -- Por favor, meu Deus, haja o que houver, que seja para a felicidade
dele!  s o que desejo no mundo! Faa com que Darius seja feliz!
        Quatro dias depois, Ornella atravessava os jardins de Morden Park,
carregando nas mos um bloco de papis, tinteiro e pena.
        Apesar da tristeza que a invadia, achava reconfortantes os raios de sol
que penetravam por seu vestido, aquecendo-a.
        O jardim encontrava-se maltratado, mas ainda conservava uma beleza
deslumbrante, exibindo uma profuso de flores exticas, borboletas
multicoloridas e pssaros.
        Uma trilha sinuosa cortava o jardim, levando at uma construo branca,
 entrada do bosque.
        O pequeno cmodo de telhado inclinado fora construdo por lorde
Morden, a fim de servir como estdio, e dispunha de janelas amplas, uma
lareira pequena, tapetes e cortinas de renda.
        Sua decorao limitava-se a um jogo de sofs de couro, algumas
cadeiras, uma estante de livros e uma escrivaninha de mogno, onde Ornella
vinha trabalhando ultimamente.
        Entretanto, escrever estava se tornando uma tarefa difcil para ela.
Dispersa, mal pegava na pena, e seus pensamentos voavam para a figura
atltica do marqus.
       Sabia que o perdera e tinha quase certeza de que, para manter as
aparncias, ele se casara com Caroline.
       Mas no o recriminava. Afinal, fora a nica culpada por ter alimentado
fantasias que jamais se concretizariam.
       Tola! Como pudera acreditar que Darius iria querer para esposa uma
pessoa insignificante como ela?
       Talvez houvesse se iludido porque, em sua cabea, ele assumia sempre
a forma de uma pessoa solitria e infeliz.
       Na verdade, agira como uma idiota ao se apaixonar por aquele homem.
Darius era importante, dispunha de uma fortuna imensa e poderia se dar ao
luxo de escolher uma esposa compatvel com sua posio social.
       Portanto, tinha sido muita presuno de Ornella achar que o sentimento
que ele dizia nutrir por ela fosse alm de um simples interesse passageiro: o
desejo de possuir algo fora de seu alcance.
       Incapaz de se concentrar, ela se levantou e deu uma volta pelo cmodo.
Precisava superar aquele estado de depresso. Agora, mais do que nunca,
dependia exclusivamente de seu trabalho, e, em poucos meses, suas
economias chegariam ao fim.
       Com um suspiro resignado, pegou a pena e rabiscou algumas palavras.
Porm, logo se desanimou e amassou a folha, atirando-a no cesto de papis.
       Feito isso, enterrou a cabea entre as mos, com o olhar fixo num ponto
invisvel e as lgrimas rolando lentamente pelo rosto.
       Semiparalisada, permaneceu um longo tempo contemplando o vazio, at
que uma voz profunda a trouxe de volta  realidade.
       -- Chorando? E eu acreditei que voc ficaria feliz de me ver, querida!
       Com um gritinho abafado, ela observou o marqus, que, de p  sua
frente, exibia um sorriso radiante nos lbios. Muito atraente, ele usava calas
de montaria, botas de verniz e palet cintado sobre o colete justo de l acinzen-
tada.
       Depositando o chapu e as luvas sobre a escrivaninha, ele deu alguns
passos em sua direo.
       -- Voc... veio -- murmurou Ornella, quase sem acreditar em seus
olhos.
       -- Voc no me esperava? Perdoe-me a demora, meu anjo, mas
precisei resolver uns... assuntos importantes.
       Experimentando um misto de alegria e apreenso, ela mordeu
nervosamente os lbios antes de murmurar:
       -- H uma coisa... que quero dizer-lhe.
       -- Claro! Estou ouvindo...
       Mostrando desenvoltura, ele se recostou numa coluna, com os braos
cruzados diante do peito e uma expresso intrigada no olhar.
       -- Pode falar, querida -- insistiu ele, com suavidade.
       --  difcil encontrar as palavras.
       -- Tente... H algo errado?
       -- Bem, no dia em que me salvou de lorde Rotherton, voc disse
algumas... coisas, das quais pode ter-se... arrependido...
       -- Que coisas?
       -- Olhe, no quero que se sinta obrigado a nada.
       -- E se eu afirmar que no estou me sentindo obrigado...
       -- Mas no se trata apenas disso. Refleti muito e cheguei  concluso
de que no sou adequada...
        -- Meu Deus! Adequada para qu?
        -- Para... uma posio to importante...
        -- A posio que estou lhe oferecendo  muito simples, Ornella. Desejo
somente que voc se torne minha esposa.
        No querendo que ele visse o brilho de felicidade que surgira em seus
olhos, ela baixou a cabea, encabulada.
        -- Olhe para mim, Ornella!
        Vencendo a sbita timidez que lhe dificultava os movimentos, ela
levantou a cabea e encarou-o, com o corao acelerado pela emoo.
        De repente, seus olhares se encontraram, e, como se estivessem
hipnotizados, eles correram um para os braos do outro, ansiosos por
recuperar todo o tempo perdido.
        Abraaram-se com paixo, sentindo uma incrvel alegria apoderar-se
deles.
        Apertando-a contra si, Darius beijou-lhe os cabelos, sussurrando
palavras de carinho.
        Em seguida, ele a afastou um pouco de si e, segurando-lhe o queixo,
obrigou-a a encar-lo. Logo seus lbios se encontraram num beijo gentil, que a
fez estremecer da cabea aos ps.
        Sem solt-la, ele afastou um pouco a cabea, dizendo:
        -- Voc nem imagina como sonhei com este instante!
        Em seguida, tornou a inclinar-se sobre ela, cobrindo sua boca com um
beijo vido que se intensificava a cada instante.
        Aos poucos, o mundo pareceu deixar de existir, e ambos se entregaram
quela explorao deliciosa, que quase os fazia delirar de prazer.
        Seus corpos se amoldavam um ao outro, e seus coraes batiam
acelerados em unssono.
        Agora que nada impedia sua felicidade, Ornella ansiava pelo momento
em que se entregaria a ele de corpo e alma para, juntos, gozarem da mais
infinita felicidade, coisa que apenas o amor podia proporcionar.
        Quando enfim eles se separaram, Darius perguntou, com voz rouca:
        -- Ser que as estrelas caram do cu, meu amor?
        -- No! Foi voc que me levou at elas!
        Deixando escapar um gemido de desejo, ele tornou a abra-la com
fora, e seus lbios procuraram os dela para um beijo possessivo.
        Mais tarde, sentados no sof com uma indizvel expresso de felicidade
no rosto, os dois conversavam, abraados:
        -- Caroline se casou?
        -- Nunca vi uma noiva mais radiante.
        -- Quando foi o casamento?
        -- Dei a Faringham minhas roupas, o anel de noivado e minha posio
diante do altar.
        Surpresa, Ornella fitou-o, boquiaberta.
        -- Quer dizer que ele se casou no seu lugar?
        -- Sim!  verdade que houve um pequeno atraso na cerimnia, mas
tudo correu bem. Faringham no queria perder Caroline, e, quanto antes
selasse aquela unio, tanto melhor.
        -- Mas e o regente? E os outros convidados, como reagiram?
        -- Quando expliquei o que havia acontecido, Prinny achou tudo muito
engraado, o que ajudou a descontrair o ambiente.
       -- Que situao!
       -- O resto dos presentes adorou a chance de mexericar sobre o chute
que o perverso marqus de Ryde tinha levado pela primeira vez na vida.
       Deu uma risada e continuou, com mais seriedade:
       -- Por isso, decidi no lhes dar oportunidade de falarem sobre voc, e
fiz um plano com o qual espero que concorde.
       -- Voc sabe que estou de acordo com tudo o que voc quiser, meu
amor... Fico to feliz por Caroline! Ela nunca amou outro homem a no ser
George.
       -- Deu para notar isso. Quando partiram para a lua-de-mel, ela sorria,
radiante.
       -- E George? Conseguiu recuperar a fortuna?
       -- Ele me assegurou que  rico como o rei Midas. E, mesmo que no
fosse, eu lhe daria metade da minha fortuna.
       -- Por qu?
       -- Ora, eu havia perdido todas as esperanas, e nunca imaginei que iria
ganhar, quando virasse a ltima carta...
       -- De fato, tivemos muita sorte. Para ser franca, s vezes, acho que
tudo no passa de um sonho!
       -- No, meu amor,  tudo verdade! E ento, no quer saber quais so
os meus planos?
       -- Claro! Conte-me...
       -- Sem voc perceber, coloquei dois cavalos em sua cocheira hoje de
manh. Se galoparmos atravs do campo, chegaremos a Ryde Hall antes do
que se fssemos de carruagem pela estrada. E, ainda esta noite, poderemos
nos casar em minha capela particular!
       -- Esta noite?
       -- Exatamente! A menos,  lgico, que voc no me ame mais.
       -- Voc sabe que quero ficar ao seu lado... para o resto da vida.
       Ele beijou-a de leve no rosto, antes de continuar.
       -- Para evitar intrigas a seu respeito, faremos um casamento secreto e
depois viajaremos para o exterior. Vou lev-la direto para Florena, onde voc
ver seu prprio retrato pintado por Botticelli h quase quatrocentos anos.
       -- Darius,  maravilhoso!
       -- Depois exploraremos os canais de Veneza e visitaremos Roma.
Daqui a dois meses, anunciaremos que nosso casamento foi feito no exterior.
Assim, quando voltarmos, as pessoas j tero se fartado de falar sobre ns e
no nos aborrecero. O que acha?
       -- No podia esperar nada mais excitante, meu amor.
       -- Ento vamos partir logo. Quero que voc conhea a casa que ser
nosso lar no futuro.
       -- Ai, Darius, acabo de lembrar que no trouxe roupa de montaria...
Deixei tudo em Londres.
       -- Pois eu trouxe sua roupa comigo.
       -- Oh, Darius, voc pensa em tudo!
       -- S penso em voc, meu anjo.
       Voltaram abraados pelo jardim, parando aqui e ali para admirar as
flores ou observar alguma borboleta de colorido extico.
       Rindo muito, Ornella se sentia como uma criana feliz, livre de qualquer
preocupao.
        Os empregados de Morden House serviram uma refeio ligeira, e,
antes da uma hora, Ornella e o marqus montaram dois magnficos puros-
sangues e comearam a galopar atravs dos campos, em direo a Ryde Hall.
        Era um dia ensolarado, com uma brisa leve que refrescava o calor e
balanava as folhas das rvores, produzindo uma espcie de msica.
        Felizes, Ornella e Darius pararam numa taverna fora da estrada e
beberam sidra feita em casa.
        Em seguida, tomaram o caminho. Duas horas mais tarde, ele insistiu em
que descansassem um pouco  sombra das rvores. Ela concordou, e Darius
ajudou-a a desmontar, aproveitando o pretexto para abra-la e beij-la com
paixo.
        Ainda abraados, sentaram-se num tronco coberto de musgo,
observando um riacho que corria pela floresta.
        -- Feliz, meu amor? -- perguntou Darius depois de alguns instantes.
        -- Nunca pensei que um dia me sentiria to feliz. Eu gostaria que
ficssemos aqui para sempre... lojnge do mundo... S voc e eu!
        -- Por qu? Algo a assusta?
        -- Bem... eu me sinto meio apreensiva... Tenho receio de no satisfaz-
lo...
        -- Que bobagem! Isso nunca aconteceria, meu amor.
        -- No sei... Daqui a algum tempo voc pode me considerar enfadonha
e se arrepender... Afinal, est acostumado a mulheres lindas e habilidosas,
donas dos mais variados talentos... e eu no passo de uma provinciana que s
pode lhe oferecer amor.
        -- E quem disse que eu quero mais do que isso? Admita ou no, meu
amor, voc  a metade que procurei durante toda a minha vida. Por isso,
considero-a perfeita!
        -- Acredita mesmo que eu seja sua outra metade?
        -- Claro que sim, e voc sabe disso. Eu a adoro! E acho-a perfeita,
linda, boa... enquanto eu no passo de um perverso...
        Estendendo a mo, Ornella pousou os dedos de leve sobre sua boca,
impedindo-o de prosseguir.
        -- Por favor, no repita isso! Esse apelido foi apenas a forma que
encontraram de puni-lo pelo fato de voc desafiar as convenes. Somente um
bruto no compreenderia que sua revolta nasceu de uma profunda solido.
Voc se viu obrigado a lutar contra o mundo muito cedo, Darius.
        Com voz extremamente suave, ela concluiu:
        -- Para mim voc representa tudo o que h de bom, nobre e gentil. Por
isso, no aceito que voc se torture com essas bobagens.
        Sorrindo, ele se deitou, puxando-a para cima de si, enquanto seus lbios
aprisionavam os dela num beijo repleto de paixo.
        -- Eu amo voc! Deus, como amo voc! Faa de mim o que quiser,
Ornella. Pode transformar-me no homem que voc sempre desejou...
        -- Voc j  tudo que sonhei, meu amor.
        O sol comeava a se pr no horizonte, quando eles chegaram 
elevao que conduzia a Ryde Hall.
        Raios avermelhados coloriam o cu, refletindo-se no telhado da
imponente manso de estilo elizabetano. Aquela era uma das maiores
construes da Inglaterra, e fora restaurada e ampliada pelo av do marqus,
h muitos anos.
       Ao v-la, Ornella sentiu um estremecimento percorrer-lhe o corpo e foi
assaltada por uma repentina insegurana.
       -- Voc ficar sempre do meu lado? -- perguntou, olhando para o
marqus.
       -- Por toda a eternidade, meu anjo.
       -- Juro que eu preferia uma casinha modesta, onde pudssemos nos
amar simplesmente.
       -- Arrependeu-se de ter me aceitado para marido?
       -- Lgico que no! Apenas me assustei com toda essa imponncia.
       Comovido, Darius emparelhou seu cavalo ao de Ornella e tomou-lhe a
mo, beijando-a.
       -- Em qualquer lugar ns seramos felizes, meu amor.
       Os dois se fitaram por alguns instantes, antes de esporearem os
cavalos, avanando em direo  casa.
        entrada, o mordomo os recebeu, e, seguindo as instrues de Darius,
ordenou que uma criada acompanhasse Ornella at os seus aposentos.
       A jovem camareira levou-a ento ao chamado quarto das noivas, onde
havia uma imensa banheira de mrmore cheia de gua morna e fragrncia de
rosas.
       Ornella mergulhou na gua perfumada e ficou um longo tempo deitada,
relaxando toda a tenso que sentia. Depois, ajudada por duas camareiras,
enxugou-se e vestiu um robe de cetim, enquanto se perguntava que roupa
usaria no dia de seu casamento.
       Nesse momento, a governanta entrou, carregando um cabide.
       -- Sua Alteza mandou vir de Londres, milady...
       Olhando para o vestido, Ornella compreendeu o motivo da demora de
Darius em ir ao seu encontro.
       Confeccionado em gaze branca de Bruxelas, o traje era todo bordado de
minsculas estrelinhas prateadas, formando um conjunto deslumbrante.
       Depois de vesti-la, a governanta entregou-lhe uma tiara de estrelas de
diamantes e um colar combinando. Ambas as peas tinham armao de ouro
branco e eram de uma delicadeza mpar.
       Percebendo que as jias no pertenciam  coleo Ryde, ela imaginou
que o marqus devia ter vasculhado toda Londres a fim de encontrar aquelas
peas belssimas, e ficou emocionada com sua ateno.
       -- A senhorita ficou uma noiva linda! -- elogiou a governanta,
entusiasmada.
       -- Parece uma princesa sada de um conto de fadas -- comentou uma
das camareiras.
       -- Obrigada... Assim, vocs vo acabar me deixando encabulada.
       As moas riram e prenderam em seus cabelos um vu prateado que
pertencia  famlia desde tempos imemoriais.
       Emocionada, Ornella desceu lentamente a escada, rezando para que
tudo no fosse apenas um sonho.
       Com uma expresso de deslumbramento no olhar, Darius a aguardava
no andar trreo, e correu ao seu encontro, entregando-lhe um gracioso buqu
de delicados botes de rosas brancas.
       Sem dizer nada, ele a pegou pelo brao, conduzindo-a atravs de
corredores sinuosos at uma minscula capela, de onde se ouviam os acordes
de um rgo. De p, no altar, um capelo os aguardava.
        Enquanto repetiam os votos solenes em voz baixa, o marqus segurou
firmemente sua mo.
        Quando a cerimnia terminou, ele a levou de volta pelo mesmo caminho
at chegarem a um pequeno salo, que dava vista para um jardim de rosas.
        Ento Darius tomou-a nos braos, profundamente emocionado.
        -- Minha esposa, meu amor, minha vida!
        Beijaram-se com loucura e nem viram o tempo passar, ambos
dominados por um encantamento e uma felicidade indescritveis.
        Em seguida, dirigiram-se a uma outra sala, onde o jantar foi servido
numa pequena mesa oval, decorada com flores brancas.
        -- Esta  a segunda refeio que fazemos juntos -- comentou Darius,
sorrindo.
        Ao final do jantar, acomodaram-se no sof e ficaram conversando e
bebericando licor durante um longo tempo.
        De repente, o relgio bateu, e Ornella sobressaltou-se, percebendo que
j era madrugada.
        Olhando para o marido, compreendeu o que ele desejava dela e
levantou-se.
        Sem uma palavra, sorriu timidamente e, dando meia-volta, dirigiu-se
para o quarto das noivas.
        As camameiras a aguardavam e ajudaram-na a se despir e a escovar os
longos cabelos, que lhe caam como uma cascata pelas costas. Enfim,
apagaram os candelabros e saram, deixando acesas apenas as duas velas
prximas  cabeceira da cama.
        O quarto ficou mergulhado nas sombras, e Ornella comeou a pensar
em todas as noivas que, ao longo dos sculos, haviam transformado aquela
casa imensa num lar para seus maridos e filhos.
        De repente, percebeu que o marqus estava parado ao lado da cama,
observando-a.
        Usava um robe de brocado e fitava-a com uma expresso que ela nunca
vira em seu rosto
        Num mpeto, Ornella saiu da cama e correu ao encontro do marido,
esquecida de que vestia somente uma camisola de chiffon transparente, que
revelava suas formas delicadas.
        Jogou-se nos seus braos fortes e vibrou quando ele a apertou contra si.
        -- Oh, Darius!
        Para seu espanto, porm, ele no a beijou, limitando-se a olh-la.
        -- O que foi, querido?
        -- Em que voc pensava?
        -- Eu agradecia a Deus por termos nos encontrado... e estarmos juntos.
        -- Tenho uma coisa para lhe dizer, meu anjo.
        Sobressaltada, Ornella teve medo de que o tom srio do marqus
significasse que alguma coisa poderia estragar aquela felicidade.
        -- O que foi?
        -- Ns nos conhecemos h pouco tempo, e quase no tivemos chance
de ficarmos juntos... Por isso, peo que voc analise bem o que vou lhe dizer.
        Preocupada, ela o fitou nos olhos.
        -- Alguma coisa est errada?
        -- De jeito algum. Nada poderia estar errado, agora que voc  minha
esposa. Mas... se voc preferir esperar para que... eu a possua, ento eu
esperarei. Eu a amo tanto que no suportaria assust-la!
      Fez uma pausa antes de concluir:
      -- Sabe que a desejo demais.  como se um fogo ardesse dentro de
mim. No entanto, caso voc ainda no se sinta preparada para consumar
nosso casamento, no a forarei a nada, entende?
      Comovida com a prova de amor que ele lhe oferecia, Ornella demorou
alguns instantes para responder. Tinha medo de no conseguir convenc-lo de
que o mesmo desejo que o atormentava torturava-a tambm. Por isso,
escolheu bem as palavras ao declarar:
      -- Sinto que nosso amor  divino... e foi abenoado por Deus... E do
mesmo modo que voc me quer como mulher... eu o desejo como... homem...
      Um beijo apaixonado selou essa confisso, e tudo o que se seguiu foi
bonito demais para poder ser descrito. Basta dizer que Ornella e Darius
experimentaram as verdadeiras delcias do paraso e, quando adormeceram,
exaustos, o sol j despontava por trs das montanhas.


                                   Fim
